É recorrente olhar para a China como "the next big threat!", especialmente se tivermos em conta o que aconteceu aon longo da história com os poderes emergentes. Paul Kennedy em "The Rise and Fall of Great Powers" ou Jacek Krugler e Douglas Lemke em "Parity and War" analisam que ao longo dos tempos tem havido situações em que o poder hegemónico em queda e a potência emergente entram em conflito. Outros como George Modelski e William R. Thompson estabelecem a correlação entre a evolução da economia global e os poderes políticos em "Leading Sectors and World Powers".
No que diz respeito à China vão aparecendo alguns livros mais sensacionalistas como "The Coming Conflict with China", de Richard Bernstein e Ross H. Munro e artigos de "think tanks" ansiosos por se transformarem em self-fulfilling prophecies. Todas estas contribuições são enriquecedoras, mas naturalmente terão que ser articuladas com outras perspectivas. Neste vastíssimo campo de estudos, sublinho o papel de um dos académicos que mais e melhor olha para a política interna e externa da China: David Shambaugh. Num artigo elucidativo publicado na International Security - "China Engages Asia" - o co-editor de "Chinese Foreign Policy: Theory and Practice" (uma das bíblias dos estudiosos da política externa chinesa) argumenta:
“All Asian Nations and the United States must adjust to the new realities presented by China’s regional ascent. China need not to be feared or opposed, although some states may hedge against the potential for Chinese dominance. China«s interests and regional preferences may well coincide with those of its neighbours and the United States, providing opportunities for collaboration. The nascent tendency of some Asian states to bandwagon with Beijing is likely to become more manifest over time”
Acerca do papel dos modelos teóricos dominantes nas relações internacionais no entendimento do que se passa na Ásia e na relação de vários países asiáticos com a China – sempre tendo como contraponto ou complemento dos EUA, - Shambaugh sabiamente observa:
“Analysts and policymakers therefore need to employ multiple analytic tools and policy instruments to effectively understand and navigate the Asian region in the coming years. Realist theory seems particularly incapable of explaining such a complex and dynamic environment, and it tends to offer oversimplified (and sometimes dangerous) political prescriptions. Nor does liberal institutionalism fully suffice as an analytic paradigm. There are phenomena in Asia today that neither realist nor liberal international relations theory is able to capture, thus requiring deep grounding in area studies to be comprehended".
Ler "China Engages Asia", aqui.
Friday, March 31, 2006
Novas regras para comentários
Estimados leitores,
Em face do que tem acontecido nalgumas caixas de comentários, a partir de hoje apenas quem tiver registo poderá escrever comentários. Quanto à extensão dos comentários, apenas serão admitidos comentários de curta média dimensão - nada de lençóis, nem citações intermináveis. Por outro lado, mensagens que incitam ao ódio ou insultos gratuitos também não terão lugar.
Peço desculpa pelo incómodo, mas certamente que compreendem.
Mais uma vez, muito obrigado por passarem por este blogue que ultimamente anda menos actualizado, por diversos afazeres. Mesmo assim, procurarei manter um ritmo regular de "postagem".
Os melhores cumprimentos,
A Gerência
Em face do que tem acontecido nalgumas caixas de comentários, a partir de hoje apenas quem tiver registo poderá escrever comentários. Quanto à extensão dos comentários, apenas serão admitidos comentários de curta média dimensão - nada de lençóis, nem citações intermináveis. Por outro lado, mensagens que incitam ao ódio ou insultos gratuitos também não terão lugar.
Peço desculpa pelo incómodo, mas certamente que compreendem.
Mais uma vez, muito obrigado por passarem por este blogue que ultimamente anda menos actualizado, por diversos afazeres. Mesmo assim, procurarei manter um ritmo regular de "postagem".
Os melhores cumprimentos,
A Gerência
Wednesday, March 29, 2006
Reequilíbrios II
A edição desta semana da Economist traz um dossier imperdível sobre a China. Eis algumas pistas interessantes:
"China's growth and increasing confidence is also beginning to affect the way is behaves on the world stage. If only tentatively so far, it is beginning to act like a big power. A country that once preferred to stay clear of multilateral diplomacy is now at the center of multilateral efforts to persuade North Korea to abandon its nuclear-weapons programmes."
"Political reform matters. Without it, it is hard to imagine how China could make the kind of stable transition to democracy that Taiwan has achieved; and an unstable China is more likely to pose threat to the world".
"China's growth and increasing confidence is also beginning to affect the way is behaves on the world stage. If only tentatively so far, it is beginning to act like a big power. A country that once preferred to stay clear of multilateral diplomacy is now at the center of multilateral efforts to persuade North Korea to abandon its nuclear-weapons programmes."
"Political reform matters. Without it, it is hard to imagine how China could make the kind of stable transition to democracy that Taiwan has achieved; and an unstable China is more likely to pose threat to the world".
Tuesday, March 28, 2006
Reequilíbrios
Vale a pena prestar mais atenção ao que está escrito no Plano Quinquenal 2006-2010. Um dos aspectos mais importantes tema ver com a mudança de perfil do crescimento económico que a China pretende adoptar. O PIB da República Popular da China deverá deixar de estar apenas ancorado no investimento e nas exportações, para ter uma fatia cada vez mais importante ao nível do consumo interno. Ou seja, a China deixará de ser apenas a fábrica do mundo para passar a ser igualmente um mercado de consumidores, que com a ascenção social proveniente das reformas económicas iniciadas há 25 anos por Deng Xiaping, passarão a ter um poder de compra cada vez mais elevado. Por outro lado, o estado passará a colocar em prática instrumentos de correcção das desigualdades (ainda que de forma limitada), o que terá duas funções primordiais: primeiramente providenciar uma rede de apoio na segurança social e nos cuidados médicos; em segundo lugar, libertar rendimentos para o consumo. E isto terá naturalmente efeitos a nível global: Stephen Roach, economista-cehe da Morgan Stanley destaca três efeitos potenciais deste novo equilíbrio: a baixa de preços de matérias-primas, valorização da moeda chinesa e aparecimento do consumidor chinês.
"a redução do ritmo de crescimento do investimento temperará o impacto da China em muitos mercados de matérias-primas.
Por exemplo, em 2005, a China representou 25 por cento da procura mundial de alumínio e entre 30 a 35 por cento do consumo global de cobre, ferro, aço e carvão.
No caso concreto do petróleo, o esforço chinês de conservação de energia - há uma meta de redução de 20 por cento do conteúdo em energia na produção em cinco anos - pode amplificar as tendências para a baixa nos preços do petróleo dos produtos refinados.
Em segundo lugar, a valorização da moeda favoreceria o consumo e reduziria o excedente comercial, o que aliviaria as tensões proteccionistas anti-chinesas em crescendo no comércio internacional.
Esta evolução beneficiaria Japão, Taiwan e Coreia do Sul, entende Roach.
O terceiro impacto potencial mencionado é o aparecimento do consumidor chinês, que deve ser "a história principal dos próximos três a cinco anos".
A liderança chinesa, realça, admite que este cenário tem riscos, o principal dos quais é o da instabilidade, vista como "o constrangimento principal ás reformas e ao desenvolvimento da China".
Desde 1997, as empresas estatais já reduziram o seu efectivo laboral em 60 milhões de pessoas.
Esta redução massiva de emprego público tem sido compensada com um crescimento económico acelerado.
A questão, agora, é saber se a redução da taxa de crescimento para os 7,5 por cento ao ano nos próximos cinco anos é compatível com a reorganização do sector empresarial público.
Roach admite que sim, uma vez que as reformas das empresas públicas já estão avançadas e que o ritmo de redução de pessoal baixou para dois milhões por ano". (Lusa)
"a redução do ritmo de crescimento do investimento temperará o impacto da China em muitos mercados de matérias-primas.
Por exemplo, em 2005, a China representou 25 por cento da procura mundial de alumínio e entre 30 a 35 por cento do consumo global de cobre, ferro, aço e carvão.
No caso concreto do petróleo, o esforço chinês de conservação de energia - há uma meta de redução de 20 por cento do conteúdo em energia na produção em cinco anos - pode amplificar as tendências para a baixa nos preços do petróleo dos produtos refinados.
Em segundo lugar, a valorização da moeda favoreceria o consumo e reduziria o excedente comercial, o que aliviaria as tensões proteccionistas anti-chinesas em crescendo no comércio internacional.
Esta evolução beneficiaria Japão, Taiwan e Coreia do Sul, entende Roach.
O terceiro impacto potencial mencionado é o aparecimento do consumidor chinês, que deve ser "a história principal dos próximos três a cinco anos".
A liderança chinesa, realça, admite que este cenário tem riscos, o principal dos quais é o da instabilidade, vista como "o constrangimento principal ás reformas e ao desenvolvimento da China".
Desde 1997, as empresas estatais já reduziram o seu efectivo laboral em 60 milhões de pessoas.
Esta redução massiva de emprego público tem sido compensada com um crescimento económico acelerado.
A questão, agora, é saber se a redução da taxa de crescimento para os 7,5 por cento ao ano nos próximos cinco anos é compatível com a reorganização do sector empresarial público.
Roach admite que sim, uma vez que as reformas das empresas públicas já estão avançadas e que o ritmo de redução de pessoal baixou para dois milhões por ano". (Lusa)
Monday, March 27, 2006
Libertem-no

Hao Wu, realizador e blogger chinês, foi detido, sem culpa formada, pelas autoridades, há mais de um mês.
"Hao Wu (Chinese name: 吴皓), a Chinese documentary filmmaker who lived in the U.S. between 1992 and 2004, was detained by the Beijing division of China’s State Security Bureau on the afternoon of Wednesday, Febuary 22, 2006. On that afternoon, Hao had met in Beijing with a congregation of a Christian church not recognized by the Chinese government, as part of the filming of his next documentary."
"The reason for Hao’s detention is unknown. One of the possibilities is that the authorities who detained Hao want to use him and his video footage to prosecute members of China’s underground Churches"
Ler mais em Free Hao Wu.
Sunday, March 26, 2006
Leituras Dominicais
"How to make China even richer", The Economist.
"China gets its pound of Russian flesh", Patrick G Moore no Asia Times.
"The new globalisation guru?" New Statesman.
"Low Costs, Plentiful Talent Make China a Global Magnet for R&D", Kathy Chen, Wall Street Journal via Yale Global.
"China gets its pound of Russian flesh", Patrick G Moore no Asia Times.
"The new globalisation guru?" New Statesman.
"Low Costs, Plentiful Talent Make China a Global Magnet for R&D", Kathy Chen, Wall Street Journal via Yale Global.
Friday, March 24, 2006
Nova Guerra Fria?
Escreve AAA no Observador e no Insurgente, acerca da emergência da China:
"Quais as ilações de tudo isto? A primeira é que o mundo unipolar (no qual apenas os EUA projectam poder) acabou. Naturalmente que os efeitos se sentirão apenas a prazo, mas a realidade é já bastante diferente da que tínhamos na última década do século XX. A segunda Guerra Fria (como lhe chama Robert Kaplan) começou; um novo equilíbrio de forças está a surgir e o mercado das alianças anda ao rubro"
Julgo que é desajustada a expressão utilizada por Kagan, no entanto é nítida a nova dinâmica de alianças na Ásia, muitas vezes cruzadas com várias facetas, daí que subscreva que "o mercado de alianças está ao rubro". Em especial a expressão mercado. A unipolaridade norte-americana é recorrentemente desafiada pela China, não através de acções ou declarações hostis, mas por intermédio do reforço de uma rede de alianças e parcerias de índole económico com o sudeste asiático, a Ásia Central ou a Rússia, já para não falar da estratégia chinesa para a América Latina (que está a levantar os cabelos a Washington). Há um factor determinante, que de resto é óbvio. A necessidade da China diversificar as fontes energéticas. Por outro lado, os países com quem Pequim reforça os laços comerciais sabem que têm muito a ganhar no acesso ao crescente mercado de consumo chinês. A rede de interdependência que está está a ser tecida por Pequim - mais devido a uma necessidade e aos inetresses nacionais do que a uma crença idealista no multilateralismo - terá consequências difíceis de prever.
Numa análise realista poderemos antecipar uma nova distribuição de poder no sistema internacional, em que a China lutará, minime, pela manutenção do status quo, ou, maxime, pela maximização do seu poder (no sentido lato). Contudo muitas questões se entrecruzam nesta análise: é preciso não só olhar para o impacto que a China tem e terá nas relações internacionais, mas também vice-versa. A adesão às instituições multilaterais implica a transformação interna ao nível da accountability do seu sistema financeiro, do estado de direito e da construção de uma identidade inetrsubjectiva, com o aumento da interacção multilateral. Acrescente-se ainda que não podemos ter uma visão fechada sobre os actores nas relações internacionais, olhando apenas par os estados - há que vislumbrar a complexidade das relações estado-mercado-indústria militar-energia.
Um dos hábitos (vícios, para alguns) realistas é olhar constantemente para a história em busca de analogias e constância de comportamentos de um estado emergente num determinado contexto. Avery Goldstein, académico da linha (mas também crítico) de Kenneth Waltz tem escrito sobre a Grande Estratégia da China, colocando ênfase ao comportamento da diplomacia chinesa desde 1996. Para Goldstein, a China de hoje assemelha-se ao que designa de "Neo-Bismarkismo". Tendo eu dúvudas quanto a esta categorização, julgo ser interessante ler a seguinte passagem:
"The real danger, or more troubling possibly, is not that China will abandon its neo-Bismarkian strategy in favour of an ambitious, expansionist crusade, but that unintended consequences in might follow from the strategy's success. Like its nineteenth-century forerunner, the neo-Bismarkian approach entails extensive and intensive linkages among states with competitive and common interests. As long as relations are more cooperative than conflictive, fostering tight interdependence may be attractive. But the risk in this sort of arrangements is that when problems emerge they ripple through the system in unpredictable ways that defy efforts at management"
Avery Goldstein, "An Emerging China's Grand Strategy", in G. John Ikenberry and Michael Mastaduno (ed), International Relations Theory and the Asia Pacific, p.86
"Quais as ilações de tudo isto? A primeira é que o mundo unipolar (no qual apenas os EUA projectam poder) acabou. Naturalmente que os efeitos se sentirão apenas a prazo, mas a realidade é já bastante diferente da que tínhamos na última década do século XX. A segunda Guerra Fria (como lhe chama Robert Kaplan) começou; um novo equilíbrio de forças está a surgir e o mercado das alianças anda ao rubro"
Julgo que é desajustada a expressão utilizada por Kagan, no entanto é nítida a nova dinâmica de alianças na Ásia, muitas vezes cruzadas com várias facetas, daí que subscreva que "o mercado de alianças está ao rubro". Em especial a expressão mercado. A unipolaridade norte-americana é recorrentemente desafiada pela China, não através de acções ou declarações hostis, mas por intermédio do reforço de uma rede de alianças e parcerias de índole económico com o sudeste asiático, a Ásia Central ou a Rússia, já para não falar da estratégia chinesa para a América Latina (que está a levantar os cabelos a Washington). Há um factor determinante, que de resto é óbvio. A necessidade da China diversificar as fontes energéticas. Por outro lado, os países com quem Pequim reforça os laços comerciais sabem que têm muito a ganhar no acesso ao crescente mercado de consumo chinês. A rede de interdependência que está está a ser tecida por Pequim - mais devido a uma necessidade e aos inetresses nacionais do que a uma crença idealista no multilateralismo - terá consequências difíceis de prever.
Numa análise realista poderemos antecipar uma nova distribuição de poder no sistema internacional, em que a China lutará, minime, pela manutenção do status quo, ou, maxime, pela maximização do seu poder (no sentido lato). Contudo muitas questões se entrecruzam nesta análise: é preciso não só olhar para o impacto que a China tem e terá nas relações internacionais, mas também vice-versa. A adesão às instituições multilaterais implica a transformação interna ao nível da accountability do seu sistema financeiro, do estado de direito e da construção de uma identidade inetrsubjectiva, com o aumento da interacção multilateral. Acrescente-se ainda que não podemos ter uma visão fechada sobre os actores nas relações internacionais, olhando apenas par os estados - há que vislumbrar a complexidade das relações estado-mercado-indústria militar-energia.
Um dos hábitos (vícios, para alguns) realistas é olhar constantemente para a história em busca de analogias e constância de comportamentos de um estado emergente num determinado contexto. Avery Goldstein, académico da linha (mas também crítico) de Kenneth Waltz tem escrito sobre a Grande Estratégia da China, colocando ênfase ao comportamento da diplomacia chinesa desde 1996. Para Goldstein, a China de hoje assemelha-se ao que designa de "Neo-Bismarkismo". Tendo eu dúvudas quanto a esta categorização, julgo ser interessante ler a seguinte passagem:
"The real danger, or more troubling possibly, is not that China will abandon its neo-Bismarkian strategy in favour of an ambitious, expansionist crusade, but that unintended consequences in might follow from the strategy's success. Like its nineteenth-century forerunner, the neo-Bismarkian approach entails extensive and intensive linkages among states with competitive and common interests. As long as relations are more cooperative than conflictive, fostering tight interdependence may be attractive. But the risk in this sort of arrangements is that when problems emerge they ripple through the system in unpredictable ways that defy efforts at management"
Avery Goldstein, "An Emerging China's Grand Strategy", in G. John Ikenberry and Michael Mastaduno (ed), International Relations Theory and the Asia Pacific, p.86
Thursday, March 23, 2006
Wednesday, March 22, 2006
Uma sugestão
Para quem está em Portugal.
A ascensão da China: que dilemas?
Universidade do Minho 28 e 29 de Março Auditório A1
Campus de Gualtar Braga
Com a presença de: Ana Cristina Alves, Moisés Silva Fernandes , Cármen Amado Mendes , Franco Algieri, Luís Filipe Lobo-Fernandes, Miguel Santos Neves, Luís Leitão Tomé, Dora Martins, Heitor Romana , entre outros.
Em debate estão assuntos como a Política Interna Chinesa, Geopolítica Chinesa, Política Externa Chinesa, As Relações Luso – Chinesas – Macau, O Impacto da abertura da economia chinesa em Portugal ou O Impacto da abertura da economia chinesa no Ocidente.
A ascensão da China: que dilemas?
Universidade do Minho 28 e 29 de Março Auditório A1
Campus de Gualtar Braga
Com a presença de: Ana Cristina Alves, Moisés Silva Fernandes , Cármen Amado Mendes , Franco Algieri, Luís Filipe Lobo-Fernandes, Miguel Santos Neves, Luís Leitão Tomé, Dora Martins, Heitor Romana , entre outros.
Em debate estão assuntos como a Política Interna Chinesa, Geopolítica Chinesa, Política Externa Chinesa, As Relações Luso – Chinesas – Macau, O Impacto da abertura da economia chinesa em Portugal ou O Impacto da abertura da economia chinesa no Ocidente.
Tuesday, March 21, 2006
Mário Telò
"Há duas opções: ou a política de contenção do crescimento e isolamento ou diálogo multilateral. A UE escolheu a segunda opção. Os Estados Unidos estão incertos, às vezes escolhem o diálogo multilateral, através da Organização Mundial do Comércio, outras optam pela contenção, na maneira como lidam com a questão de Taiwan, Coreia do Norte, a aliança estranha com o Japão ou através da presença militar no Afeganistão, Iraque. Há uma espécie de cerco feito pelos EUA à China, o que faz com que Pequim sinta insegurança e alguma desconfiança face às verdadeiras intenções de Washington. Já a Europa é bem mais clara nas suas intenções"
"O problema está em opor competitividade a coesão social. Não podemos ter competitividade sem coesão social, porque isso criaria o declínio da Europa. Só a coesão social sem competitividade provocaria o proteccionismo, a Europa Fortaleza a defender-se do mundo exterior, afastada da dinâmica da globalização. E qual é, então, a solução para este problema? A resposta está na Estratégia de Lisboa que procura combinar a inovação tecnológica e a sociedade do conhecimento com a coesão social"
"Seria um paradoxo que o país que inventou a Estratégia de Lisboa fosse aquele que a não conseguia aplicar. Portugal precisa de inovação. Foi capaz de inovar nos anos noventa e nos anos oitenta depois da entrada na Comunidade Europeia"
"a Europa tem poder como Marte. Não é uma entidade civil, é um poder civil. Poder é ter a capacidade de influenciar a decisão dos outros mesmo contra a vontade deles. Isso é poder. A Europa pode fazê-lo através de meios civis como o comércio, cooperação com países em desenvolvimento, ajuda humanitária, mudando o ambiente das relações internacionais. Multilateralismo, exportando multilateralismo para a Mercosur, ASEAN, cooperação regional em África. Esta é a maneira como a Europa exporta esta ideia multilateral de resolução de conflitos por meios pacíficos"
Entrevista publicada no jornal Hoje Macau
"O problema está em opor competitividade a coesão social. Não podemos ter competitividade sem coesão social, porque isso criaria o declínio da Europa. Só a coesão social sem competitividade provocaria o proteccionismo, a Europa Fortaleza a defender-se do mundo exterior, afastada da dinâmica da globalização. E qual é, então, a solução para este problema? A resposta está na Estratégia de Lisboa que procura combinar a inovação tecnológica e a sociedade do conhecimento com a coesão social"
"Seria um paradoxo que o país que inventou a Estratégia de Lisboa fosse aquele que a não conseguia aplicar. Portugal precisa de inovação. Foi capaz de inovar nos anos noventa e nos anos oitenta depois da entrada na Comunidade Europeia"
"a Europa tem poder como Marte. Não é uma entidade civil, é um poder civil. Poder é ter a capacidade de influenciar a decisão dos outros mesmo contra a vontade deles. Isso é poder. A Europa pode fazê-lo através de meios civis como o comércio, cooperação com países em desenvolvimento, ajuda humanitária, mudando o ambiente das relações internacionais. Multilateralismo, exportando multilateralismo para a Mercosur, ASEAN, cooperação regional em África. Esta é a maneira como a Europa exporta esta ideia multilateral de resolução de conflitos por meios pacíficos"
Entrevista publicada no jornal Hoje Macau
Monday, March 20, 2006
Espaço Público
O exercício da cidadania está indelevelmente ligado à noção de espaço público. A ideia remonta, pelo menos, à antiguidade clássica, à noção de “ágora” como espaço inserido na “pólis” onde era exercida a cidadania. Os exemplos que nos vêm á mente são desde logo as estradas, as ruas, os parques ou os jardins.
Numa outra vertente, a escola crítica introduziu o conceito de esfera pública, sede de interacção de um sujeito com o outro, ou a sociedade, algo de importante para a construção da identidade. Habermas fala do “Offenrlichkeit” iluminista, racional, que permitiu a emergência de uma opinião pública e o exercício da cidadania e, consequentemente, de uma certa ideia de democracia. Entretanto, muita coisa mudou, mas o princípio e o conceito continua válido, aplicado às novas realidades.
Por aqui, por vezes. parece que estamos ainda numa era pré-iluminista.
Em Macau vive-se uma situação aparentemente paradoxal. Se, por um lado, as autoridades cerram o punho face à “incivilidade” no espaço público – multas mais pesadas para quem cuspir no chão ou para quem deixar o ar condicionado a pingar para a rua, etc – por outro destroem-se espaços verdes ou decide-se demolir edifícios como a sede da Assembleia Legislativa, num abrir e fechar de olhos, sem vergonha, sem dramas que eles (construtores, operadoras de jogo, de hotéis, etc) precisam de espaço. E o que impressiona (ou talvez não) é a ausência de uma consciência colectiva de preservação do espaço público. Até agora subsistem apenas focos de indignação.
Mas provavelmente para compreender isto convém olhar para trás, como faz Dieter Hassenpflug:
“While the old European city, according to its bourgeois culture, tends to “turn its inside out” by staging public spaces (see the “theatre of facades” of markets and main streets), the old Chinese cities have been introverted (similar to arab cities). Inner courtyard gardens could serve for balancing urban density and hectic pace. However, they provided this only for the small circle of privileged families. Even the use of the city gates, of streets and quarters, were assigned to the different classes in accordance with their rank” (...)
Mas isto não pode ser encarado como uma espécie de path dependence - Percebe-se que algo está a mudar.
E será que os ventos da mudança chegam a este dragão liliputiano à Beira-China plantado? E se chegarem que força terão?
Numa outra vertente, a escola crítica introduziu o conceito de esfera pública, sede de interacção de um sujeito com o outro, ou a sociedade, algo de importante para a construção da identidade. Habermas fala do “Offenrlichkeit” iluminista, racional, que permitiu a emergência de uma opinião pública e o exercício da cidadania e, consequentemente, de uma certa ideia de democracia. Entretanto, muita coisa mudou, mas o princípio e o conceito continua válido, aplicado às novas realidades.
Por aqui, por vezes. parece que estamos ainda numa era pré-iluminista.
Em Macau vive-se uma situação aparentemente paradoxal. Se, por um lado, as autoridades cerram o punho face à “incivilidade” no espaço público – multas mais pesadas para quem cuspir no chão ou para quem deixar o ar condicionado a pingar para a rua, etc – por outro destroem-se espaços verdes ou decide-se demolir edifícios como a sede da Assembleia Legislativa, num abrir e fechar de olhos, sem vergonha, sem dramas que eles (construtores, operadoras de jogo, de hotéis, etc) precisam de espaço. E o que impressiona (ou talvez não) é a ausência de uma consciência colectiva de preservação do espaço público. Até agora subsistem apenas focos de indignação.
Mas provavelmente para compreender isto convém olhar para trás, como faz Dieter Hassenpflug:
“While the old European city, according to its bourgeois culture, tends to “turn its inside out” by staging public spaces (see the “theatre of facades” of markets and main streets), the old Chinese cities have been introverted (similar to arab cities). Inner courtyard gardens could serve for balancing urban density and hectic pace. However, they provided this only for the small circle of privileged families. Even the use of the city gates, of streets and quarters, were assigned to the different classes in accordance with their rank” (...)
Mas isto não pode ser encarado como uma espécie de path dependence - Percebe-se que algo está a mudar.
E será que os ventos da mudança chegam a este dragão liliputiano à Beira-China plantado? E se chegarem que força terão?
Sunday, March 19, 2006
Meanwhile in Hong Kong
Foi criado um novo Partido, chama-se Civic Party e defende que Hong está preparada para o sufrágio directo e universal, hoje, ontem ou anteontem.
"Hong Kong is ready for universal suffrage, for now, yesterday and the day before yesterday. Setting any timetable is even too late"
O ambiente começa aquecer a um ano da "eleição" do próximo chefe do executivo.
"Hong Kong is ready for universal suffrage, for now, yesterday and the day before yesterday. Setting any timetable is even too late"
O ambiente começa aquecer a um ano da "eleição" do próximo chefe do executivo.
Saturday, March 18, 2006
contenção de palavras
Condoleeza Rice quis deixar claro que os Estados Unidos não pretendem prosseguir uma política de contenção do crescimento da China, numa entrevista a uma Rádio Australiana. Percebe-se que Washington evite utilizar uma linguagem de confronto com a China dado que a profundidade da interdependência económica entre os dois países é complexa. Se o discurso é este, a prática diverge um pouco. A Aliança coma Índia e o recente acordo nuclear ou o teor das reuniões que a secretária de estado teve na região, com a Indonésia e a Austrália, a par de afirmações como esta:
(...) all of us in the region, particularly those of us who are long-standing allies, have a joint responsibility and obligation to try [to] produce conditions in which the rise of China will be a positive force in international politics, not a negative force.
são factores que fortalecem o sentimento de “encirclement” que a China sente face a Washington. Por exemplo, alguns analistas consideram que o tipo de aliança trilateral EUA-Japão-Aiustrália poderá evoluir para uma espécie de mini-NATO na região.
Neste contexto, saliento o que Purnendra Jain escreve no Asia Times:
Proliferation of trilateral frameworks with major powers participating in them would have serious consequences on the current security architecture. For example, they would undermine the ARF process and smaller nations in Southeast Asia would have no effective security forum where they could express their concerns and feel confident that their voice would make a difference. No doubt growing worries about terrorism and about nuclear developments in the Korean Peninsula, the Indian subcontinent and the Middle East have placed new demands on regional leaders. However, it is not necessarily politically sensible for a select group of nations to band together and exclude others - a Cold War-type response. A cooperative and inclusive framework rather than exclusion and containment would be a better way forward.
(...) all of us in the region, particularly those of us who are long-standing allies, have a joint responsibility and obligation to try [to] produce conditions in which the rise of China will be a positive force in international politics, not a negative force.
são factores que fortalecem o sentimento de “encirclement” que a China sente face a Washington. Por exemplo, alguns analistas consideram que o tipo de aliança trilateral EUA-Japão-Aiustrália poderá evoluir para uma espécie de mini-NATO na região.
Neste contexto, saliento o que Purnendra Jain escreve no Asia Times:
Proliferation of trilateral frameworks with major powers participating in them would have serious consequences on the current security architecture. For example, they would undermine the ARF process and smaller nations in Southeast Asia would have no effective security forum where they could express their concerns and feel confident that their voice would make a difference. No doubt growing worries about terrorism and about nuclear developments in the Korean Peninsula, the Indian subcontinent and the Middle East have placed new demands on regional leaders. However, it is not necessarily politically sensible for a select group of nations to band together and exclude others - a Cold War-type response. A cooperative and inclusive framework rather than exclusion and containment would be a better way forward.
Wednesday, March 15, 2006
Ideias feitas, refeitas e desfeitas
É comum dizer-se que a China já não é – alguma vez foi?- um país comunista. É também um dado adquirido que a ideologia deu lugar ao pragmatismo económico no “Império do Meio” e que o Partido Comunista Chinês mais não é que uma entidade blindada em que, apesar de coexistirem tendências mais conservadoras e mais “liberalizantes”, é uma entidade quasi-monolítica em que as poucas divergências assentam nas rivalidades na estrutura burocrática.
O problema consiste em caracterizar o regime, nomeadamente com as lentes ocidentais. Pondo de parte a propaganda oficial do “socialismo de mercado com características chinesas”, será que estamos perante um regime social-conficionista? Um modelo neo-autoritário “developmentalist”? Um capitalismo burocrático de estado de fachada socialista com bolsas de economia de mercado completamente desreguladas socialmente?
Talvez um pouco disto tudo e algo mais. Agora, classificá-lo de Neo-Leninista é que não lembra ao...
Behind the glowing headlines are fundamental frailties rooted in the Chinese neo-Leninist state. Unlike Maoism, neo-Leninism blends one-party rule and state control of key sectors of the economy with partial market reforms and an end to self-imposed isolation from the world economy
The neo-Leninist state practices elitism, draws its support from technocrats, the military, and the police, and co-opts new social elites (professionals and private entrepreneurs) and foreign capital—all vilified under Maoism. Neo-Leninism has rendered the ruling Chinese Communist Party more resilient but has also generated self-destructive forces
Minxin Pei, em "The Dark Side of China’s Rise”
O problema consiste em caracterizar o regime, nomeadamente com as lentes ocidentais. Pondo de parte a propaganda oficial do “socialismo de mercado com características chinesas”, será que estamos perante um regime social-conficionista? Um modelo neo-autoritário “developmentalist”? Um capitalismo burocrático de estado de fachada socialista com bolsas de economia de mercado completamente desreguladas socialmente?
Talvez um pouco disto tudo e algo mais. Agora, classificá-lo de Neo-Leninista é que não lembra ao...
Behind the glowing headlines are fundamental frailties rooted in the Chinese neo-Leninist state. Unlike Maoism, neo-Leninism blends one-party rule and state control of key sectors of the economy with partial market reforms and an end to self-imposed isolation from the world economy
The neo-Leninist state practices elitism, draws its support from technocrats, the military, and the police, and co-opts new social elites (professionals and private entrepreneurs) and foreign capital—all vilified under Maoism. Neo-Leninism has rendered the ruling Chinese Communist Party more resilient but has also generated self-destructive forces
Minxin Pei, em "The Dark Side of China’s Rise”
Tuesday, March 14, 2006
"The Dark Side of China’s Rise"
Este artigo, publicado no site da Foreign Policy, tem limitações analíticas e conceptuais, mas não deixa de levantar questões muito imporantes. As respostas soam a algo de alarmista. Anyway, it is worthy to read it attentively.
Monday, March 13, 2006
As faces da história (ainda e sempre)

Os primeiros portugueses a aventurarem-se no Império do Meio terão sido ‘manipulados’ pelos chineses para se estabelecerem em Macau. É a tese agora apresentada em Lisboa pelo investigador Jin Guo Ping, num debate sobre os primeiros séculos da presença portuguesa na China. Também a polémica sobre a passagem ou não de Camões por Macau ficou a marcar o primeiro Fórum Internacional de Sinologia
João Paulo Meneses no Ponto Final
Sunday, March 12, 2006
Leituras Dominicais
"China frets over nuclear 'double standard'", Antoaneta Bezlova no Asia Times.
"China's policy is to preserve death penalty", China Daily.
"China Risks Environmental Collapse, State Official Warns", Washington Post.
"China's policy is to preserve death penalty", China Daily.
"China Risks Environmental Collapse, State Official Warns", Washington Post.
Saturday, March 11, 2006
A saúde como Bem Público Global
Numa altura em que a gripe das aves assusta meio mundo, vale a pena olhar para o passado recente. Tal como o vírus H5N1, também a peneumonia a atípica teve origem no Sul da China.
Há três anos eram evidentes as falhas e as ineficiências do sistema de vigilância de doenças infecciosas na China. Será que foi aprendida a lição?
"Health as a Global Public Good: SARS in China and Global Health Governance " é um pequeno ensaio que procura dar algumas respostas e, acima de tudo, lançar algumas perguntas sobre o que correu mal em 2002 e 2003. O texto, escrito há quase dois anos, é publicado no "Sínico Esclarecido", um blogue-irmão - reactivado - onde coloco textos mais extensos.
Há três anos eram evidentes as falhas e as ineficiências do sistema de vigilância de doenças infecciosas na China. Será que foi aprendida a lição?
"Health as a Global Public Good: SARS in China and Global Health Governance " é um pequeno ensaio que procura dar algumas respostas e, acima de tudo, lançar algumas perguntas sobre o que correu mal em 2002 e 2003. O texto, escrito há quase dois anos, é publicado no "Sínico Esclarecido", um blogue-irmão - reactivado - onde coloco textos mais extensos.
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