Friday, September 05, 2008

Hong Kong: pesando a balança

Texto publicado no jornal Hoje Macau (que hoje completa sete anos de actividades - Parabéns!)


José Carlos Matias

Há quatro anos, as eleições para o Conselho Legislativo de Hong tiveram um tom algo dramático e com contornos de acto eleitoral que podia ter peso no rumo das reformas administrativas e políticas da região administrativa especial vizinha. Na memória fresca estava ainda grande manifestação que um ano antes tinha colocado nas ruas meio milhão de pessoas contra o Artigo 23 e em protesto pela democratização do sistema político e contra as políticas do impopular Chefe do Executivo Tung Chee Hwa. Volvidos quatro anos, o Artigo 23, que deverá ser regulamentado primeiro deste lado do Delta do Rio das Pérolas, não surge na agenda da campanha eleitoral. Quanto à democratização do sistema político, a decisão de Pequim de abrir as portas à introdução do sufrágio directo e universal em 2017 secou parcialmente a principal mensagem do campo pró-democracia. Resta a impopularidade do chefe do governo. Curiosamente, tal como em 2004, o Chefe do executivo tem a popularidade “pelas ruas da amargura”. Depois de um início em “estado de graça”, este ano, a fortuna de Donald Tsang mudou. Paralelamente ao impacto que a inflação estava a ter no bolso do cidadão médio da RAEHK, rebentou a polémica em torno das nomeações de adjuntos e assessores do governo. A popularidade de “Sir” Donald recuou para os níveis mais baixos desde que substituiu Tung. Simultaneamente, o grau de apoio e confiança face ao governo central aumentou, ao mesmo tempo que milhares rejubilaram com a presença das estrelas chinesas que conquistaram as medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos.

Os comentários de cidadãos na internet, jornais e rádios indicam que existe uma certa saturação com a abundância de ataques pessoais e escassez de debate de ideias. O que mais preocupa os eleitores são as condições de vida e aspectos ligados à saúde, educação, ambiente e segurança, mostra um estudo recente da Universidade de Hong Kong.

Contas por fazer

Que impacto vão ter estes factores nos resultados das legislativas de domingo? Uma coisa é certa: o campo pró-Pequim manterá a maioria no Conselho Legislativo, uma vez que nos lugares eleitos pelo sufrágio indirecto deverão manter uma clara maioria. Estimativas recentes indicam que podem alcançar entre 23 e 25 dos 30 lugares “funcionais” e entre 10 e 13 dos outros 30 que são escolhidos directamente. Entre o também chamado “campo patriótico”, a Aliança Democrática para o Melhoramento de Hong Kong (DAB) espera poder reforçar a sua posição, na sequência dos óptimos resultados registados nas últimas eleições para os Conselhos de Bairro.

Do outro lado, o Partido Cívico poderá ombrear com o Partido Democrata pela hegemonia no campo pró-democracia, uma vez que tem projectado uma imagem de responsabilidade, competência e moderação, que deverá granjear um forte apoio entre sectores profissionais liberais e da classe média. Feitas as contas, o campo pró democracia poderá ser ficar satisfeito se conseguir subir de 18 para 19 deputados no sufrágio directo. Falta saber se consegue manter os sete assentos obtidos em 2004 no sufrágio indirecto.

Contudo, outros cálculos devem ser adicionados a estas contas. Os chamados não-alinhados poderão conseguir um ou dois lugares no Conselho Legislativo, sendo que vários dos grupos de “independentes”, são acusados por forças do “campo pró-democracia” de serem “submarinos” – ou seja, na verdade são próximos das forças pró-Pequim.

Deste lado do Delta

Em Macau, naturalmente, que as eleições vão ser acompanhadas com muita atenção. Contudo, tendo em conta as diferenças entre a cultura política das duas regiões administrativas especiais, não deverá haver óbvias consequências do resultado de domingo. Em todo o caso, se as forças “pró-Pequim” conseguirem fazer recuar empurrar o “campo pró-democracia” e, sobretudo, se a DAB aumentar o número de deputados eleitos directamente, certamente que as chamadas forças “tradicionais” de Macau sentirão que dentro de um ano têm todas as condições para reforçar o seu peso.

Monday, September 01, 2008

Sunday, August 31, 2008

blogstats
De acordo com o Statcounter, neste mês (Agosto de 2008) o Sínico registou pela primeira vez os 2 mil unique visitors e ultrapassou os 3 mil page viewers. A todos muito obrigado!!!
P.S. Nas útimas semanas, tenho notado com muito agrado uma subida considerável dos visitantes do Brasil e mais visitas de África.

Saturday, August 30, 2008

O Grande salto, 50 anos depois

José Carlos Matias

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 28-08-2008


“No ano passado a produção de aço foi de 5.3 milhões de toneladas. Consegues duplicar este valor este ano?”
Mao Zedong para o ministro da metalurgia da China, em Junho de 1958


“Está bem”, respondeu o ministro. Estávamos no início do processo de industrialização forçada que ficou conhecido com “O Grande Salto em Frente” (Dàyuèjìn). Em Janeiro de 1958, Mao tinha dado a conhecer o plano de modernização súbita da agricultura e da indústria em simultâneo, com o objectivo da China ombrear e mesmo ultrapassar os níveis de desenvolvimento das nações mais ricas do mundo. Para a história, fica a Grande Fome de 1959-61, período em que terão morrido 30 milhões de pessoas.
O Grande Salto, aceite hoje pela grande maioria dos historiadores e analistas, mesmo entre os neo-maoísta, como um desastre, marcou o fim do período inicial da Revolução em que ainda coexistia um regime de economia mista e um seguimento incondicional do caminho traçado pela União Soviética. Continuar a ler no Sínico Esclarecido

O erro táctico de Moscovo

Na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, o presidente russo jogou tudo para conseguir o a poio dos restantes chefes de estado desta organização que integra a Rússia, China, Cazaquistão, Uzebequistão, Tajiquistão e Quirguistão.
Apesar dos parceiros de Moscovo terem referido numa declaração oficial que apoiam a “um papel activo” da Rússia na questão da Geórgia, mas salientam também que desejam que a crise sejam resolvida por meios pacíficos e que deve ser tida em conta a integridade territorial das partes envolvidas.
Uma declaração que na verdade não corresponde ao que Dimitri Medveded pretendia. Afinal a China e as quatro antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central não apoiam o reconhecimento da independência da Abecásia e da Ossétia do Sul.
Não é de admirar a oposição de Pequim à atitude de Moscovo. Oficialmente, a China procura não fazer decorações sobre o assunto e permanecer neutral, mas certamente que em Zhongnanhai o apoio ao separatismo não agrada à estratégia chinesa de promoção do respeito pela integridade territorial das nações e de não ingerência nos assuntos internos dos países soberanos. Tanto mais que a RPC tem as suas potenciais Ossétiasdo Sul e Abecásias (Tibete e Xinjiang).
Este posicionamento das quatro antigas repúblicas soviéticas reflecte também uma influência crescente da China sobre este espaço regional que Moscovo considera “naturalmente” a sua esfera de influência.
O Financial Times Deutchland sintetiza bem o que está em jogo:

“"The war itself found little resistance outside the EU and the US. But officially recognizing separatists is like spitting in the soup of governments all over the world. Lots of countries contain minorities who dream of independence. Encouraging them with unilateral diplomatic action isn't a good way to make friends".

Pequim tem promovido o reforço dos laços com Moscovo. Essa é uma pedra de toque da política externa chinesa, mas apoiar a independência da Ossétia do Sul e da Abecásia seria um abalo forte na retórica de Paz e Desenvolvimento, respeito pela integridade territorial dos estados e resolução dos conflitos por via do diálogo e consulta, Palavras que povoam a retórica da diplomacia chinesa.

Ler também:

"Security Group Refuses to Back Russia’s Actions"
, NYT.
"'Russia Made a Tactical Error'", Der Spiegel

P.S. Este erro táctico de Moscovo vem no seguimento de um primeiro erro de avaliação do aventureiro Mikheil Saakashvili.

Wednesday, August 27, 2008

Sunday, August 24, 2008

O que a China pensa

Mark Leonard editou este ano "What does China think". Um livro (na wish list) em que o autor procura desvendar que correntes de pensamento político sobressaem no interior do Partido e nas elites intelectuais do país. Harry Kreisler, do institute of International Studies da Universidade de Berkeley, Califórnia, entrevista Leonard na excelente série de entrevistas "Conversations with History".

Leituras Dominicais



"CCP Lauches Personnel reform to stem "Mass incidents", Willy Lam no china Brief.
" Grassroots Democracy and Local Governance in China", CEG.
" Why China's village ballots become selling stocks", CEG
New strategies for 'democratizing; China", James Gomes no Asia Times.
"The Olympics: was China ready?", Li Datong no Open Democracy.

Artigos de Verão

No Sínico Esclarecido já estão disponíveis os textos que escrevi na coluna quinzenal em Junho, Julho e Agosto no jornal Hoje Macau.

"Novas e Velhas Esquerdas"
"De Pequim a Nova Deli: para além da Chíndia"
"Ameaça: reoputação, percepções e distorções"
"O urso abraça o dragão?"

Thursday, August 21, 2008

Hua Guofeng (1921-2008): O líder breve

Hua Guofeng


Em Tangshan, na província de Hebei, hoje Hua Guafengdeverá estar a ser lembrado de forma especial. Em Agosto de 1976, Hua visitou as vítimas do terramoto que provocou a morte a 250mil pessoas. Nessa altura liderou os esforços de salvamento de forma determinada e com muita humanidade.

Mas certamente que, para o resto do mundo, Hua Guofeng, falecido ontem ao início da tarde, é recordado como o líder breve que passou o testemunho, ainda que a contra-gosto, de Mao para Deng.

Nasceu na província de Shanxi com o nome Su Zhu, mas tal como outros revolucionários comunistas chineses adoptou um nome mais adequado à China pós 1949. Hua Guofeng é a abreviatura de Zhonghua kangri jiuguo xianfengdui", ou seja algo parecido com “Resistência Chinesa de Salvação e Vanguarrda”. Em Outubro, no último Congresso do Partido Comunista, em Pequim, ainda o vi ao longe na sessão de abertura, ao lado de outros seniores do Partido, como delegado especial. Por instantes tentei imaginar o que pensava de tudo aquilo. Afastei-me desse exercício quando me lembrei que a ele não era creditado qualquer rasgo sobre o rumo do socialismo com características chinesas.
Para a História fica como o sucessor sugerido por Mao, que à beira da morte, ter-lhe-á dito: “contigo no poder, fico descansado”. Primeiro em Fevereiro 1976 sucedeu a Zhou Enlai como primeiro-ministro após a morte do homem que chefiava o governo desde 1949; depois em Outubro, após a morte de Mao, Hua foi elevado a Presidente do PCC e a presidente da Comissão Militar Central. Pouco depois de ter assumido o poder, recuperou políticas socialistas anteriores ao Grande Salto em Frente. Após a morte de Mao, o Bando dos quatro, liderado pela esposa de Mao, Jiang Qing, foi detido para alívio de milhões de chineses que tanto sofreram ao longo da longa noite da década da Revolução Cultural. Embora seja conotado com a linha Maoísta do Partido, Hua ficou associado ao fim do poder do Bando dos Quatro e a um período de transição. Foi um líder breve, de transição e com pouco carisma. Na verdade só teve realmente poder entre 1976 e 1978, antes de Deng Xiaoping, que tinha sido reabilitado para vice-primeiro ministro por Hua em 1976 e caído em desgraça de novo pouco depois, conseguir organizar a coligação pró-reformas económicas.

A partir de 1978 as políticas passam a ser claramente ditadas pelo “Pequeno Timoneiro”, contra as posições ortodoxas de Hua, que recusava o programa de introdução da economia de mercado na China. Hua procurou elevar o princípio dos “Two whatever” - seguir sejam quais tenham sido as políticas de Mao e e as instruções que Mao deu” - a princípio geral da acção política. Hua queria manter o Maoísmo à tona, quando os ventos mudavam de direcção. Depois de esvaziar Hua de poder efectivo, Deng substituiu-o no cargo de primeiro-ministro por Zhao Ziyiang em 1981. Um ano depois, Hu Yaobang assumiu a liderança do PCC no cargo de Secretário-Geral, quando a figura de presidente do Partido foi extinta. Permaneceu até 1982 como presidente da escola Central do Partido. Apesar do seu afastamento, continuou no Comité Central do PCC até 2002, ano em que completava 81 anos. Foi-lhe permitido ultrapassar o limite criado a partir de Jiang Zemin de 70 anos para que um dirigente continue nos órgãos do Partido e do Estado.

Estando a anos-luz longe do estatuto de Mao e Deng (ou mesmo de Jiang Zemin ou Hu Jintao), Hua não deve ser olhado como um líder medíocre e de importância nula. Como dirigente de transição, foi instrumental no processo de transformação que estava a fermentar. Sendo ultrapassado pelas consequências, permitiu o fim do insano Bando dos quatro e deu espaço de manobra a Deng Xiaoping para voltar a Zhongnanhai. Mas claro que isso não é suficiente para aparecer entre Mao e Deng nos cartazes que celebram os feitos das várias gerações de poder na República Popular da China. Perdeu na luta pelo poder com Deng, mas manteve-se sempre fiel ao Partido. Por isso, ontem a agência xinhua descrevia-o, citando fonte oficial, como “um membro do PCC extraordinário, com uma lealdade testada ao Partido e um combatente Comunista e revolucionário proletário que ocupou cargos importantes no PCC e no governo”. Um líder breve com vida longa e de outros tempos.


Sunday, August 17, 2008

Parabéns

Ou Mun 50 anos
O Jornal Ou Mun, designado em inglês Macau Daily News e em cantonense Ou Mun Iat Pou (Ao Men Ribao, em mandarim) completa 50 anos. Sendo de longe o jornal em língua chinesa mais lido e a publicação claramente mais influente no território, é uma fonte fundamental para entender uma certa forma de olhar para Macau ao longo das últimas cinco décadas, uma vez que está ligado desde a sua fundação às posições de Pequim.

Saturday, August 09, 2008

Novas e Velhas Esquerdas

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 07/08/2008

José Carlos Matias

我们仍然在仰望星空
Women rengran zai yangwang xingkong*


À primeira vista, o debate ideológico na República Popular da China está moribundo. O Partido Comunista Chinês (PCC) “desincentiva” a expressão pública de vozes dissonantes que atacam ferozmente a linha oficial e imprime o ritmo de manufactura da semântica que mantém viva a perspectiva da construção do “socialismo com características chinesas”. Não deixando de ser assim, ao longo dos últimos 18 anos têm sido publicados artigos e livros na China que destoam da retórica oficial e que colocam em causa a forma como “a economia de mercado socialista” está a ser construída.
As vozes que têm mais eco no exterior são as que defendem posições liberalizadoras quer politica quer economicamente: os “desvios de direita”, na linguagem clássica Maoísta.
Do outro lado do espectro, encontramos intelectuais que apontam o dedo à via capitalista seguida pelo governo central por esta estar a contribuir para a desintegração das redes sociais e a desvirtuar a natureza do estado socialista fundado em 1949. Neste campo, destacam-se duas linhas “esquerdistas”: os Neo-Maoístas e a “Nova Esquerda”. Os primeiros perderam muito do fulgor que os caracterizou na década de 1990, ao passo que os segundos têm emergido como um movimento com alguma influência junto do governo central e da liderança do PCC.

O revivalismo Maoísta

Após a repressão violenta sobre os estudantes na Praça de Tiananmen, foi lançada uma esmagadora “caça às bruxas” junto dos sectores próximos das posições dos ex-secretários gerais do PCC Hu Yaobang e Zhao Zhiyang. Nesse período, no início dos anos 1990, os denominados movimentos Neo-Maoístas ganharam espaço em jornais e revistas e conseguiram mesmo colocar algumas figuras na chefia de ministérios. Este grupo advoga um regresso à fase anterior ao Grande Salto em Frente e à Revolução Cultural. No início dos anos 1990 lançaram campanhas ao estilo Maoísta contra o aburguesamento de sectores do Partido e contra as reformas económicas.
Estas forças continuaram a ter algum espaço em boa medida porque eram patrocinadas por figuras da Velha Guarda como Deng Liqun. O fantasma do colapso da União Soviética foi avivado durante os anos 1990. Nos seus artigos, os autores culpavam a abertura económica pela corrupção, desemprego, despedimentos de empresas estatais entretanto privatizadas e desigualdades sociais. Uma das principais publicações deste movimento, a “Contemporany Ideological Trends” resumia a posição Neo-Maoístas de forma clara: “No passado os colonialistas ocidentais usaram o ópio para nos envenenar, agora a burguesia tenta usar os seus valores para nos transformar”. O espaço para a “extrema-esquerda” diminuiu consideravelmente fruto de acção directa do próprio Deng Xiaoping, primeiro, e de Jiang Zemin, mais tarde. Durante a primeira década do Século XXI ganhou força outra sensibilidade, também à esquerda da linha oficial do PCC, mas com características diferentes.

Uma “Nova Esquerda” com características chinesas

A “Nova Esquerda” chinesa tem vindo a ganhar peso quer junto de professores e estudantes, quer de dirigentes do Governo. O termo “nova” pode enganar e levar a uma analogia com a “Nova Esquerda” europeia filha do Maio de 1968. No caso da China serve para distinguir este grupo de intelectuais da “Velha Esquerda” chinesa de raiz maoísta. Ao contrário destes últimos que se cingem ao marxismo leninismo clássico e ao Maoísmo, as referências da Nova Esquerda abrangem as obras de Immanuel Walerstein e Ferdinand Braudel ou movimentos como a Escola Crítica de Frankfurt e os Estudos Culturais.
O aspecto central das suas teses diz respeito à formulação de uma alternativa chinesa à globalização neoliberal. A “Nova Esquerda” critica ferozmente a forma como a abertura económica foi conduzida, levando a um agravamento das desigualdades sociais e ao alastrar da corrupção. Ao longo dos anos, muitos dirigentes políticos locais usaram arbitrariamente os seus poderes paras e tornarem empresários de sucesso à custa de expropriações ilegais de terras de uso colectivo de comunidades rurais para as entregar de bandeja a empresas do imobiliário. Na verdade, argumenta Wang Hui, o resultado tem sido uma aliança da elite política local corrupta com os interesses económicos e comerciais. Algo seguramente pouco socialista. Contudo, Wang aplaude a primeira fase das reformas económicas lançadas por Deng, entre 1979 e 1985. O problema surgiu, diz, quando começaram a ser destruídas as redes sociais.

A influência em Zhongnanhai

Apesar de todas estas críticas ferozes ao processo de desenvolvimento chinês, os textos da Nova Esquerda chinesa continuaram a ser publicados e a ser promovidos, especialmente através da Revista Dushu, dirigida até há um ano por Wang Hui. Além disso, as posições de Wang Hui, Cui Zhiyuan, Wang Shandong e Zhang Xudong começaram a ter eco nos círculos próximos de Hu Jintao e Wen Jiabao. Numa entrevista ao New York Times, Wang Hui esclarece a sua posição face ao estado e ao Partido: “O PCC ainda é a principal força transformadora da sociedade”. Quanto às políticas do Governo Central algumas apoiam outros não. “Depende do conteúdo das políticas”. Em 2006, Wen Jiabao proclamava a construção do “Novo Campo Socialista”, dirigindo-se às zonas rurais, como uma tarefa histórica crucial para o PCC. No mesmo discurso, o primeiro-ministro salientava a necessidade de encontrar equilíbrio entre crescimento económico e protecção do ambiente.
A declaração de Wen agradou à Nova Esquerda. Outras políticas sociais anunciadas em 2007 e 2008 contribuíram para que alguns analistas considerassem que este grupo esquerdista estava a ganhar cada vez mais peso junto do poder. O facto de Wen Tiejun, considerado próximo da Nova Esquerda, ter estado em sessões de “brainstorming” com Hu Jintao e Wen Jiabao reforçou essa percepção.
O facto de este grupo se opor a uma democratização de tipo ocidental ajuda a explicar o grau de tolerância manifestado pelas autoridades. A Nova Esquerda defende uma democracia socialista com características chinesas, uma expressão vulgarmente usada pela doutrina oficial. Por exemplo, Kang Xiaoguang, professor na Universidade Renmim de Pequim argumenta que a China precisa de construir um estado cooperativo – “Hezuo zhuyi guojia” - para lidar com problemas relacionados com a corrupção e desigualdades de rendimentos e na distribuição de riqueza. Kang defende um sistema organizado em sectores funcionais da sociedade, que pudesse negar à burguesia a posição dominante e manter justiça social.

A atenção aos desvios esquerdistas

Não se deve contudo exagerar no peso que este grupo tem. Tudo depende de até onde vão as críticas e quais são os equilíbrios internos nas altas esferas do poder. Exemplo disso é o facto de em Julho de 2007 Wang Hui e Huang Ping terem sido afastados da direcção da revista Dushu. A justificação dada pela Joint Publisher Co, editora estatal, não convenceu muitos intelectuais e leitores da revista. A editora argumentou que a Dushu estava a ter uma circulação reduzida, quando estava a atingir 100 mil de tiragem, o melhor desempenho em 28 anos de história da publicação. Outra razão dada disse respeito à linguagem da Revista ser demasiado específica. Apesar de aparentemente ser mais “à esquerda” do que Deng ou Jiang, a liderança de Hu e Wen não terá esquecido o que disse Deng Xiaoping em 1993: “A China deve estar vigilante contra os desvios de direita, mas deve sobretudo ser cuidadosa face aos da esquerda”.

*Título do livro da economista He Qingliang, em que a autora critica severamente o modelo de desenvolvimento económico e social da China e o princípio enunciado por Jiang Zemin dos “Três Representantes”. A tradução do título do livro é algo parecido com “Nós ainda estamos a olhar para o céu estrelado”. O livro foi lançado em 2001 e prontamente proibido na República Popular da China.

Friday, August 08, 2008

Breves notas em dia O

Dia de abertura JO
1.
Não há dúvida. Carlos Monjardino é Sínico com C maiúsculo. Basta estar em Macau há algum tempo e ler este excerto de uma entrevista que deu ao Diário Económico para chegar a essa e a outras conclusões.

2. Em Pequim estão 80 chefes de estado e de governo. O presidente de Portugal Aníbal Cavaco Silva invocou razões de agenda para não comparecer. Os restantes países lusófonos fazem-se representar quase todos ao mais alto nível, com a presença dos presidentes do Brasil, Timor-Leste, Moçambique e Angola.
Passe o dramatismo, João Severino bem escreve :
"
É inacreditável como os mais altos responsáveis de um país que esteve intimamente ligado durante séculos a outro país, (através da presença em Macau) possam ofender e magoar de tal forma tão significativa a "face" dos governantes chineses, renegando a uma presença simbólica numa cerimónia de abertura. Com uma agravante vergonhosa: a justificação de que não poderiam estar presentes por uma questão de "agenda". Deverá ser a "agenda" de um banho na praia de manhã, uma sardinhada ao almoço, um mergulho na piscina à tarde e uma mariscada ao jantar."

3.
我與奧運的! Que sejam os Jogos da vida deles (atletas). Sitius, altius, fortius!

4. Ao longo dos Jogos Olímpicos, o Sínico estará em câmara lenta.

5. A cerimónia está a ser ...




Tuesday, August 05, 2008

Kishore Mahbubani

O Exílio de Andarilho chama aqui a atenção para Kishore Mahbubani, professor na Lee Kwan Yew School of Public Policy da Universidade Nacional de Singapura. Antigo embaixador da cidade-estado nas NAções Unidas, Mahbubani defende a inevitabilidade da decadêcnia do Ocidente e da Ascenção da Ásia. Mais, argumenta a favor de um excepcionalismo asiático na análise do modelo demo-liberal ocidental. O seu livro The New Asian Hemisphere, The Irresistible Shift of Global Power to the East está a gerar um debate bem ineterssante. Nesta entrevista a harry Kreisler, Mahbubani diz o que pensa:

Leituras Pós-Dominicais e Pré-Olímpicas

tatuagens olimpicas
Foto: Andre Kosters
"Time to stop criticising China - we've already come so far", Lijia Zhang no The Observer.
The power of sports: how will the Olympics change Beijing?", Sean Ding no CEG.
"China ready to put best foot forward for Games" China Daily, via CEG.
"For Games, China playing to the gallery", Evan Osnos.
"Beijing revives Mao's “People's Warfare” to ensure trouble free Olympics", Willy Lam.

Friday, August 01, 2008

Nem Mais!

Editorial South China
Último parágrafo do Editorial do South China Morning Post, 01-08-2008.

Cartazes de Propaganda na China II

Photobucket
Celebrar com grande alegria e entusiasmo a publicação da Constituição da República Popular da China.
Pintado por Yu Yunjie. Publicado em 1954
Retirado de "Chinese Propaganda Posters: From the Collection of Michael Wolf", p.85

Wednesday, July 30, 2008

Broken Promise!

"Web sites will be censored at Beijing Olympic media centers, a spokesman for the organizing committee said Wednesday, contradicting a pledge to allow foreign reporters unlimited access to the Internet.Web sites of organizations critical of China, including Amnesty International and Reporters Without Borders, are unavailable at the main press facility in Beijing. Sun Weide, the chief spokesman for the Beijing Olympics organizing committee, said journalists would not be allowed to access Web sites connected to banned organizations like the Falungong religious movement. He declined to comment on the unavailability of other Web sites".

"China to censor Web at Olympics", IHT.


Ver também "Descobre-se a pólvora... e vende-se papel ", Maria João Belchior no China em Reportagem.

Sunday, July 27, 2008

De Pequim a Nova Deli: para além da Chíndia

Texto Publicado no jornal Hoje Macau, em 24/07/2008

José Carlos Matias

É um lugar-comum enunciar que este vai ser o século da Ásia, num processo liderado pela China e pela Índia. Os dois “gigantes asiáticos”, como se lê amiúde, preparam-se para representar, em meados deste século, metade da riqueza produzida no mundo, dizem os especialistas. Alguns, como o economista e político indiano Jairam Ramesh, falam mesmo no conceito de Chíndia, um mercado bi-nacional que se complementa, juntando a “fábrica” (hardware) ao “escritório” (software). Enquanto slogan, o conceito agrada, mas a realidade mostra à saciedade factores que indiciam potencialidades de competição e divergência de interesses.
Ler artigo na íntegra no Sínico Esclarecido
.

Friday, July 25, 2008

Cartazes da propaganda na China I

caratz saude e desporto
Prestar atenção à higiene, intensificar o treino desportivo, melhorar a saúde pública.
Nos cartazes da imagem está escrito: É importante associar o desporto e a higiene. Erradicar as quatro pragas (mosquitos, moscas, ratazanas e pulgas) e cuidar da higiene. Plano de Desporto e higiene.
Departamento Popular de propaganda da Higiene de Xangai.

Retirado de "Chinese Propaganda Posters: From the Collection of Michael Wolf", p. 102

Tuesday, July 22, 2008

Guangdong: os avisos de Wen

Wen Jiabao fez um apelo a Guangdong para reestruturar a economia e aprofundar reformas, de forma a transformar a província numa zona de manufactura de classe mundial e num moderno centro de serviços.
As declarações de Wen jiabao surgem depois de dados indicarem um abrandamento no ritmo de crescimento da província de Guangdong, que lidera há 30 anos as reformas económicas na China.

"Premier Wen Jiabao has called on Guangdong to speed up economic restructuring and deepen reforms to turn the province into a world-class manufacturing base and a regional centre for modern services.
Mr Wen also acknowledged that the nation's economic development faced many problems and contradictions and called on cadres to keep control of prices and ensure stable economic development" (...) "Mr Wen suggested the province should enhance its international competitive edge, create a fair business environment, have an innovative mind and enhance its co-operation with Hong Kong and Macau"

"Wen urges Guangdong to restructure, deepen reforms" SCMP, 21-07-2008.

Tuesday, July 15, 2008

Zakaria e o Mundo Pós-Americano

O livro, que ainda estou a ler, como esperava é magnífico, na linha do anterior - "O futuro da Liberdade". Fareed Zakaria é um dos mais lúcidos e sensatos "leitores" do mundo. Vale a pena ver esta entrevista à BBC, a propósito do livro "The Post American World":

Leituras Pós-Pós-Dominicais



" From Guangdong’s 'liberation of thought' to China’s political reform", Cai Dingjian.
Um texto (traduzido e disponibilizado pelo excelente China Elections and Governance) de um ex membro da Assembleia Popular Nacional. Extenso, completo e ilustrativo sobre o pensam alguns sectores pró-democractização dentro da República Popular da China.

"Examining the Weng’an riot: Does autocracy work?", Sean Din, também no CEG.

"Tilting at China's red windmills",
Wu Zhong no Asia Times.

Sunday, July 13, 2008

Sugestão

O Poder e o Direito
O olhar de Arnaldo Gonçalves sobre aspectos jurídicos, políticos e económicos de Macau, Hong Kong, China e União Europeia. Um livro que reflecte o carácter múltiplo do intelectual e do homem. Vale a pena!

Saturday, July 12, 2008

Ameaça: reputação, percepções e distorções

Texto Publicado no jornal Hoje Macau (10-07-2008)

José Carlos Matias

Quem circula por certas livrarias e vê nos escaparates títulos como “O grande bluff chinês”, “The Comming Conflict with China” ou “China Embraces Classical Fascism” pode ser levado a pensar que o “Perigo Amarelo” ameaça a paz mundial e que tempos belicosos se aproximam num horizonte negro. Alguns destes títulos têm apenas como objectivo encher o bolso dos autores e editoras; outros são claramente motivados por estratégias de quem procura incessantemente “the next big threat”. Outros ainda poderão, quiçá, ser escritos pela simples razão de ser essa a perspectiva do autor. Em qualquer um destes casos, os dados disponíveis não apoiam as visões exageradas da Tese da China enquanto Ameaça. Mas afinal por que é que essas narrativas vão fazendo o seu caminho? E por que é que a China é tão sensível face àquilo que se designa da “China Threat Theory”?

Continuar a ler no Sínico Esclarecido.

Wednesday, July 09, 2008

Economia socialista de mercado - a perspectiva de Cui Zhiyuan

Cui Zhiyuan

O blogue Ladrões de Bicicletas (um dos meus favoritos) faz uma alusão às posições tomadas e análises de Cui Zhiyuan a propósito do cariz socialista da economia de mercado chinesa ser a chave para a História de sucesso inédita do desenvolvimento económico e social dos últimos 30 anos na República Popular da China, desde o lançamento do processo de reformas e abertura (gaige kaifang) pela mão de Deng Xiaoping. Cui Zhiyuan, graduado com Doutoramento pela Universidade de Chicago (é tudo menos um "Chicago Boy") ex Professor no MIT e actual professor na Universidade de Tsinghua, é uma das mais importantes vozes da chamada "nova esquerda" da China (na terminologia de Merle Goldman), também designada por alguns autores como Andrew J. Nathan por corrente neo-conservadora. Não confundir esta "nova esquerda" com a Europeia e claro que a expressão neoconseravdora nada tem a ver com aqueles pavões em Washington que defendem a imposição do modelo demo-liberal à bomba.
Cui, a par de Wang Hui, Pan Wei e Kang Xiaoguang, faz parte de um grupo de intelectuais crítticos do governo central, que são tolerados pelo sistema. Na mira deste grupo estão aspectos como a corrupção, a abertura abrupta à economia de mercado e a fragilidade das políticas sociais.
Cui defende que a China não deve copiar nem seguir modelos institucionais do Ocidente; deve sim adoptar fórmulas próprias segundo a sua experiência. De algum modo, Cui promove uma espécie de excepcionalismo chinês. Cui rejeita quer o modelo económico capitalista europeu ou norte-americano quer os sistemas políticos demo-liberais. Não sendo um "Neo Maoísta", de facto, ele aprova algumas experiências do Maoísmo como as empresas comunais de aldeia. Em traços gerais, defende que o sistema económico da China deve ter por base a empresa pública e colectiva e não a privada. Recusando a transfusão de modelos institucionais do Ocidente para a China, Cui bebe muito das suas posições no Marxismo analítico, na nova teorias evolucionária de Stephen J Gould e no próprio New Deal de Roosevelt. Politicamente aprova as eleições para os comités de aldeia, mas mantém que a melhor via para a China continua a ser a “ditadura democrática”.

Sunday, July 06, 2008

Vídeo Dominical: Patriotismo em Hong kong 11 anos depois do handover

O comentador e empresário de Hong Kong Stephen Vines fala ao site Danwei acerca o seu entendimento sobre o "nacionalismo esquizofrénico" da antiga "colónia" britânica:

Saturday, July 05, 2008

A ascenção das Grandes Potências

DaGuo Jueqi, ou a A ascenção das Grandes Potências foi uma serie documental emitida em 2006 pela CCTV, a estação pública nacional da Repúlica Popular da China. A produção destes documentários foi bastante elogiada quer ao nível da realização quem em termos históricos (apesar de algumas críticas). A Série abrange o percurso de nove grandes potências que tiveram uma posiçãod e domínio mundial desde o século XV: Portugal, Espanha, Holanda, Reino Unido, França, Alemanha, Japão, Rússia e estados Undios. O primeiro episódio é sobre Portugal. Reproduzo aqui - em ligação com o You Tube - o início da série. O excerto é adequado aos leitores do Sínico que dominam o Mandarim. Aos restantes (onde me incluo, apesar dos pequenos progressos) fica a sugestão de visionarem um pedaço de documentário com bonitas imagens; vale a pena ter ver com atenção o vídeo aos 6m52s



Neste excerto sugiro que prestem atenção especial aos 46s, aos 4m50s aos 6m07s


Friday, July 04, 2008

Para a história

Voo directo China Taiwan
Vista do Aeroporto de Taoyuan (Taipé) do Airbus A330 da China Southern Airlines. Foi o primeiro voos directo entre a China continental e Taiwan em 59 anos.
Bons ventos sopram no estreito. Em Macau e Hong Kong é tempo de redefinr estratégias para os aeroportos.

Wednesday, July 02, 2008

Os intelectuais e a verdade: o caso de Hu Xingdou.

Hu Xingdou
Desde o início dos anos 1990 que o Partido Comunista Chinês tem vindo a co-optar de uma forma sofisticada e eficaz uma boa parte da elite intelectual que poderia colocar em causa o monopólio do poder do Partido. Ao contrário do que aocnteceia nos anos 1980, nestas quase duas décadas que passaram sobre o Massacre de Tiananmen não tem havido um movimento de rebeldia significativa face à linha do governo central. Certamente que os enormes progressos económcios e sociais do país contribuíram para esta situação, mas a fraca voz dos dissidentes deve-se também a dois outros factores: os mecanismos de controlo do exercício da liberdade de expressão e um "acomodamento" ao sistema em resultado da significativa melhoria das condições de vida de muitos intelectuais.
O caso de Hu Xingdou - e de outros- é diferente. Professor no Beijing Technology Institute é uma voz dissonante que é tolerada pelo sistema. Num artigo publicado no United Morning Post de Singapura faz um apelo aos intelectuais:

“In the 80s of last century, Chinese intellectuals paid much attention to politics. They went through all kinds of hardships during the “Great Cultural Revolution” period, so they had the desire to speak out. After 90s, most of intellectuals got their vested interests. In order to protect their benefits, most of them chose to tell lies or keep silent, never to say supervising the power or criticizing. At present, more intellectuals are indifferent to the society. They only care about their daily life".

“There are still a few conscientious intellectuals in the society, they are continuously shouting in support with the disadvantaged group, making suggestion and offering advice for the nation. The cruces of China’s further development are to look for the problems, to face squarely to the problems, and to solve the problems according with our national conditions. That we probe into these problems is not to cavil or nit-pick, not ill-intentioned to expose the darkness, not to direct to our government, never to say creating disturbances. We just want to be loyal critics of social problems during the modernization process of our nation. Because only in this way, my true love on my great nation could be reflected; only in this way, the great exploit of modernization could be helped; only in this way, China could be urged onto a healthier way of development".


Hu Xingdou : Chinese Intellectuals Should Tell Truth for The Whole Nation

Sunday, June 29, 2008

O urso abraça o dragão?

José Carlos Matias
Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 26-06-2008.

Há cerca de um mês o novo presidente da Rússia, Dimitri Medveded, escolheu a China como local da sua primeira visita oficial fora do espaço da antiga União Soviética, após ter estado no Cazaquistão. O sinal diplomático estava dado... Ler o texto na íntergra no Sínico Esclarecido.

Saturday, June 28, 2008

Thursday, June 26, 2008

A ofensiva de Xi no Médio Oriente


É importante prestar atenção ao desempenho do vice-presidente Xi Jinping - benjamim da Quinta Geração, apontado como o mais provável sucessor de Hu Jintao em 2012.

"Five-nation tour by Chinese vice president to strongly promote ties", Xinhua.

Thursday, June 05, 2008

Tuesday, June 03, 2008

Entrevista China-União Europeia

A título experimental, apresento aqui, pela primeira vez, uma entrevista ao "Sínico". O entrevistado é Dai Bingran, Professor na Universidade de Fudan, Xangai. A conversa, gravada há duas semanas, é sobre o momento das relações entre a China e a União Europeia. Para já apenas com som e sem imagem em movimento.

Saturday, May 31, 2008

Ajudar Sichuan

Em Macau
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Em Portugal, a Câmara de Comércio e Industria Luso-Chinesa, a Fundação Jorge Alvares, o ICODEPO (Instituto para a Cooperação e Desenvolvimento Portugal-Oriente), a Liga dos Chineses em Portugal, Liga Multissecular de Amizade Portugal-China, o Observatório da China, e a UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa) dinamizam a recolha de fundos para ajudar as vítimas do sismo e a reconstrução das zonas afectadas:

Conta na CGD: NIB nº 0035067500045164930 40.

A (in)sustentável leveza do poder

José Carlos Matias. Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 29-05-2008

"Ao mesmo tempo que lança pontes em várias direcções numa estratégica multifacetada e multi-direccional, a RPC procura criar um arco de paz e prosperidade na sua vizinhança".

"
Neste jogo de balança de poderes – no sentido realista - e também de re-equilíbrio das percepções – numa perspectiva construtivista – a ofensiva de charme de Pequim enfrenta sérios desafios e limitações."
(ler artigo completo aqui)

Wednesday, May 28, 2008

Histórico

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Foto AP
The head of Taiwan's ruling party has met Chinese President Hu Jintao in the highest-level encounter since the two sides split in 1949.

Tudo está a acontecer num ápice. O ambiente entre os dois lados do estreito é cada vez mais caloroso. Hu Jintao já começou a desvendar por onde pode começar a boa-vontade de Pequim: assim que as consultas entre os dois lados recomecem, Pequim admite rever a posição da RPC face à possibilidade de Taiwan particpar nos encontros da Organização Mundial de Saúde, como observador. A Primavera chegou ao estreito (ao que tudo indica para ficar).

"After the two sides resume consultations, (we) can discuss the issue of (Taiwan's) participation in international activities ... including giving priority to discussing the issue of attending WHO activities," Hu said.

Monday, May 26, 2008

O sismo de Sichuan e a transparência (Leituras Pós-Dominicais)

Bernard Chan, no South China Morning Post, 23-05-2008:
"The openness surrounding this huge tragedy has united the country in giving and sharing, but also in expecting a new level of accountability. Continued openness will enable Beijing to meet that expectation".

Heather Saul em "China's seismic shift toward transparency " , CEG
"Whatever the reason for this revolutionary access to information, it is important to note how enthusiastic the Chinese media and the Chinese people have become in regards to open media reporting".

Jorge Almeida Fernandes no Público, 25-05-2008:
"A 'humilhação olímpica' enfraqueceu a autoridade de Hu, disseram na altura os analistas. A sua resposta à tragédia de Sichuan restaura a sua posição. Se na China não há uma grande pressão pró-democrática, há uma crescente exigência d eliberdade de crítica: a 'transparência'".

Li Datong,"China's soft-power failure", Open Democracy
"The Chinese government needs to understand that in response to the western media, an independent and free Chinese press would be much more credible than a government spokesperson. The truth lies not in one voice, but slowly becomes apparent amidst a diverse range of voices. An understanding of this underlies the effective deployment of soft power"

Jane Macartney, "A seismic shift in China’s relations with West?" no The Times
"In an unprecedented departure for this tightly screened leadership, he invited a small group of foreign journalists – including just a single newspaper correspondent, from The Times – to join him (...) Mr Wen’s embrace of a style of leadership more commonly associated with politicians in democratic countries, worried about their election prospects, is unlikely to be the action of an individual. Chinese leaders do not make such radical shifts from usual practice without a great deal of thought and a meeting of at least some members of the nine-man Politburo Standing Committee that rules China."

Friday, May 23, 2008

Ligações

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Com os Olhos na China:
O Blogue "Crónicas do Catai" de Jorge Tavares Silva
O "Observatorio de Politica China"

Um olhar sobre os Riscos e o Futuro:
O blogue Futuro Comprometido, de José Sousa



Thursday, May 22, 2008

Pausa

"Quake in China reverses fortunes for dissonant Tibet voices", Elisabeth Rosenthal no IHT.




Ler as transformações políticas na China

o notável Li Cheng coordena um livro que junta o "crème de la crème" dos académicos que acompanham as transformações políticas na China. Para ler e absorver.
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Conferência

"Jean Monnet Conference - The European Union at 50: Assessing The Past, Looking Ahead", na Universidade de Macau, dias 27 e 28 de Maio. Com João Gomes Cravinho, Francis Snyder, Manuel Lopes Porto, Gomes Canotilho, Miguel Poiares Maduro, Dai Bingran, Maria João Rodigues, entre vários outros académicos da China, Macau, Hong Kong, países europeus e Estados Unidos. Altamente aconselhável. Aqui está o programa completo.

Monday, May 19, 2008

Luto

O Sínico curva-se perante a dimensão avassaladora da calamidade de Sichuan. Neste texto, AG fala sobre o impacto do terramoto. Iniciam-se hoje 3 dias de luto.

Leituras Pós-Dominicais

"A hard look at China's soft power", David Isenberg no Asia Times.
"Hu’s visit to Japan: new benchmark in Sino-Japan relations", Jens Kolhammar, no CEG.
"Child Labor Ring Exposed in Guangdong", Russel Hsiao, China Brief (Jamestown Foundation)

Saturday, May 17, 2008

China e Japão: Rumo a um novo equilíbrio

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 15/05/2008

José Carlos Matias


“O renascimento da Ásia não pode acontecer sem a cooperação entre a China e o Japão”
Hu Jintao, durante a visita ao Japão, em 8 de Abril de 2008


No Outono da sua vida, o imperador unificador da China, Qin Shi Huang, terá enviado uma delegação ao Monte Penglai, numa ilha imaginária localizada a leste do Mar de Bohai. A missão era encontrar o “elixir da imortalidade”. As centenas de homens e mulheres acabaram por nunca voltar. Terão acabado por ficar numa ilha no arquipélago do Japão. Menos ambicioso, Hu Jintao esteve este mês no Japão apenas à procura de uma “Primavera Quente”. A visita ficou marcada pelos golpes de charme da diplomacia de Pequim. Começou com a entrega (empréstimo) de um par de pandas ao Jardim Zoológico de Tóquio, em substituição de um velho panda (o único) mui querido pelos japoneses que faleceu, e terminou com uma visita em Nara, antiga capital nipónica, onde esteve em Toshodaiji, no templo “construído” pelo monge chinês Ganjin, que viajou para o Japão a convite das autoridades japonesas, no século VIII. Pelo meio, foi emitida uma declaração conjunta em que as duas partes se comprometeram a tecer uma parceria estratégica de benefício mútuo para o século XXI. Os dois líderes – o Presidente Hu Jintao e o primeiro-ministro japonês Yasuo Fukuda – concordaram em dar início a um novo quadro de diálogo institucional com cimeiras de chefes de estado e governo anuais, conversações sobre questões comerciais e económicas e aumento do intercâmbio de jovens. À primeira vista, a visita de Hu foi um sucesso inegável. Mas na realidade há um caminho longo a percorrer. A intenção proclamada em epígrafe encaixa na perfeição num mundo em que reine a Paz e o Desenvolvimento (utilizando a linguagem Denguista), mas nas relações internacionais as equações do interesse nacional e do dilema securitário são constantes.

Da “amizade” à percepção de ameaça

A visita de Hu Jintao revestiu-se de uma carga simbólica a vários níveis. Não só foi a primeira de um chefe de estado chinês ao Japão em dez anos – depois de Jiang Zemin em 1998 - como surgiu numa altura em que as duas partes comemoram os 30 anos sobre a assinatura do Tratado de Paz e Amizade. Ao longo dos anos 1980, as relações foram marcadas por um registo cordial em que as duas partes evitaram fazer referências ao passado – ou seja à ocupação japonesa. Nessa altura em Tóquio vigorava uma geração de líderes que defendia uma abordagem “amigável” com o vizinho. A repressão violenta sobre os estudantes na Praça de Tiananmen despoletou uma nova fase. O Japão criticou duramente a liderança chinesa, ao passo que em Pequim, à falta da raison d’être da construção da sociedade socialista, as garras do nacionalismo chinês cresceram tendo como alvo país vizinho, sobre o qual paira a memória colectiva da invasão e de atrocidades como o Massacre de Nanjing. A retórica da China humilhada foi reforçada num sistema educativo cada vez mais “patriótico”. Do outro lado – numa cadência acção-reacção – altas figuras do estado japonês, como o ex primeiro-ministro Junichiro Koizumi, visitavam o Templo de Yasukuni para prestar homenagem a soldados do exército imperial autores de crimes de guerra.
Em 2006, Shinzo Abe quebrou o gelo com uma visita oficial – a primeira depois de ser empossado primeiro-ministro japonês – a Pequim. No ano passado, Wen Jaibao retribuiu com uma deslocação à capital nipónica.

Japão: entre “civilistas e normalistas”

Como pano de fundo para o relacionamento do Japão com a China está a própria identidade do estado-nação nipónico. Que caminho seguir? Continuar a ser uma nação sobretudo civilista ou rumar rapidamente ao uma “normalização” militar colocando um ponto final à natureza pacifista da constituição pós-II Guerra.
A primeira tendência acredita que o país deve continuar a ter uma natureza de poder civil, ou seja, uma potência económica capaz de ter maior participação nas missões de paz da ONU e na promoção dos direitos humanos, mas nunca de uma forma agressiva. Nesse sentido, um relacionamento amigável com Pequim é positivo na medida em que com a interdependência económica pode advir uma abertura do regime chinês.
Os “normalistas” argumentam que não faz sentido que o Japão seja uma excepção na “anarquia” do sistema internacional, necessitando por isso de se equipar e modernizar militarmente. Ou seja, o Japão deve ser um país “normal” com uma estratégia cimentada numa aliança militar com os EUA, mas com capacidade de defesa autónoma – ser na Ásia Oriental o que o Reino Unido é para Washington na Europa. A China será, nesse sentido, um competidor estratégico do EUA, e uma ameaça ao Japão. Por isso será um país a “conter”. A China, por seu lado, olha para a presença militar norte-americana no Japão de uma forma ambígua: por um lado constitui parte do “encirclement” dos EUA à China; por outro tem prevenido o Japão de ter necessidade de ressurgir como potência militar na região.

Virtudes e limites da inter-dependência

Na economia, os dois vizinhos estão cada vez mais inter-dependentes. Em 2007, a China, incluindo Hong Kong, tornou-se no principal parceiro comercial do Japão, ultrapassando os Estados Unidos; no mesmo ano, o Investimento Directo externo (IDE) japonês acumulado na RPC ascendeu a 60 mil milhões de dólares. Em Tóquio é cada vez mais evidente que a dinâmica japonesa depende do crescimento económico da China. Em declarações à agência Reuters, Koichi Nakano, professor na Tokyo Sophia University, reconhece que “o Japão olha para a China como um parceiro económico muito importante, mas ao mesmo tempo encara com inquietude a possibilidade da RPC destronar o país como a maior potência económica na região”.
Uma questão que tem ocupado a mente de vários analistas é a razão pela qual a interacção económica entre os dois países não tem contribuído para um terreno mais firme ao nível das relações sociais, intelectuais e de segurança comum. Michael Yahuda argumenta que não há confiança nem empatia entre as sociedades civis dos dois lados para dar seguimento à realidade de duas economias que têm beneficiado bastante com a inter-dependência. Isso acontece porque, ocasionalmente, líderes e “fazedores de opiniões” dos dois lados sucumbem facilmente a discursos que envenenam um relacionamento que em concreto tem registado economicamente grandes avanços.

Onde está o elixir?

A cimeira da “Primavera Quente” e as visitas de Shinzo Abe e Wen Jiabao têm mostrado um lado conciliador das lideranças dos dois lados, mas como refere Huang Dahui, especialista em assuntos nipónico da universidade de Remin em Pequim, “as relações oficias estão calorosas, mas na verdade, o maior obstáculo são as populações dos dois países que se olham com desconfiança mútua”. Os problemas históricos e estruturais persistem: a soberania sobre as ilhas Diaoyu, os laços de Tóquio com Taipé, o legado histórico da ocupação japonesa, as disputas sobre a zona económicas exclusivas ou a ambição do Japão de fazer parte como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. Mas o que condiciona a resolução negociada destes interesses contraditórios é a percepção estereotipada e a desconfiança. Nesta visita, Hu e Fukuda abriram uma porta que pode vir a revelar-se fundamental para evitar um retrocesso: o início de uma nova era de cimeiras anuais e novos mecanismos de diálogo de alto nível. Essa poderá ser a via rumo a um novo equilíbrio. Não será, no entanto, um elixir da imortalidade (Paz Perpétua).


Friday, May 16, 2008

Instantes (do quotidiano em Macau)

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Parabéns

à revista Macau Business pelo IV Aniversário.
macau business
Uma publicação de referência em Macau. Paulo (Azevedo) valeu (vale, valerá) a pena arriscar!

Wednesday, May 14, 2008

China-União Europeia

De relação secundária a parceria compreensiva estratégica
José Carlos Matias dos Santos

Imagens, resumo e o texto (paper conference) da Aula aberta no Instituto Português do Oriente, no dia 8 de Maio de 2008.

P.S. Agradeço mais uma vez ao IPOR pelo convite e pelo apoio prestado (nomeadamente a Helena Rodrigues e a Diana Soeiro). A experiência foi muito interessante sobretudo por causa da atitude dos alunos, chineses com um nível avançado de estudo do Português. As questões dos estudantes incidiram sobre a repressão de Tiananmen de 1989 e o impacto da questão do Tibete nas relações entre Bruxelas e Pequim - perguntas directas sobre assuntos considerados “delicados”.

Tuesday, May 13, 2008

A inflação em Macau

Um artigo de leitura obrigatória de Pedro Dá Mesquita:

"A mão visível do Governo", no Hoje Macau.

Choque

Em Sichuan (e não só)
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As nossas preces estão com eles.

Monday, May 12, 2008

Friday, May 09, 2008

Instantes (do quotidiano em Macau)

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Bom Fim-de-semana!

O (in) sustentável charme da diplomacia chinesa

Após o "cerco" a propósito da questão do Tibete e dos Jogos Olímpicos - uma situação agravada pelo discurso nos media oficiais e da porta-voz da diplomacia chinesa que fez lembrar os tempos mais negros da Revolução Cultural - Pequim ganhar espaço de manobra e espaço para fazer ecoar o seu charme diplomático. A vitória de Ma Ying Jeou foi um primeiro passo, que, no entanto, foi ensombrado pelo agravamento da situação em torno do Tibete e da Tocha olímpica. As conversações com representantes do Dalai Lama e a entrada da tocha em território chinês amenizaram a situação. Agora, com esta visita ao Japão, a postura de Hu Jintao visa fazer regressar ao espaço mediático a retórica da China enquanto nação de "Paz e Desenvolvimento" (a tal tese da Emergência Pacífica, que entretanto foi abandonada por causa do peso semântico de emergência). Para Pequim, é essencial que a RPC não surja aos olhos do mundo (especialmente dos países vizinhos) como uma ameaça. Os esforços da diplomacia chinesa anos últimos anos têm sido sobretudo nesse sentido. Contudo, neste jogo de percepções há sempre o choque com a realidade.
Em breve voltaremos a este assunto mais detalhadamente

Wednesday, May 07, 2008

O charme de Hu ou "toma lá mais um panda amigo"



"Hu Jintao and Yasuo Fukuda make friends", Time.
"China's Hu, Japan's Fukuda Agree to Boost Cooperation", Bloomberg.

"Hu also offered to provide a pair of giant pandas to Japan at a dinner with Fukuda, 71, in Tokyo yesterday, Japan's Foreign Ministry said. Hu said the offer was a symbol of friendly ties between the two countries, the ministry said in a faxed statement.
The only panda at Tokyo's Ueno Zoo, Ling Ling, died on April 30. The zoo received its first giant panda from China in 1972, according to its Web site".

Monday, May 05, 2008

Leituras Pós-Dominicais


" Nationalism is both a sanctuary and a grave", China Elections and Governance.
"Beijing Intensifies "People’s War" Against “Splittism” as Nationalism Rears its Head", Willy Lam no China Brief (Jamestown Foundation)
"Os desvios", Carlos Morais José no Hoje Macau.
"A tocha e a internet", Nuno Lima Bastos no JTM (via o Protesto)
"Direito ao Contraditório", Leocardo no Bairro do Oriente.

P.S. O trabalho de Luciana Leitão sobre bloggers em Macau:
"
Se me identificasse ninguém lia”
"
A Internet a seus pés"
"
Um complemento à imprensa"





Saturday, May 03, 2008

Nacionalismo com características chinesas

Texto Publicado no Jornal Hoje Macau em 02-05-2008.

José Carlos Matias

As recentes manifestações de chineses, dentro da República Popular da China (RPC) e no exterior, por onde passou a tocha olímpica, trouxeram à tona de novo a questão do sentimento nacionalista do país que vai acolher em Agosto a maior festa do desporto mundial. Num olhar imediato e superficial somos tentados a concluir que as manifestações são fruto da forma como os media na RPC filtram a informação que tem chegado ao país dos protestos contra a passagem da chama em várias cidades, na maioria com manifestantes a defenderem a causa do governo tibetano no exílio. Contudo essa observação em si – não sendo incorrecta - deixa muito por explicar. Vale a pena começar por olhar para os protestos contra a França e em defesa do boicote da cadeia de supermercados Carrefour no contexto de uma série de erupções nacionalistas que sucederam ao longo dos últimos dez anos.

Belgrado, o avião-espião e os manuais japoneses

Em 1999, na operação militar na Sérvia e no Kosovo, a NATO bombardeou, aparentemente por engano, a embaixada chinesa em Belgrado, provocando a morte a três cidadãos chineses. A aliança atlântica pediu desculpas explicando que estava a utilizar um mapa desactualizado quando foi efectuado o ataque, mas muitos chineses não aceitaram esta justificação. Ao longo de vários dias milhares de chineses protestaram de forma agressiva junto à Embaixada dos Estados Unidos em Pequim e em frente de edifícios consulares norte-americanos em várias cidades na China, como forma de expressar a ira face a um acto que consideravam deliberado. As autoridades chinesas toleraram esta onda anti-americana, num gesto que foi visto por alguns analistas como a prova de que o Partido Comunista Chinês (PCC) estava a estimular o sentimento nacionalista entre a população, especialmente os jovens. Muitos manifestantes pediram ao governo central que tivesse uma atitude mais dura para com Washington.

Dois anos depois, as pulsões anti-EUA subiram de novo de tom, na sequência da colisão entre um avião-espião de reconhecimento dos EUA e um caça que chinês. O aparelho norte-americano não estava em águas territoriais chinesas, mas já estava a sobrevoar a Zona económica exclusiva da RPC, pelo que Pequim reagiu de forma enérgica ao incidente. À margem do debate legal sobre se os EUA tinham o direito de utilizar um avião-espião a 80 milhas da costa chinesa, vários protestos eclodiram de novo com milhares de chineses a insurgirem-se nas ruas contra o “imperialismo americano.

Em 2005, o alvo da onda nacionalista foi o Japão, a propósito dos manuais escolares de História nipónicos em que vários crimes de guerra praticados pelo exército imperial japonês durante a ocupação da China são omitidos. De novo o povo saiu à rua. Ao longo dos últimos anos, especialmente nos protestos anti-Japão de 2005 e anti-França nas últimas semanas, as novas tecnologias – internet e Sms – desempenharam um papel muito importante. Esta situação coloca desde logo em causa se os protestos foram orquestrados pelo PCC ou se nasceram de movimentos espontâneos populares, tendo sido – facto consumado – tolerados pelo partido que, numa lógica ainda leninista, procura controlar os movimentos populares e ser a vanguarda dos movimentos de massas.

Um nacionalismo além-PCC

Peter Gries, académico norte-americano e autor de vários artigos e livros sobre o nacionalismo chinês, argumenta que “o PCC está a perder o controlo sobre o discurso nacionalista”, uma vez que o neo-nacionalismo que brotou nos anos 1990 tem um cariz popular forte que pode em última instância ser utilizado para colocar em causa o monopólio do poder detido pelo PCC. Gries assegura que “com a emergência da internet, telemóveis e mensagens de texto SMS, os nacionalistas populares na China estão paulatinamente a ser capazes de agir independentemente do estado”. Claro que as malhas da censura procuram manter a situação sobre controlo, contudo é difícil ao governo central impedir manifestações de nacionalismo e patriotismo (aiguo zhuyi), uma vez existe na “alma chinesa” uma narrativa latente dos 150 anos de humilhação e de vitimização que funciona como um gatilho para estas manifestações sempre que regressa a percepção de que o mundo - normalmente o Ocidente personificados pelos EUA – quer impedir a re-emergência da China como potência económica, comercial e eventualmente militar. Naturalmente que o PCC utiliza e manipula estes sentimentos populares ao inculcar no sistema educativo um patriotismo exacerbado e ao promover alguns destes protestos através de organizações para-partidárias.

Uma espada de dois gumes

Contudo, o PCC saberá certamente que este é um jogo muito perigoso. Na verdade é uma faca de dois gumes. Por um lado, o nacionalismo é conveniente ao PCC especialmente após o descrédito do comunismo enquanto ideologia e depois dos protestos de Tiananmen em 1989. Quer isto dizer que o nacionalismo serve como factor de legitimação de um Partido único que procura refazer o léxico e a semântica do socialismo com características chinesas. No entanto este nacionalismo nem é provavelmente o principal factor de legitimação nem o nacionalismo chinês é análogo ao que na Europa brotou no século XIX, tendo chegado ao poder na sua forma mais reaccionária no século XX. Ren Bingqiang, professor na Universidade de Pequim, defende que uma diferença essencial entre os nacionalismo chinês e ocidental é que e”o nacionalismo no Ocidente cresceu durante as revoluções liberais, aquando da criação dos estados-nação, ao passo que o nacionalismo chinês emergiu como resposta à invasão estrangeira”. Na verdade, o primeiro movimento de massas nacionalista – no sentido moderno – surgiu na altura da chamada Revolução dos Boxers contra a influência ocidental, no limiar do século XX, quando a China Qing era presa fácil para o imperialismo do Ocidente. O complexo de vitimização está latente também porque é explorado pelo PCC em situações de crise. Em todos os casos referidos aqui de erupções populares de nacionalismo – bombardeamento da embaixada chinesa em Belgrado, incidente com o avião espião dos EUA, manuais escolares japoneses e protestos anti-França por causa das posições de Sarkozy de apoio à causa tibetana e das acções violentas contra a chama olímpica em Paris – as manifestações nacionalistas surgiram como reacção a uma percepção de humilhação por parte de países ocidentais ou aliados do Ocidente (como é o caso do Japão).

A proliferação de “China bashers” nos “media” ocidentais, como o ignóbil Jack Cafferty, comentador residente da CNN que chamou de “rufias” aos líderes chineses e classificou de “lixo” os produtos fabricados na China, ajuda ao recrudescimento do nacionalismo chinês mais rasteiro. A tese da “China como ameaça” pode transformar-se numa “self-fulfilling prophecy”. Não se trata de fazer auto-censura face ao que tem que ser dito sobre os atropelos aos direitos humanos na China, seja no Tibete, em Pequim ou Urumqi. Trata-se sim de, ao nível oficial e em declarações públicas, ter uma dose de responsabilidade e de entendimento sobre a história recente da RPC. Na edição de 21 de Abril da revista Newsweek, Fareed Zakaria, num habitual acesso de lucidez, explicou por que é que é importante não alimentar o nacionalismo na China e por que é que a humilhação pública funciona muito pior no regime de Pequim do que a pressão privada (pelos canais diplomáticos apropriados).

Entretanto, vale a pena continuar a acompanhar as pulsões nacionalistas na China, uma vez que tudo indica que seja um movimento com raízes populares, que escapa ao controlo total do PCC e que, por isso, pode transbordar para outras causas que se possam virar contra o governo. Esse é o grande receio em Zhongnanhai (sede do PCC em Pequim). É que as manifestações de fervor patriótico têm sido raros momentos (autorizados pelo regime) de expressão em massa nas ruas de uma sociedade civil provavelmente ansiosa por se fazer ouvir fora dos mecanismos rígidos das estruturas do PCC e do estado.

A tocha

está a passar por aqui...

Foto AP

Thursday, May 01, 2008

Alberto Estima de Oliveira (1934-2008)


Tai Chung Pou 23 de Novembro de 2007.

Na primeira pessoa

navegava-se na arrogância das diferenças pela emaranhada teia de ruelas que constituía o centro da pequena cidade quase flutuante. misturavam-se os cheiros das especiarias com o hálito morno dos detritos. fervilhava a vida nos contornos das faces opacas e nas paredes roídas pelo tempo. tudo se movia convulsionando as veias deste pequeno corpo, largos e esquinas de tendas de “min”, pato assado, frutos e vestuário. macau, 10 horas de uma manhã húmida de um julho espesso. caiu a noite absorvendo o dia.

o sono emergia das janelas veladas. no asfalto vivia-se ainda o chiar dos pneus e sob as árvores da praia grande mantinha-se a troca amorosa das carícias, restos das escassas horas do trabalho imposto. o tufão passou ao largo, somente as águas castanhas do delta do rio das pérolas se mostraram impacientes, ondulando em pequenas cristas, balançando as panelas de caldo suspensas nos juncos ancorados.

tudo se passa em termos inconsequentes, sem margens. o lodo e a muralha habitam a noite concretamente. a cidade ilumina-se num carrossel de cores, liquidando o lixo e a miséria. não há espaços. nova vida se inicia nas ruelas e esquinas procurando no prazer a solidão dos neons embriagados. os olhos escondidos na penumbra das fábricas surgem agora na aposta possível no sorriso passivo e terno duma jovem que passa.

esconde-se a cidade na noite curta reduzindo o tempo. macau nasce dos restos da lua multiplicando as células nos ventres tensos, nas mãos hábeis, nos corpos lívidos.

secam-se-me os lábios de falar a noite.
e o poema vem, bardo, das entranhas.

Alberto Estima de Oliveira, in “O Diálogo do Silêncio”

Primeiro de Maio em Macau


Cerca de mil pessoas manifestaram-se hoje em Macau na tradicional marcha do 1º de Maio, que este ano decorreu sem incidentes e levou às ruas as reivindicações habituais de mais habitação social e melhores condições laborais.

Wednesday, April 30, 2008

A lucidez de Zakaria

"China's attitude toward Tibet is wrong and cruel, but, alas, not that unusual. Other nations, especially developing countries, have taken tough stands against what they perceive as separatist forces. A flourishing democracy like India has often responded to such movements by imposing martial law and suspending political and civil rights. The Turks for many decades crushed all Kurdish pleas for linguistic and ethnic autonomy. The democratically elected Russian government of Boris Yeltsin responded brutally to Chechen demands. Under Yeltsin and his successor, Vladimir Putin, also elected, the Russian Army killed about 75,000 civilians in Chechnya, and leveled its capital. These actions were enthusiastically supported within Russia. It is particularly strange to see countries that launched no boycotts while Chechnya was being destroyed—and indeed welcomed Russia into the G8—now so outraged about the persecution of minorities. (In comparison, estimates are that over the past 20 years, China has jailed several hundred people in Tibet.)"

No meio da histeria pré-olímpica - com as posições extremadas - Fareed Zakaria fala de algo muito importante em "Don’t Feed China’s Nationalism", na Newsweek.

Monday, April 28, 2008

Leituras Pós-Dominicais


"China Ascendant – Part I", Bertil Lintner, Yale Global.
"China’s Ascendancy to a Space Power", Jin-Dong Yuan , no China brief da Jamestown Foundation.
"
Tibet and Olympic coverage: whose image was ruined?", NingSong , China elections and Government.

Friday, April 25, 2008

Pedro Manila


Excerto do Livro "Histórias da Cidade", de Alfredo Gomes Dias (Livros do Oriente 2006), que juntou várias peças documentais da Macau de outras eras colocando em cena pessoas anónimas que construíram o tecido único desta cidade ao longo dos séculos. Um trabalho baseado na Correspondência Oficial Trocada entre as Autoridades de Cantão e os Procuradores do Senado, 8 Volumes.


"China says it will meet Dalai Lama's representative", IHT.