
O artigo de opinião “A praga chinesa”, assinado por Clara Ferreira Alves (CFA), é de tal forma ofensivo, demostra um grau de ignorância e de xenofobia que a sua leitura, por si só, bastaria para que tirássemos as devidas conclusões. De qualquer modo, não resisto a transcrever aqui algumas pérolas de uma autora cuja credibilidade, rigor e lucidez de análise estão há muito em processo de erosão acelerada.
“As lojas chinesas são inestéticas, são concorrência desleal e estão a matar o equilíbrio do mercado e das lojas tradicionais portuguesas”.
“Se esta frase parece racista é provavelmente porque ela é racista. Não tenho simpatia pelas condições humanas e de trabalho na China, não me embasbaco com as Avenidas Madison de Pequim, e acho a sociedade chinesa cruel, fechada e desinteressante, remota em relação aos nossos gostos e conceitos. Os chineses são impenetráveis e a sua cultura de massas representa o que de mais «kitsch» a Humanidade consegue fabricar e vender pelo puro prazer do consumo gratuito”
“A população chinesa tem neste momento um problema de falta de homens, simplesmente porque se entreteve, durante décadas, a exterminar as mulheres e a matar o sexo feminino. Tudo, na China, é estranho à sensibilidade europeia, e não é pelo facto de a China ser uma potência emergente que se tornou uma sociedade mais humana ou mais amável.”
“Quem sustenta e apoia estes imigrantes que não sabem falar português e que não são de Macau nem são sobras do império, e lhes diz para vir inundar zonas economicamente deprimidas com quinquilharia ambulante. A China, além de poluir a terra (e toda a gente sabe que já não se consegue respirar em Hong Kong), polui o mundo com o seu modelo de negócio”.Clara Ferreira Alves, "A Praga Chinesa", Revista Única, Expresso, 9 de Fevereiro de 2007.
Esta perspectiva de CFA ilustra, infelizmente, a visão afunilada e etnocênctrica de alguns "fazedores de opinião". Não me parece que valha a pena falar a CFA da cultura chinesa, das tradições milenares, confucionismo, do processo de desenvovlimento económico e social da China no período pós-Mao Zedong, de como a entrada de produtos mais baratos da China libertou verbas de consumidores europeus para adquirirem bens de valor acrescentado, de como o próprio pequeno comércio chinês está já a gerar postos de trabalho a portugueses em Portugal, da ascenção de uma classe média que representa uma grande oportunidade para a exportação de produtos europeus, do facto de, em 25 anos mais de 300 milhões de pessoas terem saído do estado de pobreza extrema na China, fruto das reformas económicas, da vida cultural e artística vibrante de Xangai, Pequim, Guangzhou, Harbin, etc, ect, ect.
P.S. Ler também Maria João Belchior no China em Reportagem e Carlos Oliveira no Além do Bojador.
P.S. 2 João Vasconcelos Costa também escreve sobre o assunto no Bloco de Notas.