Sunday, July 27, 2008

De Pequim a Nova Deli: para além da Chíndia

Texto Publicado no jornal Hoje Macau, em 24/07/2008

José Carlos Matias

É um lugar-comum enunciar que este vai ser o século da Ásia, num processo liderado pela China e pela Índia. Os dois “gigantes asiáticos”, como se lê amiúde, preparam-se para representar, em meados deste século, metade da riqueza produzida no mundo, dizem os especialistas. Alguns, como o economista e político indiano Jairam Ramesh, falam mesmo no conceito de Chíndia, um mercado bi-nacional que se complementa, juntando a “fábrica” (hardware) ao “escritório” (software). Enquanto slogan, o conceito agrada, mas a realidade mostra à saciedade factores que indiciam potencialidades de competição e divergência de interesses.
Ler artigo na íntegra no Sínico Esclarecido
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Friday, July 25, 2008

Cartazes da propaganda na China I

caratz saude e desporto
Prestar atenção à higiene, intensificar o treino desportivo, melhorar a saúde pública.
Nos cartazes da imagem está escrito: É importante associar o desporto e a higiene. Erradicar as quatro pragas (mosquitos, moscas, ratazanas e pulgas) e cuidar da higiene. Plano de Desporto e higiene.
Departamento Popular de propaganda da Higiene de Xangai.

Retirado de "Chinese Propaganda Posters: From the Collection of Michael Wolf", p. 102

Tuesday, July 22, 2008

Guangdong: os avisos de Wen

Wen Jiabao fez um apelo a Guangdong para reestruturar a economia e aprofundar reformas, de forma a transformar a província numa zona de manufactura de classe mundial e num moderno centro de serviços.
As declarações de Wen jiabao surgem depois de dados indicarem um abrandamento no ritmo de crescimento da província de Guangdong, que lidera há 30 anos as reformas económicas na China.

"Premier Wen Jiabao has called on Guangdong to speed up economic restructuring and deepen reforms to turn the province into a world-class manufacturing base and a regional centre for modern services.
Mr Wen also acknowledged that the nation's economic development faced many problems and contradictions and called on cadres to keep control of prices and ensure stable economic development" (...) "Mr Wen suggested the province should enhance its international competitive edge, create a fair business environment, have an innovative mind and enhance its co-operation with Hong Kong and Macau"

"Wen urges Guangdong to restructure, deepen reforms" SCMP, 21-07-2008.

Tuesday, July 15, 2008

Zakaria e o Mundo Pós-Americano

O livro, que ainda estou a ler, como esperava é magnífico, na linha do anterior - "O futuro da Liberdade". Fareed Zakaria é um dos mais lúcidos e sensatos "leitores" do mundo. Vale a pena ver esta entrevista à BBC, a propósito do livro "The Post American World":

Leituras Pós-Pós-Dominicais



" From Guangdong’s 'liberation of thought' to China’s political reform", Cai Dingjian.
Um texto (traduzido e disponibilizado pelo excelente China Elections and Governance) de um ex membro da Assembleia Popular Nacional. Extenso, completo e ilustrativo sobre o pensam alguns sectores pró-democractização dentro da República Popular da China.

"Examining the Weng’an riot: Does autocracy work?", Sean Din, também no CEG.

"Tilting at China's red windmills",
Wu Zhong no Asia Times.

Sunday, July 13, 2008

Sugestão

O Poder e o Direito
O olhar de Arnaldo Gonçalves sobre aspectos jurídicos, políticos e económicos de Macau, Hong Kong, China e União Europeia. Um livro que reflecte o carácter múltiplo do intelectual e do homem. Vale a pena!

Saturday, July 12, 2008

Ameaça: reputação, percepções e distorções

Texto Publicado no jornal Hoje Macau (10-07-2008)

José Carlos Matias

Quem circula por certas livrarias e vê nos escaparates títulos como “O grande bluff chinês”, “The Comming Conflict with China” ou “China Embraces Classical Fascism” pode ser levado a pensar que o “Perigo Amarelo” ameaça a paz mundial e que tempos belicosos se aproximam num horizonte negro. Alguns destes títulos têm apenas como objectivo encher o bolso dos autores e editoras; outros são claramente motivados por estratégias de quem procura incessantemente “the next big threat”. Outros ainda poderão, quiçá, ser escritos pela simples razão de ser essa a perspectiva do autor. Em qualquer um destes casos, os dados disponíveis não apoiam as visões exageradas da Tese da China enquanto Ameaça. Mas afinal por que é que essas narrativas vão fazendo o seu caminho? E por que é que a China é tão sensível face àquilo que se designa da “China Threat Theory”?

Continuar a ler no Sínico Esclarecido.

Wednesday, July 09, 2008

Economia socialista de mercado - a perspectiva de Cui Zhiyuan

Cui Zhiyuan

O blogue Ladrões de Bicicletas (um dos meus favoritos) faz uma alusão às posições tomadas e análises de Cui Zhiyuan a propósito do cariz socialista da economia de mercado chinesa ser a chave para a História de sucesso inédita do desenvolvimento económico e social dos últimos 30 anos na República Popular da China, desde o lançamento do processo de reformas e abertura (gaige kaifang) pela mão de Deng Xiaoping. Cui Zhiyuan, graduado com Doutoramento pela Universidade de Chicago (é tudo menos um "Chicago Boy") ex Professor no MIT e actual professor na Universidade de Tsinghua, é uma das mais importantes vozes da chamada "nova esquerda" da China (na terminologia de Merle Goldman), também designada por alguns autores como Andrew J. Nathan por corrente neo-conservadora. Não confundir esta "nova esquerda" com a Europeia e claro que a expressão neoconseravdora nada tem a ver com aqueles pavões em Washington que defendem a imposição do modelo demo-liberal à bomba.
Cui, a par de Wang Hui, Pan Wei e Kang Xiaoguang, faz parte de um grupo de intelectuais crítticos do governo central, que são tolerados pelo sistema. Na mira deste grupo estão aspectos como a corrupção, a abertura abrupta à economia de mercado e a fragilidade das políticas sociais.
Cui defende que a China não deve copiar nem seguir modelos institucionais do Ocidente; deve sim adoptar fórmulas próprias segundo a sua experiência. De algum modo, Cui promove uma espécie de excepcionalismo chinês. Cui rejeita quer o modelo económico capitalista europeu ou norte-americano quer os sistemas políticos demo-liberais. Não sendo um "Neo Maoísta", de facto, ele aprova algumas experiências do Maoísmo como as empresas comunais de aldeia. Em traços gerais, defende que o sistema económico da China deve ter por base a empresa pública e colectiva e não a privada. Recusando a transfusão de modelos institucionais do Ocidente para a China, Cui bebe muito das suas posições no Marxismo analítico, na nova teorias evolucionária de Stephen J Gould e no próprio New Deal de Roosevelt. Politicamente aprova as eleições para os comités de aldeia, mas mantém que a melhor via para a China continua a ser a “ditadura democrática”.

Sunday, July 06, 2008

Vídeo Dominical: Patriotismo em Hong kong 11 anos depois do handover

O comentador e empresário de Hong Kong Stephen Vines fala ao site Danwei acerca o seu entendimento sobre o "nacionalismo esquizofrénico" da antiga "colónia" britânica:

Saturday, July 05, 2008

A ascenção das Grandes Potências

DaGuo Jueqi, ou a A ascenção das Grandes Potências foi uma serie documental emitida em 2006 pela CCTV, a estação pública nacional da Repúlica Popular da China. A produção destes documentários foi bastante elogiada quer ao nível da realização quem em termos históricos (apesar de algumas críticas). A Série abrange o percurso de nove grandes potências que tiveram uma posiçãod e domínio mundial desde o século XV: Portugal, Espanha, Holanda, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, Rússia e estados Undios. O primeiro episódio é sobre Portugal. Reproduzo aqui - em ligação com o You Tube - o início da série. O excerto é adequado aos leitores do Sínico que dominam o Mandarim. Aos restantes (onde me incluo, apesar dos pequenos progressos) fica a sugestão de visionarem um pedaço de documentário com bonitas imagens; vale a pena ter ver com atenção o vídeo aos 6m52s



Neste excerto sugiro que prestem atenção especial aos 46s, aos 4m50s aos 6m07s


Friday, July 04, 2008

Para a história

Voo directo China Taiwan
Vista do Aeroporto de Taoyuan (Taipé) do Airbus A330 da China Southern Airlines. Foi o primeiro voos directo entre a China continental e Taiwan em 59 anos.
Bons ventos sopram no estreito. Em Macau e Hong Kong é tempo de redefinr estratégias para os aeroportos.

Wednesday, July 02, 2008

Os intelectuais e a verdade: o caso de Hu Xingdou.

Hu Xingdou
Desde o início dos anos 1990 que o Partido Comunista Chinês tem vindo a co-optar de uma forma sofisticada e eficaz uma boa parte da elite intelectual que poderia colocar em causa o monopólio do poder do Partido. Ao contrário do que aocnteceia nos anos 1980, nestas quase duas décadas que passaram sobre o Massacre de Tiananmen não tem havido um movimento de rebeldia significativa face à linha do governo central. Certamente que os enormes progressos económcios e sociais do país contribuíram para esta situação, mas a fraca voz dos dissidentes deve-se também a dois outros factores: os mecanismos de controlo do exercício da liberdade de expressão e um "acomodamento" ao sistema em resultado da significativa melhoria das condições de vida de muitos intelectuais.
O caso de Hu Xingdou - e de outros- é diferente. Professor no Beijing Technology Institute é uma voz dissonante que é tolerada pelo sistema. Num artigo publicado no United Morning Post de Singapura faz um apelo aos intelectuais:

“In the 80s of last century, Chinese intellectuals paid much attention to politics. They went through all kinds of hardships during the “Great Cultural Revolution” period, so they had the desire to speak out. After 90s, most of intellectuals got their vested interests. In order to protect their benefits, most of them chose to tell lies or keep silent, never to say supervising the power or criticizing. At present, more intellectuals are indifferent to the society. They only care about their daily life".

“There are still a few conscientious intellectuals in the society, they are continuously shouting in support with the disadvantaged group, making suggestion and offering advice for the nation. The cruces of China’s further development are to look for the problems, to face squarely to the problems, and to solve the problems according with our national conditions. That we probe into these problems is not to cavil or nit-pick, not ill-intentioned to expose the darkness, not to direct to our government, never to say creating disturbances. We just want to be loyal critics of social problems during the modernization process of our nation. Because only in this way, my true love on my great nation could be reflected; only in this way, the great exploit of modernization could be helped; only in this way, China could be urged onto a healthier way of development".


Hu Xingdou : Chinese Intellectuals Should Tell Truth for The Whole Nation

Sunday, June 29, 2008

O urso abraça o dragão?

José Carlos Matias
Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 26-06-2008.

Há cerca de um mês o novo presidente da Rússia, Dimitri Medveded, escolheu a China como local da sua primeira visita oficial fora do espaço da antiga União Soviética, após ter estado no Cazaquistão. O sinal diplomático estava dado... Ler o texto na íntergra no Sínico Esclarecido.

Saturday, June 28, 2008

Thursday, June 26, 2008

A ofensiva de Xi no Médio Oriente


É importante prestar atenção ao desempenho do vice-presidente Xi Jinping - benjamim da Quinta Geração, apontado como o mais provável sucessor de Hu Jintao em 2012.

"Five-nation tour by Chinese vice president to strongly promote ties", Xinhua.

Thursday, June 05, 2008

Tuesday, June 03, 2008

Entrevista China-União Europeia

A título experimental, apresento aqui, pela primeira vez, uma entrevista ao "Sínico". O entrevistado é Dai Bingran, Professor na Universidade de Fudan, Xangai. A conversa, gravada há duas semanas, é sobre o momento das relações entre a China e a União Europeia. Para já apenas com som e sem imagem em movimento.

Saturday, May 31, 2008

Ajudar Sichuan

Em Macau
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Em Portugal, a Câmara de Comércio e Industria Luso-Chinesa, a Fundação Jorge Alvares, o ICODEPO (Instituto para a Cooperação e Desenvolvimento Portugal-Oriente), a Liga dos Chineses em Portugal, Liga Multissecular de Amizade Portugal-China, o Observatório da China, e a UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) dinamizam a recolha de fundos para ajudar as vítimas do sismo e a reconstrução das zonas afectadas:

Conta na CGD: NIB nº 0035067500045164930 40.

A (in)sustentável leveza do poder

José Carlos Matias. Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 29-05-2008

"Ao mesmo tempo que lança pontes em várias direcções numa estratégica multifacetada e multi-direccional, a RPC procura criar um arco de paz e prosperidade na sua vizinhança".

"
Neste jogo de balança de poderes – no sentido realista - e também de re-equilíbrio das percepções – numa perspectiva construtivista – a ofensiva de charme de Pequim enfrenta sérios desafios e limitações."
(ler artigo completo aqui)

Wednesday, May 28, 2008

Histórico

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Foto AP
The head of Taiwan's ruling party has met Chinese President Hu Jintao in the highest-level encounter since the two sides split in 1949.

Tudo está a acontecer num ápice. O ambiente entre os dois lados do estreito é cada vez mais caloroso. Hu Jintao já começou a desvendar por onde pode começar a boa-vontade de Pequim: assim que as consultas entre os dois lados recomecem, Pequim admite rever a posição da RPC face à possibilidade de Taiwan particpar nos encontros da Organização Mundial de Saúde, como observador. A Primavera chegou ao estreito (ao que tudo indica para ficar).

"After the two sides resume consultations, (we) can discuss the issue of (Taiwan's) participation in international activities ... including giving priority to discussing the issue of attending WHO activities," Hu said.

Monday, May 26, 2008

O sismo de Sichuan e a transparência (Leituras Pós-Dominicais)

Bernard Chan, no South China Morning Post, 23-05-2008:
"The openness surrounding this huge tragedy has united the country in giving and sharing, but also in expecting a new level of accountability. Continued openness will enable Beijing to meet that expectation".

Heather Saul em "China's seismic shift toward transparency " , CEG
"Whatever the reason for this revolutionary access to information, it is important to note how enthusiastic the Chinese media and the Chinese people have become in regards to open media reporting".

Jorge Almeida Fernandes no Público, 25-05-2008:
"A 'humilhação olímpica' enfraqueceu a autoridade de Hu, disseram na altura os analistas. A sua resposta à tragédia de Sichuan restaura a sua posição. Se na China não há uma grande pressão pró-democrática, há uma crescente exigência d eliberdade de crítica: a 'transparência'".

Li Datong,"China's soft-power failure", Open Democracy
"The Chinese government needs to understand that in response to the western media, an independent and free Chinese press would be much more credible than a government spokesperson. The truth lies not in one voice, but slowly becomes apparent amidst a diverse range of voices. An understanding of this underlies the effective deployment of soft power"

Jane Macartney, "A seismic shift in China’s relations with West?" no The Times
"In an unprecedented departure for this tightly screened leadership, he invited a small group of foreign journalists – including just a single newspaper correspondent, from The Times – to join him (...) Mr Wen’s embrace of a style of leadership more commonly associated with politicians in democratic countries, worried about their election prospects, is unlikely to be the action of an individual. Chinese leaders do not make such radical shifts from usual practice without a great deal of thought and a meeting of at least some members of the nine-man Politburo Standing Committee that rules China."

Friday, May 23, 2008

Ligações

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Com os Olhos na China:
O Blogue "Crónicas do Catai" de Jorge Tavares Silva
O "Observatorio de Politica China"

Um olhar sobre os Riscos e o Futuro:
O blogue Futuro Comprometido, de José Sousa



Thursday, May 22, 2008

Pausa

"Quake in China reverses fortunes for dissonant Tibet voices", Elisabeth Rosenthal no IHT.




Ler as transformações políticas na China

o notável Li Cheng coordena um livro que junta o "crème de la crème" dos académicos que acompanham as transformações políticas na China. Para ler e absorver.
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Conferência

"Jean Monnet Conference - The European Union at 50: Assessing The Past, Looking Ahead", na Universidade de Macau, dias 27 e 28 de Maio. Com João Gomes Cravinho, Francis Snyder, Manuel Lopes Porto, Gomes Canotilho, Miguel Poiares Maduro, Dai Bingran, Maria João Rodigues, entre vários outros académicos da China, Macau, Hong Kong, países europeus e Estados Unidos. Altamente aconselhável. Aqui está o programa completo.

Monday, May 19, 2008

Luto

O Sínico curva-se perante a dimensão avassaladora da calamidade de Sichuan. Neste texto, AG fala sobre o impacto do terramoto. Iniciam-se hoje 3 dias de luto.

Leituras Pós-Dominicais

"A hard look at China's soft power", David Isenberg no Asia Times.
"Hu’s visit to Japan: new benchmark in Sino-Japan relations", Jens Kolhammar, no CEG.
"Child Labor Ring Exposed in Guangdong", Russel Hsiao, China Brief (Jamestown Foundation)

Saturday, May 17, 2008

China e Japão: Rumo a um novo equilíbrio

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 15/05/2008

José Carlos Matias


“O renascimento da Ásia não pode acontecer sem a cooperação entre a China e o Japão”
Hu Jintao, durante a visita ao Japão, em 8 de Abril de 2008


No Outono da sua vida, o imperador unificador da China, Qin Shi Huang, terá enviado uma delegação ao Monte Penglai, numa ilha imaginária localizada a leste do Mar de Bohai. A missão era encontrar o “elixir da imortalidade”. As centenas de homens e mulheres acabaram por nunca voltar. Terão acabado por ficar numa ilha no arquipélago do Japão. Menos ambicioso, Hu Jintao esteve este mês no Japão apenas à procura de uma “Primavera Quente”. A visita ficou marcada pelos golpes de charme da diplomacia de Pequim. Começou com a entrega (empréstimo) de um par de pandas ao Jardim Zoológico de Tóquio, em substituição de um velho panda (o único) mui querido pelos japoneses que faleceu, e terminou com uma visita em Nara, antiga capital nipónica, onde esteve em Toshodaiji, no templo “construído” pelo monge chinês Ganjin, que viajou para o Japão a convite das autoridades japonesas, no século VIII. Pelo meio, foi emitida uma declaração conjunta em que as duas partes se comprometeram a tecer uma parceria estratégica de benefício mútuo para o século XXI. Os dois líderes – o Presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro japonês Yasuo Fukuda – concordaram em dar início a um novo quadro de diálogo institucional com cimeiras de chefes de estado e governo anuais, conversações sobre questões comerciais e económicas e aumento do intercâmbio de jovens. À primeira vista, a visita de Hu foi um sucesso inegável. Mas na realidade há um caminho longo a percorrer. A intenção proclamada em epígrafe encaixa na perfeição num mundo em que reine a Paz e o Desenvolvimento (utilizando a linguagem Denguista), mas nas relações internacionais as equações do interesse nacional e do dilema securitário são constantes.

Da “amizade” à percepção de ameaça

A visita de Hu Jintao revestiu-se de uma carga simbólica a vários níveis. Não só foi a primeira de um chefe de estado chinês ao Japão em dez anos – depois de Jiang Zemin em 1998 - como surgiu numa altura em que as duas partes comemoram os 30 anos sobre a assinatura do Tratado de Paz e Amizade. Ao longo dos anos 1980, as relações foram marcadas por um registo cordial em que as duas partes evitaram fazer referências ao passado – ou seja à ocupação japonesa. Nessa altura em Tóquio vigorava uma geração de líderes que defendia uma abordagem “amigável” com o vizinho. A repressão violenta sobre os estudantes na Praça de Tiananmen despoletou uma nova fase. O Japão criticou duramente a liderança chinesa, ao passo que em Pequim, à falta da raison d’être da construção da sociedade socialista, as garras do nacionalismo chinês cresceram tendo como alvo país vizinho, sobre o qual paira a memória colectiva da invasão e de atrocidades como o Massacre de Nanjing. A retórica da China humilhada foi reforçada num sistema educativo cada vez mais “patriótico”. Do outro lado – numa cadência acção-reacção – altas figuras do estado japonês, como o ex primeiro-ministro Junichiro Koizumi, visitavam o Templo de Yasukuni para prestar homenagem a soldados do exército imperial autores de crimes de guerra.
Em 2006, Shinzo Abe quebrou o gelo com uma visita oficial – a primeira depois de ser empossado primeiro-ministro japonês – a Pequim. No ano passado, Wen Jaibao retribuiu com uma deslocação à capital nipónica.

Japão: entre “civilistas e normalistas”

Como pano de fundo para o relacionamento do Japão com a China está a própria identidade do estado-nação nipónico. Que caminho seguir? Continuar a ser uma nação sobretudo civilista ou rumar rapidamente ao uma “normalização” militar colocando um ponto final à natureza pacifista da constituição pós-II Guerra.
A primeira tendência acredita que o país deve continuar a ter uma natureza de poder civil, ou seja, uma potência económica capaz de ter maior participação nas missões de paz da ONU e na promoção dos direitos humanos, mas nunca de uma forma agressiva. Nesse sentido, um relacionamento amigável com Pequim é positivo na medida em que com a interdependência económica pode advir uma abertura do regime chinês.
Os “normalistas” argumentam que não faz sentido que o Japão seja uma excepção na “anarquia” do sistema internacional, necessitando por isso de se equipar e modernizar militarmente. Ou seja, o Japão deve ser um país “normal” com uma estratégia cimentada numa aliança militar com os EUA, mas com capacidade de defesa autónoma – ser na Ásia Oriental o que o Reino Unido é para Washington na Europa. A China será, nesse sentido, um competidor estratégico do EUA, e uma ameaça ao Japão. Por isso será um país a “conter”. A China, por seu lado, olha para a presença militar norte-americana no Japão de uma forma ambígua: por um lado constitui parte do “encirclement” dos EUA à China; por outro tem prevenido o Japão de ter necessidade de ressurgir como potência militar na região.

Virtudes e limites da inter-dependência

Na economia, os dois vizinhos estão cada vez mais inter-dependentes. Em 2007, a China, incluindo Hong Kong, tornou-se no principal parceiro comercial do Japão, ultrapassando os Estados Unidos; no mesmo ano, o Investimento Directo externo (IDE) japonês acumulado na RPC ascendeu a 60 mil milhões de dólares. Em Tóquio é cada vez mais evidente que a dinâmica japonesa depende do crescimento económico da China. Em declarações à agência Reuters, Koichi Nakano, professor na Tokyo Sophia University, reconhece que “o Japão olha para a China como um parceiro económico muito importante, mas ao mesmo tempo encara com inquietude a possibilidade da RPC destronar o país como a maior potência económica na região”.
Uma questão que tem ocupado a mente de vários analistas é a razão pela qual a interacção económica entre os dois países não tem contribuído para um terreno mais firme ao nível das relações sociais, intelectuais e de segurança comum. Michael Yahuda argumenta que não há confiança nem empatia entre as sociedades civis dos dois lados para dar seguimento à realidade de duas economias que têm beneficiado bastante com a inter-dependência. Isso acontece porque, ocasionalmente, líderes e “fazedores de opiniões” dos dois lados sucumbem facilmente a discursos que envenenam um relacionamento que em concreto tem registado economicamente grandes avanços.

Onde está o elixir?

A cimeira da “Primavera Quente” e as visitas de Shinzo Abe e Wen Jiabao têm mostrado um lado conciliador das lideranças dos dois lados, mas como refere Huang Dahui, especialista em assuntos nipónico da universidade de Remin em Pequim, “as relações oficias estão calorosas, mas na verdade, o maior obstáculo são as populações dos dois países que se olham com desconfiança mútua”. Os problemas históricos e estruturais persistem: a soberania sobre as ilhas Diaoyu, os laços de Tóquio com Taipé, o legado histórico da ocupação japonesa, as disputas sobre a zona económicas exclusivas ou a ambição do Japão de fazer parte como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que condiciona a resolução negociada destes interesses contraditórios é a percepção estereotipada e a desconfiança. Nesta visita, Hu e Fukuda abriram uma porta que pode vir a revelar-se fundamental para evitar um retrocesso: o início de uma nova era de cimeiras anuais e novos mecanismos de diálogo de alto nível. Essa poderá ser a via rumo a um novo equilíbrio. Não será, no entanto, um elixir da imortalidade (Paz Perpétua).


Friday, May 16, 2008

Instantes (do quotidiano em Macau)

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Parabéns

à revista Macau Business pelo IV Aniversário.
macau business
Uma publicação de referência em Macau. Paulo (Azevedo) valeu (vale, valerá) a pena arriscar!

Wednesday, May 14, 2008

China-União Europeia

De relação secundária a parceria compreensiva estratégica
José Carlos Matias dos Santos

Imagens, resumo e o texto (paper conference) da Aula aberta no Instituto Português do Oriente, no dia 8 de Maio de 2008.

P.S. Agradeço mais uma vez ao IPOR pelo convite e pelo apoio prestado (nomeadamente a Helena Rodrigues e a Diana Soeiro). A experiência foi muito interessante sobretudo por causa da atitude dos alunos, chineses com um nível avançado de estudo do Português. As questões dos estudantes incidiram sobre a repressão de Tiananmen de 1989 e o impacto da questão do Tibete nas relações entre Bruxelas e Pequim - perguntas directas sobre assuntos considerados “delicados”.

Tuesday, May 13, 2008

A inflação em Macau

Um artigo de leitura obrigatória de Pedro Dá Mesquita:

"A mão visível do Governo", no Hoje Macau.

Choque

Em Sichuan (e não só)
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As nossas preces estão com eles.

Monday, May 12, 2008

Friday, May 09, 2008

Instantes (do quotidiano em Macau)

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Bom Fim-de-semana!

O (in) sustentável charme da diplomacia chinesa

Após o "cerco" a propósito da questão do Tibete e dos Jogos Olímpicos - uma situação agravada pelo discurso nos media oficiais e da porta-voz da diplomacia chinesa que fez lembrar os tempos mais negros da Revolução Cultural - Pequim ganhar espaço de manobra e espaço para fazer ecoar o seu charme diplomático. A vitória de Ma Ying Jeou foi um primeiro passo, que, no entanto, foi ensombrado pelo agravamento da situação em torno do Tibete e da Tocha olímpica. As conversações com representantes do Dalai Lama e a entrada da tocha em território chinês amenizaram a situação. Agora, com esta visita ao Japão, a postura de Hu Jintao visa fazer regressar ao espaço mediático a retórica da China enquanto nação de "Paz e Desenvolvimento" (a tal tese da Emergência Pacífica, que entretanto foi abandonada por causa do peso semântico de emergência). Para Pequim, é essencial que a RPC não surja aos olhos do mundo (especialmente dos países vizinhos) como uma ameaça. Os esforços da diplomacia chinesa anos últimos anos têm sido sobretudo nesse sentido. Contudo, neste jogo de percepções há sempre o choque com a realidade.
Em breve voltaremos a este assunto mais detalhadamente

Wednesday, May 07, 2008

O charme de Hu ou "toma lá mais um panda amigo"



"Hu Jintao and Yasuo Fukuda make friends", Time.
"China's Hu, Japan's Fukuda Agree to Boost Cooperation", Bloomberg.

"Hu also offered to provide a pair of giant pandas to Japan at a dinner with Fukuda, 71, in Tokyo yesterday, Japan's Foreign Ministry said. Hu said the offer was a symbol of friendly ties between the two countries, the ministry said in a faxed statement.
The only panda at Tokyo's Ueno Zoo, Ling Ling, died on April 30. The zoo received its first giant panda from China in 1972, according to its Web site".

Monday, May 05, 2008

Leituras Pós-Dominicais


" Nationalism is both a sanctuary and a grave", China Elections and Governance.
"Beijing Intensifies "People’s War" Against “Splittism” as Nationalism Rears its Head", Willy Lam no China Brief (Jamestown Foundation)
"Os desvios", Carlos Morais José no Hoje Macau.
"A tocha e a internet", Nuno Lima Bastos no JTM (via o Protesto)
"Direito ao Contraditório", Leocardo no Bairro do Oriente.

P.S. O trabalho de Luciana Leitão sobre bloggers em Macau:
"
Se me identificasse ninguém lia”
"
A Internet a seus pés"
"
Um complemento à imprensa"





Saturday, May 03, 2008

Nacionalismo com características chinesas

Texto Publicado no Jornal Hoje Macau em 02-05-2008.

José Carlos Matias

As recentes manifestações de chineses, dentro da República Popular da China (RPC) e no exterior, por onde passou a tocha olímpica, trouxeram à tona de novo a questão do sentimento nacionalista do país que vai acolher em Agosto a maior festa do desporto mundial. Num olhar imediato e superficial somos tentados a concluir que as manifestações são fruto da forma como os media na RPC filtram a informação que tem chegado ao país dos protestos contra a passagem da chama em várias cidades, na maioria com manifestantes a defenderem a causa do governo tibetano no exílio. Contudo essa observação em si – não sendo incorrecta - deixa muito por explicar. Vale a pena começar por olhar para os protestos contra a França e em defesa do boicote da cadeia de supermercados Carrefour no contexto de uma série de erupções nacionalistas que sucederam ao longo dos últimos dez anos.

Belgrado, o avião-espião e os manuais japoneses

Em 1999, na operação militar na Sérvia e no Kosovo, a NATO bombardeou, aparentemente por engano, a embaixada chinesa em Belgrado, provocando a morte a três cidadãos chineses. A aliança atlântica pediu desculpas explicando que estava a utilizar um mapa desactualizado quando foi efectuado o ataque, mas muitos chineses não aceitaram esta justificação. Ao longo de vários dias milhares de chineses protestaram de forma agressiva junto à Embaixada dos Estados Unidos em Pequim e em frente de edifícios consulares norte-americanos em várias cidades na China, como forma de expressar a ira face a um acto que consideravam deliberado. As autoridades chinesas toleraram esta onda anti-americana, num gesto que foi visto por alguns analistas como a prova de que o Partido Comunista Chinês (PCC) estava a estimular o sentimento nacionalista entre a população, especialmente os jovens. Muitos manifestantes pediram ao governo central que tivesse uma atitude mais dura para com Washington.

Dois anos depois, as pulsões anti-EUA subiram de novo de tom, na sequência da colisão entre um avião-espião de reconhecimento dos EUA e um caça que chinês. O aparelho norte-americano não estava em águas territoriais chinesas, mas já estava a sobrevoar a Zona económica exclusiva da RPC, pelo que Pequim reagiu de forma enérgica ao incidente. À margem do debate legal sobre se os EUA tinham o direito de utilizar um avião-espião a 80 milhas da costa chinesa, vários protestos eclodiram de novo com milhares de chineses a insurgirem-se nas ruas contra o “imperialismo americano.

Em 2005, o alvo da onda nacionalista foi o Japão, a propósito dos manuais escolares de História nipónicos em que vários crimes de guerra praticados pelo exército imperial japonês durante a ocupação da China são omitidos. De novo o povo saiu à rua. Ao longo dos últimos anos, especialmente nos protestos anti-Japão de 2005 e anti-França nas últimas semanas, as novas tecnologias – internet e Sms – desempenharam um papel muito importante. Esta situação coloca desde logo em causa se os protestos foram orquestrados pelo PCC ou se nasceram de movimentos espontâneos populares, tendo sido – facto consumado – tolerados pelo partido que, numa lógica ainda leninista, procura controlar os movimentos populares e ser a vanguarda dos movimentos de massas.

Um nacionalismo além-PCC

Peter Gries, académico norte-americano e autor de vários artigos e livros sobre o nacionalismo chinês, argumenta que “o PCC está a perder o controlo sobre o discurso nacionalista”, uma vez que o neo-nacionalismo que brotou nos anos 1990 tem um cariz popular forte que pode em última instância ser utilizado para colocar em causa o monopólio do poder detido pelo PCC. Gries assegura que “com a emergência da internet, telemóveis e mensagens de texto SMS, os nacionalistas populares na China estão paulatinamente a ser capazes de agir independentemente do estado”. Claro que as malhas da censura procuram manter a situação sobre controlo, contudo é difícil ao governo central impedir manifestações de nacionalismo e patriotismo (aiguo zhuyi), uma vez existe na “alma chinesa” uma narrativa latente dos 150 anos de humilhação e de vitimização que funciona como um gatilho para estas manifestações sempre que regressa a percepção de que o mundo - normalmente o Ocidente personificados pelos EUA – quer impedir a re-emergência da China como potência económica, comercial e eventualmente militar. Naturalmente que o PCC utiliza e manipula estes sentimentos populares ao inculcar no sistema educativo um patriotismo exacerbado e ao promover alguns destes protestos através de organizações para-partidárias.

Uma espada de dois gumes

Contudo, o PCC saberá certamente que este é um jogo muito perigoso. Na verdade é uma faca de dois gumes. Por um lado, o nacionalismo é conveniente ao PCC especialmente após o descrédito do comunismo enquanto ideologia e depois dos protestos de Tiananmen em 1989. Quer isto dizer que o nacionalismo serve como factor de legitimação de um Partido único que procura refazer o léxico e a semântica do socialismo com características chinesas. No entanto este nacionalismo nem é provavelmente o principal factor de legitimação nem o nacionalismo chinês é análogo ao que na Europa brotou no século XIX, tendo chegado ao poder na sua forma mais reaccionária no século XX. Ren Bingqiang, professor na Universidade de Pequim, defende que uma diferença essencial entre os nacionalismo chinês e ocidental é que e”o nacionalismo no Ocidente cresceu durante as revoluções liberais, aquando da criação dos estados-nação, ao passo que o nacionalismo chinês emergiu como resposta à invasão estrangeira”. Na verdade, o primeiro movimento de massas nacionalista – no sentido moderno – surgiu na altura da chamada Revolução dos Boxers contra a influência ocidental, no limiar do século XX, quando a China Qing era presa fácil para o imperialismo do Ocidente. O complexo de vitimização está latente também porque é explorado pelo PCC em situações de crise. Em todos os casos referidos aqui de erupções populares de nacionalismo – bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado, incidente com o avião espião dos EUA, manuais escolares japoneses e protestos anti-França por causa das posições de Sarkozy de apoio à causa tibetana e das acções violentas contra a chama olímpica em Paris – as manifestações nacionalistas surgiram como reacção a uma percepção de humilhação por parte de países ocidentais ou aliados do Ocidente (como é o caso do Japão).

A proliferação de “China bashers” nos “media” ocidentais, como o ignóbil Jack Cafferty, comentador residente da CNN que chamou de “rufias” aos líderes chineses e classificou de “lixo” os produtos fabricados na China, ajuda ao recrudescimento do nacionalismo chinês mais rasteiro. A tese da “China como ameaça” pode transformar-se numa “self-fulfilling prophecy”. Não se trata de fazer auto-censura face ao que tem que ser dito sobre os atropelos aos direitos humanos na China, seja no Tibete, em Pequim ou Urumqi. Trata-se sim de, ao nível oficial e em declarações públicas, ter uma dose de responsabilidade e de entendimento sobre a história recente da RPC. Na edição de 21 de Abril da revista Newsweek, Fareed Zakaria, num habitual acesso de lucidez, explicou por que é que é importante não alimentar o nacionalismo na China e por que é que a humilhação pública funciona muito pior no regime de Pequim do que a pressão privada (pelos canais diplomáticos apropriados).

Entretanto, vale a pena continuar a acompanhar as pulsões nacionalistas na China, uma vez que tudo indica que seja um movimento com raízes populares, que escapa ao controlo total do PCC e que, por isso, pode transbordar para outras causas que se possam virar contra o governo. Esse é o grande receio em Zhongnanhai (sede do PCC em Pequim). É que as manifestações de fervor patriótico têm sido raros momentos (autorizados pelo regime) de expressão em massa nas ruas de uma sociedade civil provavelmente ansiosa por se fazer ouvir fora dos mecanismos rígidos das estruturas do PCC e do estado.

A tocha

está a passar por aqui...

Foto AP

Thursday, May 01, 2008

Alberto Estima de Oliveira (1934-2008)


Tai Chung Pou 23 de Novembro de 2007.

Na primeira pessoa

navegava-se na arrogância das diferenças pela emaranhada teia de ruelas que constituía o centro da pequena cidade quase flutuante. misturavam-se os cheiros das especiarias com o hálito morno dos detritos. fervilhava a vida nos contornos das faces opacas e nas paredes roídas pelo tempo. tudo se movia convulsionando as veias deste pequeno corpo, largos e esquinas de tendas de “min”, pato assado, frutos e vestuário. macau, 10 horas de uma manhã húmida de um julho espesso. caiu a noite absorvendo o dia.

o sono emergia das janelas veladas. no asfalto vivia-se ainda o chiar dos pneus e sob as árvores da praia grande mantinha-se a troca amorosa das carícias, restos das escassas horas do trabalho imposto. o tufão passou ao largo, somente as águas castanhas do delta do rio das pérolas se mostraram impacientes, ondulando em pequenas cristas, balançando as panelas de caldo suspensas nos juncos ancorados.

tudo se passa em termos inconsequentes, sem margens. o lodo e a muralha habitam a noite concretamente. a cidade ilumina-se num carrossel de cores, liquidando o lixo e a miséria. não há espaços. nova vida se inicia nas ruelas e esquinas procurando no prazer a solidão dos neons embriagados. os olhos escondidos na penumbra das fábricas surgem agora na aposta possível no sorriso passivo e terno duma jovem que passa.

esconde-se a cidade na noite curta reduzindo o tempo. macau nasce dos restos da lua multiplicando as células nos ventres tensos, nas mãos hábeis, nos corpos lívidos.

secam-se-me os lábios de falar a noite.
e o poema vem, bardo, das entranhas.

Alberto Estima de Oliveira, in “O Diálogo do Silêncio”

Primeiro de Maio em Macau


Cerca de mil pessoas manifestaram-se hoje em Macau na tradicional marcha do 1º de Maio, que este ano decorreu sem incidentes e levou às ruas as reivindicações habituais de mais habitação social e melhores condições laborais.

Wednesday, April 30, 2008

A lucidez de Zakaria

"China's attitude toward Tibet is wrong and cruel, but, alas, not that unusual. Other nations, especially developing countries, have taken tough stands against what they perceive as separatist forces. A flourishing democracy like India has often responded to such movements by imposing martial law and suspending political and civil rights. The Turks for many decades crushed all Kurdish pleas for linguistic and ethnic autonomy. The democratically elected Russian government of Boris Yeltsin responded brutally to Chechen demands. Under Yeltsin and his successor, Vladimir Putin, also elected, the Russian Army killed about 75,000 civilians in Chechnya, and leveled its capital. These actions were enthusiastically supported within Russia. It is particularly strange to see countries that launched no boycotts while Chechnya was being destroyed—and indeed welcomed Russia into the G8—now so outraged about the persecution of minorities. (In comparison, estimates are that over the past 20 years, China has jailed several hundred people in Tibet.)"

No meio da histeria pré-olímpica - com as posições extremadas - Fareed Zakaria fala de algo muito importante em "Don’t Feed China’s Nationalism", na Newsweek.

Monday, April 28, 2008

Leituras Pós-Dominicais


"China Ascendant – Part I", Bertil Lintner, Yale Global.
"China’s Ascendancy to a Space Power", Jin-Dong Yuan , no China brief da Jamestown Foundation.
"
Tibet and Olympic coverage: whose image was ruined?", NingSong , China elections and Government.

Friday, April 25, 2008

Pedro Manila


Excerto do Livro "Histórias da Cidade", de Alfredo Gomes Dias (Livros do Oriente 2006), que juntou várias peças documentais da Macau de outras eras colocando em cena pessoas anónimas que construíram o tecido único desta cidade ao longo dos séculos. Um trabalho baseado na Correspondência Oficial Trocada entre as Autoridades de Cantão e os Procuradores do Senado, 8 Volumes.


"China says it will meet Dalai Lama's representative", IHT.

Wednesday, April 23, 2008

A especificidade de Macau ou "Give me five (or three)"

Os residentes (accionistas) recebem um subsídio (dividendo) do governo (Conselho de Administração) da Região Administrativa Especial (Empresa) de Macau:

"O governo de Macau anunciou a disponibilização de cerca de 2.300 milhões de patacas para distribuir por cada titular de residência no território para "atenuar" os efeitos da inflação nos orçamentos familiares. A medida foi anunciada pelo chefe do Executivo de Macau, Edmund Ho, numa intervenção na Assembleia Legislativade Macau.Edmund Ho explicou que a verba será distribuída a quem a solicitar, cabendo 5.000 patacas a cada residente permanente e 3.000 patacas a cada residente não permanente" (Lusa).

Monday, April 21, 2008

2004-2008


Em apenas 4 anos parece ter-se esfumado uma relação especial sino-francesa celebrada em Janeiro de 2004 em Paris, quando a Torre Eiffel foi iluminada de vermelho para homeanagear a China, a prpósito da visita de hu Jintao. Era o tempo de Chirac e da sua visão de um mundo multipolar em que a europa se devia distanciar da dependência dos EUA e fazer pontes com a Rússia e a China. Esse ano - 2004 - foi o ano da China na França. Em 2005 foi o ano da França na China. 2008 é ano de Olímpicos e nacionalismo na China. E de populismo em Paris...

Sunday, April 20, 2008

Visões distorcidas

O editorial de hoje do Sunday Morning Post (versão de domingo do South China Morning Post) sintetiza bem o que está em causa e como as duas partes militantes colocam em risco o que pretende com os Jogos Olímpicos. De seguido transcrevo uma parte do artigo:

"
Both sides of Olympic protests miss the point", Sunday Morning Post Leader - 20-04-2008

"Protesters in the west believed they were simply making a statement about the central government's human rights record or its policies towards Tibet. They seem to have failed to understand that the torch, with its intricate design and Chinese symbols, has come to represent - in the eyes of most Chinese on the mainland and around the world - their nationhood. Therefore, organised attempts to grasp it from torch-bearers, such as paralympic fencer Jin Jing in Paris, became in the eyes of Chinese people a deliberate affront to their nation's dignity and pride, not just the ruling party in Beijing".

"
In a similar way, mainland protesters calling for boycotts aimed at French companies fail to grasp the wider implications. These companies provide jobs for mainland workers, encourage trade and improve relations between countries. They were not responsible for the Olympics protests in the west".

"
The mainland protesters are entitled to express their feelings and their pride in hosting the Olympics, so long as they do so peacefully. But patriotic passions are not like tap water that can be easily turned on and off. Having launched an intense media campaign against the Dalai Lama, Tibetan rioters and their supporters in the west, it may not be easy for Beijing to calm the passions which have been aroused.

"The Olympics should be a means to bring nations together, through sport. The world needs more co-operation and dialogue. This is argument enough for each side to seek better understanding of the other - and to allow the Games to proceed peacefully".


(negrito meu)

Já se esperava


Provocada, a alma chinesa reage, com a tolerância do poder, mas este jogo - do nacionalismo - comporta vários perigos...

"Anti-French rallies across China", BBC.

Por isso mesmo, vários intelectuais fizeram um apelo: " Experts say patriotism understandable, but urge people to be rational", Xinhua.

Uma erupção nacionalistanas ruas prolongada por vários dias não é de facto do interesse de Pequim, uma vez que o movimento pode ficar fora de controlo do poder - como chegou quase a estar em 2005 aquando das manifestações anti-Japão. Em todo o caso estes protestos servem de sinal para o Ocidente...

Saturday, April 19, 2008

O vigor e os desafios de Wang Yang

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 17-04-2008

José Carlos Matias


Primeiro criticou o conservadorismo das elites locais. Depois clamou por uma emancipação do pensamento. Mais tarde lançou o desafio da criação de uma “zona económica especial de cooperação” com Macau e Hong Kong. A chegada de Wang Yang à liderança do Partido Comunista Chinês (PCC) de Guangdong agitou as águas do Delta do Rio das Pérolas e colocou muitos agentes económicos a pensar no que realmente quer o delfim que, em Dezembro de 2007, trocou a chefia do Partido no Município de Chongqing pela liderança do PCC na província mais rica do país.
Perante o vigor de Wang, Lau Nai-keung, membro da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês por Hong Kong, perguntava há semanas no South China Morning Post se estamos (referindo-se à região vizinha) preparados para o desafio de Guangdong. Naturalmente que esta questão é extensível à RAEM. O que quer dizer Wang Yang com “emancipação do pensamento” (sixiang jiefang)? Como devem ser entendidas estas declarações pouco ortodoxas face ao habitual “low profile” de secretários provinciais? Antes de mais, quem é Wang Yang?

Um tuanpai especial

Aos 53 anos é uma estrela emergente da Quinta Geração (diwudai) de líderes, sendo o mais jovem membro do Politburo do PCC. Aos 33 anos tornou-se presidente da Câmara Municipal de Tongling, na província de Anhui, antes de ascender a vice-governador provincial. Com pouco mais de 40 anos desempenhou de forma convincente o cargo de vice-ministro da Comissão Nacional da Reforma e Desenvolvimento. Mas o percurso de Wang não pode ser entendido sem ter em conta a sua passagem pelos quadros dirigentes da Liga da Juventude Comunista Chinesa (LJCC), liderada na altura - anos 1980 – pelo actual presidente Hu Jintao. Desde então Wang pertence ao chamado grupo-facção dos tuanpai, quadros da LJCC que ascenderam ao poder ao longo dos últimos anos de uma forma directa ou indirecta pela mão de Hu. Aliás, a actual configuração dos quadros dirigentes de topo do Partido e do Estado em Guangdong ilustra uma mudança da esfera de influência da província cantonense que durante mais de dez anos esteve sob o chapéu da chamada facção de Xangai do ex-presidente Jiang Zemin, quando Li Changchun, primeiro, e Zhang Dejiang, depois, lideraram o PCC em Guangdong. Agora, os três principais cargos são detidos por dirigentes considerados pelos analistas como próximos de Hu: o secretário do Partido Wang Yang, o governador Huang Hua Hua e o secretário do PCC no município de Shenzhen – todos trabalharam com o presidente da RPC na década de 80 na LJCC. Esta nova realidade é relevante no denso universo do balanço de poderes dentro do PCC uma vez que a base de apoio de Hu no início do seu mandato, em 2002, centrava-se sobretudo nas regiões do centro e oeste da China, dado que as zonas costeiras continuaram sob influência de quadros considerados próximos de Jiang Zemin durante alguns anos. No caso de Guangdong, com as recentes remodelações, dez dos dezoito dirigentes de topo da província pertencem à facção dos tuanpai.

“Emancipar o pensamento”

A postura de Wang difere do temperamento típico dos dirigentes chineses. Numa recente reunião do Politburo provincial lançou um feroz ataque às vistas curtas de muitos agentes políticos económicos de Guangdong que apenas pensam em promover o crescimento da economia sem cuidar das dimensões culturais, sociais políticas e ambientais do desenvolvimento.
Ao nível político alguns analistas procuram deslindar se a “emancipação do pensamento” incluirá algum tipo de inovação no sistema de tomada de decisão (governance). A expressão foi usada pela primeira vez por Deng Xiaoping há 30 anos quando pediu aos quadros do PCC para se libertarem dos dogmas do Maoísmo e abraçarem as reformas e abertura à economia de mercado. Agora Wang defende que o principal desafio de Guangdong já não é o crescimento económico “per se”, mas o desenvolvimento político. Cheng Li, o académico chinês, residente nos EUA há vários anos – e coordenador do livro recém-lançado “China's Changing Political Landscape: Prospects for Democracy” – pergunta se “Guangdong, que anteriormente foi uma zona experimental para as reformas económicas, se tornará num palco para as reformas políticas no país”. Os mais optimistas lembram que a proximidade com Hong Kong, onde poderá ser introduzido o sufrágio universal em 2017, é um factor importante no caminho que terá de ser trilhado na província vizinha, onde, de resto, decorrem desde os anos 1980 eleições directas para a liderança de comités de aldeias (village commitees). Em Fevereiro, num fórum para jovens que decorreu em Cantão, Yu Keping, académico autor do famoso artigo de opinião “Democracy is a good thing” foi explícito: “só com garantias democráticas e institucionais é que é possível emancipar o pensamento”. O teste é o encontro com a realidade e não as declarações e os termos pomposos que proliferam no discurso oficial. Ou seja, os actos e não as palavras vão mostrar se esta “entrada de leão” se consubstancia. Na véspera do Ano Novo Chinês, Wang Yang e o governador Huang Hua Hua fizeram circular uma carta na internet em que são pedidas críticas e sugestões aos “net-cidadãos” para que as medidas tomadas possam ir mais ao encontro das necessidades da população. O desafio é transformar esta “boa vontade” em novos mecanismos de auscultação e em que as os cidadãos possam fazer parte do processo de tomada de decisões. Um outro teste será a forma como Wang vai lidar com a liberdade de imprensa. O consulado seu antecessor ficou marcado pela prisão de vários jornalistas, o mais conhecido dos quais o director adjunto do jornal Southern Metropolis, Yu Huafeng, acusado de corrupção e condenado a uma pena de oito anos de cadeia. Por coincidência – ou provavelmente não – em Fevereiro deste ano (pouco depois de Wang ter chegado a Guangdong) o jornalista foi libertado quando apenas tinha cumprido quatro anos da pena.

O desafio Guangdong/Macau/Hong Kong

Se em termos políticos as palavras de Wang dão azo a uma boa dose de ambiguidade, o desafio económico lançado é mais claro: a criação de uma megapólis Hong Kong/Macau/ Zhuhai/Shenzhen/Cantão capaz de rivalizar com Nova Iorque ou Tóquio. O nivelamento por cima foi também evidente quando Wang exortou Shenzhen a ombrear com Singapura. Para a província, o plano anunciado implica uma transformação de uma economia ainda baseada em indústrias de mão-de-obra intensiva num centro mundial de indústrias de capital intensivo e de serviços. Em definitivo Wang ambiciona dar início à Terceira Vaga de modernização económica do Sul da China depois da abertura das zonas económicas especiais no início dos anos 1980 e da “tour” de Deng Xiaoping em 1992. Sendo explícito o desafio, a grande questão é como é que estes objectivos podem ser colocados em prática. De acordo com o jornal pró-Pequim de Hong Kong Wen Wei Po, 23 departamentos e institutos estão envolvidos na elaboração de um estudo de viabilidade da criação de uma zona económica especial de cooperação Hong kong/Macau/Guangdong, que implique a circulação livre de pessoas, bens, mercadorias e capitais. Os desafios são imensos, uma vez que será necessário esbater as disparidades entre três sistemas económicos distintos, num processo que colocará várias questões e desafios ao princípio e à prática “Um País, Dois Sistemas”.






Wednesday, April 16, 2008

Jiang Yu


A liguagem a postura da Porta-voz do MNE da China está no mínimo desajustada e fora de tom e em sentido inverso face à imagem que a China queria projectar até há bem pouco tempo. Porquê?

Uma besta

A CNN já apresentou as desculpas: "CNN apologises to Chinese over host's 'goons and thugs' outburst", Telegraph
O senhor Cafferty. estas são as imagens disponíveis no Youtube para já:

Tuesday, April 15, 2008

民主是个好东西

A democracia é uma coisa boa! Dúvidas?

Ler o muito discutido artigo de Yu Keping: "Democracy is a good thing" (versão traduizida)

Monday, April 14, 2008

Leituras Pós-Dominicais

Na blogosfera:
"Paciência de Chinês", Leocardo no Bairro do Oriente.
"Morrinha", Carlos Morais José no Oriente Crónico.
"O Protesto", as crónicas de Nuno Lima Bastos em formato de blogue.

Elsewhere:

"A new era or a 'made in China' affair?",
Ting-I Tsai no Asia Times.
"What do you want from us?" A Chinese response to Western criticism, no China Elections and Governance.
"Hu’s Southern Expedition: Changing Leadership in Guangdong", Cheng Li no China Leadership Monitor da Hoover Institution.

Friday, April 11, 2008

Pesos, medidas e proporções


1. Na China continental (primeiro sistema) Chen Liangyu, ex secretário do Partido Comunista Chinês em Xangai, foi condenado a 18 anos de prisão.

Chen is accused of being at the center of a high-profile scandal in which more than $400 million in pension funds were improperly invested in real estate and toll road projects that included Shanghai's new Formula One race track. He was accused of lending large amounts from the pension fund and helping businessmen buy stakes in state-owned companies, resulting in huge losses.

"Ex-Party Boss in China Gets 18 Years" , AFP



2. Na Região Administrativa Especial de Macau, (segundo sistema), em Janeiro, Ao Man Long, ex secretário dos transportes e obras públicas foi condenado a 27 anos de prisão.

n a four-month investigation, anti-graft officials said they discovered assets worth about 800 million patacas (US$99.5 million), more than 57 times what Ao and his family could have earned over a seven-year period.

"
Ex-official in Macau guilty of corruption, gets 27 years", China Post





Thursday, April 10, 2008

A dimensão

Geopolítica da questão do Tibete. Pelo economista F. William Engdahl:


"The US-led destabilization in Tibet is part of a strategic shift of great significance. It comes at a time when the US economy and the US dollar, still the world’s reserve currency, are in the worst crisis since the 1930’s. It is significant that the US Administration sends Wall Street banker, former Goldman Sachs chairman, Henry Paulson to Beijing in the midst of its efforts to embarrass Beijing in Tibet. Washington is literally playing with fire. China long ago surpassed Japan as the world’s largest holder of foreign currency reserves, now in the range of $1.5 trillions, most of which are invested in US Treasury debt instruments. Paulson knows well that were Beijing to decide it could bring the dollar to its knees by selling only a small portion of its US debt on the market".

"Risky Geopolitical Game: Washington Plays ‘Tibet Roulette’ with China"

Um texto

Com (muita) cabeça, tronco e membros que enquadra o problema e coloca questões pertinentes, como nos tem habituado o jornalista Francesco Sisci

"(...) the real solution should be trying to achieve good governance, not independence"

"Tibet a defining issue for China", Francesco Sisci no Asia Times.

Sunday, April 06, 2008

Leituras Dominicais

"Ma Ying-jeou and the Future of Cross-Strait Relations", Willy Lam no China Brief da Jamestown Foundation.
"Beijing Olympics and China’s Human Rights ", Liu Xiaobo no site Chinese Human rights Defenders.
"The Yin and Yang of US Debt", Ashok Bardhan e Dwight Jaffee na Yale Global.
"Can Westerners see China as they see themselves?", Manfred Elfstrom no China elections and Governance.

Saturday, April 05, 2008

De Wu para Liu - Em busca do outro lado do céu

José Carlos Matias

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 03-04-2008


Na China, o poder escreve-se sobretudo no masculino. Desde 1949 nenhuma mulher ascendeu ao topo da liderança do Partido Comunista Chinês (PCC), ou seja ao Comité Permanente do Politburo (CPP). No XVII Congresso apenas uma mulher tem assento no Politburo alargado (25 membros), ao passo que nas funções de topo (primeiro-ministro, vice primeiros ministros e conselheiros de estrado) do governo liderado por Wen Jiabao, que foi eleito na última sessão plenário da Assembleia Popular Nacional (APN), também apenas figura essa mesma mulher, Liu Yandong, que ocupa o cargo de Conselheira de Estado. Entre os 25 dirigentes com o estatuto de ministro, apenas três são ministras. No Comité Central do PCC, órgão que integra 204 dirigentes apenas estão 13 mulheres, ou seja 6.3 por cento desse organismo, um valor proporcionalmente bastante inferior ao universo de filiados no PCC: 22.6 por cento dos membros do Partido são mulheres. Proporções que não condizem com o famoso dito de Mao – As mulheres detém metade do céu”.

O que explica este afastamento de mulheres do topo da liderança na República Popular da China (RPC)? Christina Gilmartin, académica norte-americana especialista em estudos sobre a mulher na China moderna, lembra que antes da ascensão de Wu Yi, apenas três mulheres tiveram assento no Poliburo, todas elas esposas de dirigentes de topo, incluindo a malograda Jiang Qing, quarta esposa de Mao Zedong e figura de proa do “Bando dos Quatro”. Para Gilmartin durante vários anos “as actividades de Jiang Qing surgira aos olhos de muitos chineses como a prova de que as mulheres não devem estar envolvidas ao mais alto nível na política chinesa”. Uma crença com raízes na forma como exerceram o poder a Imperatriz viúva Cixi, no século XIX, ou a famosa Wu Zetian, que, no século VII, assumiu o cargo de Imperador, rompendo com a dinastia Tang e iniciando a brevíssima (Segunda) Dinastia Zhou (embora vários historiadores sublinhem os aspectos benignos da sua governação).

A herança patriarcal

Existem, claro, outros motivos de cariz estrutural e cultural. Numa análise mais ampla, sobre a emancipação da mulher na China, Jinghao Zhou argumenta que na RPC as mulheres nunca serão verdadeiramente livres e emancipadas enquanto não tiverem espaço para se organizarem fora do controlo do Partido, que escolhe a liderança da Federação das Mulheres da China – ACWF na sigla em inglês - maior organização feminina do país, de onde saem quadros dirigentes para o PCC e para o Governo Central.

Admitindo que um sistema mais democrático traria uma maior e melhor representatividade da sociedade nas esferas de poder, isso não iria “per se” ser a panaceia para as desigualdades de género que existem na China, como comprovam vários exemplos de democracias de tipo ocidental. A herança de séculos de feudalismo patriarcal e de uma sociedade que tradicionalmente afastou as mulheres da esfera pública ajuda a explicar a situação. Essa situação é denunciada por Mu Hong da ACWF, para quem “em várias áreas, as pessoas ainda estão afectadas por uma mentalidade feudal”.

No livro recém-lançado – e altamente recomendável – “A Mulher na China”, Ana Cristina Alves salienta que embora a criação da RPC em 1949 tenha contribuído significativamente para a melhoria da situação da mulher no país, foi a partir de Deng Xiaoping que passou a haver um esforço por materializar os dispositivos legais que promovem o papel da mulher na sociedade. No entanto, nota a académica, “desde que passaram a assumir o estatuto de forças produtivas válidas, as mulheres confrontaram-se com inúmeros obstáculos externos, fruto de um sistema tradicionalmente patriarcal” (p.170).

A diferença de Wu

A nova geração de dirigentes chineses – mais aberta e cosmopolita – e o exemplo da força e capacidade de Wu Yi na actividade pública que exerceu podem ter dado início a um processo de mudança gradual. Aos 69 anos, a ex vice primeira-ministra abandona uma vida política que começou em 1962 quando se inscreveu no PCC. Já na década de 1980 assumiu a chefia da célula do Partido na Companhia Petrolífera Yanshan. Aliás, esta mulher natural da província de Hubei podia ter ficado conhecida como “Oil Lady”, uma vez que trabalhou no sector petrolífero durante 25 anos. Esse percurso foi alterado em 1988 quando ascendeu a vice-presidente da Câmara de Pequim. Nos anos 1990 destacou-se como Ministra do Comércio Externo e da Cooperação Económica Em 2002 e 2003 assumiu um dos cargos de vice primeiro-ministro do Conselho de Estado e entrou para o Politburo do PCC. Em Abril de 2003 assume o controlo da pasta da saúde, por acumulação, na sequência da demissão de Zhang Wenkang na altura do surto da Síndroma Respiratória Aguda. Sem experiência na área da saúde, conseguiu impor novas regras de transparência no campo das doenças infecto-contagiosas e melhorar a imagem da China no plano internacional. Anos antes, quando era vice-ministra do Comércio Externo substituiu, dois dias antes das negociações, o chefe da delegação chinesa nas conversações com os estados unidos sobre os Direitos de Propriedade Intelectual. A forma como conduziu as negociações impressionou a liderança chinesa, tendo sido desde então – 1991 – passou a ser uma presença habitual nas negociações sino-americanas sobre a entrada na Organização Mundial de Comércio e disputas comerciais. “É uma força da natureza”, confessou Henry Paulson, secretário de estado norte-americano do tesouro. É um a “Dama de Ferro” da China, escreveu a imprensa ocidental. Ela preferia que a chamassem de “little woman”, uma mulher que nunca escondeu os seus cabelos brancos, ao contrário dos seus correligionários sexagenários do Politburo. Até na forma como se despediu da política foi diferente. Quebrando a regra entre os dirigentes de topo chineses de não anunciarem a sua saída antes do anúncio oficial dos novos detentores dos cargos, Wu Yi, que foi em 2005 considerada pela revista Forbes como a segunda mulher mais poderosa do mundo, falou publicamente sobre a sua saída da de todos os cargos que ocupava num discurso numa conferência Câmara de Comércio Internacional da China., adiantando que não vai ter qualquer actividade política na reforma. Na mesma ocasião disse “quando eu sair por favor esqueçam-se completamente de mim”. Uma mensagem (de) cifrada que ilustra a forma como esteve na vida pública.

A senhora Liu

Liu Yandong surge agora como sucessora de Wu como a mulher com o cargo mais elevado no Partido e no estado. Contudo, a APN não a elevou a vice-primeira ministra, optando por conduzi-la ao posto de Conselheira de Estado. A sua personalidade difere da de Wu em vários aspectos. Em vez de “Iron Lady”, é mais encarada como “soft lady”, pela forma mais diplomática como exerce a actividade política. O seu percurso está ligado à facção dos quadros que começaram por fazer carreira na liga da Juventude Comunista, grupo ligado ao presidente Hu Jintao – que liderou a LJC nos anos 1980 – e do qual fazem parte Li Keqiang, vice. Primeiro-ministro, e Li Yuanchao, ambos também vistos pelos analistas como “protegés” de Hu. Entre 2002 e 2007 liderou a Frente Unida, entidade do PCC responsável pela conjugação de esforços com os restantes oito partidos autorizados na RPC.

A sua figura agrada bastante aos deputados de Macau e Hong Kong, membros da Conferência Consultiva Política do povo Chinês, órgão de que foi vice-presidente, uma imagem a que não estranho o facto de entender cantonense e ter reputação de competente e trabalhadora.

Nos últimos anos, uma das suas missões foi alargar a base de apoio do PCC a Macau, Hong Kong e Taiwan. A elite das regiões administrativas especiais teve certamente ao longo dos últimos anos oportunidade para cultivar os laços com Liu. Uma atitude a vários níveis útil e inteligente – é que quer no governo central, enquanto conselheira de estado, quer no PCC, como braço direito de Xi Jinping, tem em mãos a pasta de Macau e Hong Kong.


Thursday, April 03, 2008

Bem sei

que é no mínimo irónico que a imprensa estatal chinesa critique os media ocidentais por serem parciais e incorrectos ao mesmo tempo que o estado impede o acesso dos jornalistas ao Tibete e aperta o crivo da censura. Em todo o caso - descontando o lado da inevitável propaganda - não deixa de ser verdade que há vários exemplos de parcialidade e falta de rigor entre os meios de comuniacção ocidentais na forma como têm tratado os acontecimentos de Março no Tibete. A narrativa latente de que falei aqui há duas semanas foi evidente. Separando as águas das várias dimensões do debate, vale a pena ler este texto publicado no China Daily. Nem que seja pelo título sugestivo...

CNN: What's wrong with you?