Sunday, January 11, 2009

Xi por cá: mensagens para memória futura


A visita do vice-presidente Xi Jinping a Macau surge num ano muito importante para a Região Administrativa Especial. As razões são óbvias: passa a primeira década da RAEM, é ano de eleições legislativas e, principalmente, em 2009 vai ser escolhido o sucessor de Edmund Ho, na liderança do governo. O ciclo político que se abre este ano é precedido pelos sinais económicos já visíveis em 2008.

A visita de Xi, princeling (filho de Xi Zhongxun, dirigente histórico do Partido Comunista e fundador da guerrilha revolucionária da província de Shaanxi) e dado como provavelmente o mais forte candidato a suceder a Hu Jintao na liderança do Partido e do estado, trouxe, além das obrigatórias palavras de circunstância, mensagens importantes. Desde logo o apelo à diversificação económica a – um desiderato antigo e vezes sem conta repetido por dirigentes locais que agora ganha outro peso. Diversificação essa, disse o vice-presidente, que passa também pelo desenvolvimento da Ilha da Montanha, uma declaração que saltou à vista como sendo o início de uma nova janela de oportunidade para a RAEM e como um passo no sentido de materializar a propalada cooperação inter-regional e o desenvolvimento integrado no Delta do Rio das Pérolas: Macau-Hong Kong-Guangdong.

Numa outra nota de especial importância para a comunidade “de matriz portuguesa”, a forma como Xi quis encontrar-se com representantes da comunidade macaense nas casas Museus da Taipa e o tempo e atenção que deu a este evento não pode deixar de constituir um sinal inequívoco sobre o papel que as autoridades do governo central concedem à comunidade macaense e à lusofonia. Que este sinal seja entendido por certos "patriotas paroquianos” que ocasionalmente ainda persistem.

Dito isto resta-nos esperar como será materializada a estratégia enunciada, sobretudo no que diz respeito à diversificação da economia local e o ao desenvolvimento da Ilha da Montanha (Hengqin). Isso dependerá de vários factores, endógenos exógenos.

Quanto a Xi, recordemos o que disse dele há pouco tempo Henry Paulson, secretário do tesouro norte-americano: "the kind of guy who knows how to get things over the goal line."

Tuesday, January 06, 2009

Não é brincadeira

CHINESE TOY FACTORY
The closure of about 4,800 toy factories, mostly Hong Kong-owned, has led to the loss of 2 million jobs.The number of toy factories on the mainland has shrunk by more than half over the past year as the global financial crisis devastated the sector, according to official statistics.
Over the past year, the number of toy factories on the mainland has dropped to 3,200 from 8,000. Most of them are in Guangdong province.

South China Morning Post, 06-01-2009 (sem link directo)

Dias Difíceis, na (s) fábrica (s) do Mundo.


Thursday, January 01, 2009

O Primeiro de Janeiro - Breves notas em tom de optimismo

Photobucket
1. Hu Jintao propõe cooperação ao nível da defesa com Taiwan
2. Pequim e Hanói chegaram a acordo sobre a fonteira entre a China e o Vietname, 30 aos depois da curta guerra fronteiriça sino-vietnamita.
3. A China, através da agência oficial de notícias Xinhua, começa o ano com um discurso muito optmista sobre as relações com os EUA.

2008-2009

A passagem do ano constitui sempre um motive para os balanços dos 365 ou 366 dias que passaram e para uma antevisão do dos doze meses quê se avizinham. Na verdade as unidades temporais históricas muitas vezes não coincidem com a contagem do universalmente aceite calendário gregoriano. Isso tem sido vincado pelos historiadores quando olham para os séculos e marcam o início e o fim, por exemplo, do século XX histórico. Eric Hobsbawn em “A Era dos Extremos: O Século Breve” marca o início do século no começo da I Guerra Mundial e o seu fim no desmantelamento da União Soviética. O mesmo raciocínio podia ser aplicado aos anos. Nesse caso a falência do banco Lehman Brothers e a grave crise financeira internacional seria a marca d’água. Em todo o caso, seguindo o calendário de Janeiro a Dezembro somos levados a olhar para 2008 como um ano “atípico”, para utilizar um lugar comum para um ano incomum. No que diz respeito à China foi o ano das tempestades de neve, do perigo da hiperinflação, dos “acontecimentos no Tibete, da tocha olímpica a correr mundo, das manifestações, do Leite contaminado com melamina, da terceira missão espacial tripulada e acima de tudo de uns Jogos Olímpicos muito bem-sucedidos. Para a economia os tempos têm sido de nuvens cinzentas, sobretudo desde Setembro, quando o recuo dos mercados de consumo no Ocidente e a crise do crédito começaram a ditar o fecho de centenas e centenas de unidades de produção., na altura em que se celebravam os 30 anos das reformas económicas.

Para Macau, 2008 foi o ano que marcou o fim da era do “céu é o limite” no sector do jogo. 2009 será um ano crucial, como já não havia desde 1999. Edmund Ho passará o testemunho na chefia do governo. Será também eleita uma nova Assembleia Legislativa, no ano em que a RAEM completa a primeira de cinco décadas. Para a China, 2009 será também um ano de aniversários redondos: os 60 anos da fundação da República Popular e os 20 anos da repressão de Tiananmen. Há um ano, na antecipação de 2008, citava o artigo 2008: The year a new superpower is born”, de Cahal Milmo. Este ano, Pequim terá imensos desafios dentro de portas e muitos esperam que a RPC assuma um papel mais activo no futuro governance que sair dos escombros da actual crise internacional e que possa também desempenhar uma função de maior peso na segurança internacional. Algo que dependerá não só do caminho que Pequim escolher nesta encruzilhada, mas também da postura da futura Administração Obama.

Termino este primeiro texto do ano, em consonância com o resto do post, em tom genérico, desejando aos leitores e visitantes deste canto da blogosfera um 2009 Feliz.

Saturday, December 13, 2008

“N'a pas voulu offenser”

Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 11/12/2008

José Carlos Matias



Há quatro ou cinco anos o que se passou seria impensável. O então presidente francês Jacques Chirac nunca desafiaria Pequim ao encontrar-se com o Dalai Lama. A China, por consequência, nunca adiaria unilateralmente uma Cimeira com a UE. Quer isto dizer que a relação entre Pequim e Paris e mesmo entre a China e a UE mudou de características. Já desde 2006 que era bem visível que o namoro entre as duas partes – classificado por alguns apenas como um “trade love affair” – tinha evoluído para um casamento complexo. À luz da complexidade da interdependência nas relações sino-europeias, não há lugar a um divórcio. Em todo o caso, parece claro que estamos perante uma “crise conjugal”. Pequim já disse que o adiamento é uma forma de castigar o chefe de estado francês e não tem como objectivo fazer recuar a dinâmica de cooperação sino-europeia que tem crescido exponencialmente ao longo dos últimos anos. Contudo, o episódio comporta aspectos que vêm à tona e outros mais profundos e que mexem com as estruturas do relacionamento entre a China e a UE. Sendo cedo para tirar conclusões precipitadas, vale a pena olhar para o que está em causa à vista desarmada.

Sarkozy, a “bête noir”

No que diz respeito ao episódio que gera a polémica, esta não é, de facto, a primeira vez que Sarkozy “irrita” Pequim. Já em Abril o presidente francês tinha indicado que poderia boicotar a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos caso a China não dialogasse com o Dalai Lama. No dia 8 de Agosto, pelas 8 da noite, lá estava Sarkozy na tribuna VIP do Estádio Ninho de Pássaro. O presidente de França - país que desde Charles De Gaulle tem sido um dos aliados mais próximos da China – marcou presença também na qualidade presidente em exercício da União Europeia. Afinal, disse o antigo “enfant terrible” da direita francesa, Pequim estava a dialogar com o líder tibetano no exílio (um diálogo que parece não ter levado a lado algum, por enquanto).
Depois de ter escapado a um encontro com o Dalai Lama em Agosto, quando enviou a sua esposa Carla Bruni e o idealista chefe da diplomacia francesa Berard Kouchner, Sarkozy não quis repetir o número e desta vez “enfrentou” a China e encontrou-se com o Dalai Lama, na Polónia, numa cerimónia em que participaram outras personalidades a quem foram atribuídos Prémios Nobel da Paz.
Duas semanas antes, Pequim tinha elevado a parada ao adiar unilateralmente a cimeira UE-China, chocando alguns parceiros europeus, chefes de estado e de governo e empresários que estavam já de armas e bagagens em Lyon para o conclave e os contactos empresariais. A resposta chinesa surge aos olhos de muitos observadores (eu incluído) como muito pouco razoável, independentemente de se poder discutir sobre a (falta de) oportunidade do gesto de Sarkozy. Mas afinal por que razão decidiu a China “castigar” não só o presidente francês, mas também os parceiros europeus com uma atitude tão radical? Ainda por cima, numa altura em é muito importante o diálogo entre as duas partes num contexto de crise financeira e económica internacional.

Dualidade de critérios

À superfície foram explicados alguns argumentos. O analista chinês Feng Zongping escreveu na China Daily, pura e simplesmente, que Pequim não quer que os líderes ocidentais se encontrem com o Dalai Lama e os negócios continuem como se nada tivesse acontecido. Mas se este ano a chanceler alemã Angela Merkel ou o chefe de Governo britânico Gordon Brown se encontraram com o Dalai Lama, o que tem de tão grave este encontro? Um editorial no China Daily publicado na segunda-feira, dia 8 de Dezembro, esclarecia esta questão: pela primeira vez um presidente em exercício da União Europeia encontrava-se com o dito cujo Lama. Algo que equivaleria, na linha de argumentação chinesa a um encontro entre Hu Jintao e o líder da Frente Nacional de Libertação da Córsega. Esta justificação – de Sarkozy ser presidente em exercício da UE – esbarra noutra comparação que podemos fazer: George W. Bush, presidente dos EUA, também teve este ano um encontro com o senhor em causa. Provavelmente, aqui entramos numa outra questão - a forma diferente como a China trata das relações com os EUA e com a UE. É curioso verificar que dias depois de ter adiado unilateralmente a cimeira com a UE, Pequim recebeu de braços abertos o Secretário do Tesouro Henry Paulson, numa sessão do Diálogo Económico Estratégico que decorreu num tom amistoso. Recorde-se que há não muito tempo, Pequim orgulhava-se de ter uma relação bem mais harmoniosa com Bruxelas do que com Washington.
O francês Jean-Vincent Brisset, do Instituto Internacional de Relações Estratégicas de França, tem uma visão cortante e com traços realistas (no sentido teórico, de um mundo em que cada estado procura maximizar a sua posição relativa de poder sobre os outros). Em declarações à Revista Time, Brisset diz que a razão pela qual a China foi tão longe prende-se com o facto de Paris ter “repetidamente mostrado fraqueza ao claudicar perante a pressão da China”. Para este investigador, "a China apenas respeita aqueles que resistem às pressões, como foram os casos da Alemanha e do Reino Unido".
Numa outra leitura, o colunista norte-americano John Pomfret indicia que a “linha dura” da diplomacia chinesa está por detrás desta posição, à semelhança do que sucedeu no período inicial da “crise” do Tibete este ano.

De novo a ameaça de boicote

Tendo em conta os interesses estratégicos em causa, é importante agora fazer uma gestão desta crise. Antes disso é preciso perceber o que vai Sarkozy fazer para amaciar a sua abordagem a Pequim e se as ameaças de boicote a produtos franceses – numa nova versão depois dos protestos contra os supermercados Carrefour em Abril e Maio – se concretizam. O jornal China Daily escreveu que o presidente francês será o culpado por eventuais quebras nas vendas de produtos como a Louis Vuitton ou nos supermercados Carrefour. Mas o que mais preocupa Paris é um cenário de queda das encomendas de aparelhos Airbus em detrimento dos norte-americanos Boeing. Com este discurso, não é de admirar que nos fóruns da internet na China já abundem apelos ao boicote. Afinal, diz o jornal, a atitude de Sarkozy magoou não apenas os dirigentes, mas também o povo chinês. Tudo isto não augura nada de bom. Muitos europeus não entenderão boicotes e novas manifestações anti-França, especialmente numa altura em que o “soft power” da China sofreu uma grande erosão, num ano marcado pela forma como a Europa e os EUA entenderam os acontecimentos no Tibete e pelo escândalo dos produtos contaminados com melamina. Katinka Barysch, do Centre for European Reform, escrevia há dias no Wall Street Journal que o sentimento proteccionista face à China está a aumentar na Europa. Um estudo recente indica ainda que na Alemanha a China tem uma imagem cada vez menos favorável. Indicadores estes que, valendo o que valem, contrariam os dados de há quatro ou cinco anos, quando a emergência da China era encarada no Velho Continente como um aspecto positivo nas relações internacionais e uma oportunidade de negócios.
Para inverter esta percepção – resultante em grande medida do desequilíbrio da balança comercial, a favor da China - Dai Bingran, professor na Universidade de Fudan, considera fundamental que sejam afastadas as pulsões proteccionistas de forma a que seja dada prioridade ao aumento das exportações europeias para a China e não seja dada primazia à imposição de barreiras à entrada de produtos chineses no espaço europeu.

Por um “realismo visionário”

Todavia, convém não exagerar a importância destes sinais. Tudo será manejável. Pedindo emprestadas as palavras a Timothy Garton Ash, em “Only a strategic partnership with China will keep this new dawn bright”, no jornal the Guardian, é preciso nas relações UE-China um “realismo visionário”. Num texto escrito por altura do adiamento da cimeira, Ash faz um apelo para que não só seja mantido o nível da parceria, mas a um reforço para que sejam dados passos mais firmes - esses sim verdadeiramente estratégicos. No passado recente, as relações são, por vezes, condicionadas pelo que o historiador britânico chama dos quatro Ts: Trade, Tibet, Taiwan e Tiananmen. Para que esses Ts não assombrem os laços, Garton Ash propõe uma parceria focada em quatro objectivos: uma ordem económica global reformada, uma abordagem ao desenvolvimento multilateral e multidimensional (incluindo boa governação, transparência, estado de direito e democracia), energia e ambiente e reverter a proliferação nuclear.
O académico britânico defende que trabalhar com a China implica mudar a típica abordagem ocidental de estabelecer posições comuns e apresentá-las à China como exigências. O novo caminho, diz, deve passar por posições estratégicas genuinamente comuns. Também Jonathan Hoslag adverte que “qualquer política europeia face à China deve ter por base uma avaliação realista e não vistas curtas”. O académico belga salienta que “a inércia chinesa face ao proselitismo europeu não vai mudar em breve”. É que a RPC “está determinada em escrever a sua própria história e não aquela que lhe é ditada por outros”.
No futuro imediato, assim que a poeira deste episódio lamentável assente, o mais importante é ter em mente o essencial. Parafraseando Stanley Crossick, do European Policy Centre, no seu blogue, face ao cenário de depressão económica, vulnerabilidades do sistema financeiro mundial, mudanças climáticas, terrorismo ou segurança energética, os líderes europeus e chineses não podem deixar de trabalhar em conjunto por causa da questão do Tibete. Essa questão deverá ser tratada – sim – mas com base numa melhor percepção mútua da forma tão dispare como o assunto é percebido pelos líderes e opiniões públicas dos dois lados.

Wednesday, December 10, 2008

Um caminho ainda longo

No dia em é comemorado o 60º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, as autoridades chinesas continuam a dar sinais contraditórios. Alguns bem errados. O punho ainda é de ferro ainda que por várias vezes se veja a luva de veludo...

Police in Beijing have detained dozens of protesters gathered at the foreign ministry on the 60th anniversary of the UN Declaration of Human Rights.The protesters held up letters of complaint and called for action on illegal detentions and other abuses. BBC

Tuesday, December 09, 2008

Efeitos colaterais

A Freedom's Watch anunciou o fim das actividades. A organização, fundada no Verão de 2007 e fortemente financiada pela Las V egas Sands, é vítima da crise na operadora de Sheldon Adelson e da queda livre do preço das acções da empresa. Ao longo de pouco mais de um ano de existência, a Freedom's Watch deu um forte apoio à política de George W. Bush no Iraque e a vários candiatos do Partido Republicano nas eleições para o Congresso. Este grupo de pressão (lobby) está ligado desde o início à direita conservadora belicosa e ao sectores mais reaccionários entre a comunidade judaica norte-americana. Sheldon Adelson, patrão da Las Vegas Sands, era o seu maior financiador. William Weidner, número dois de Adelson, fazia parte da Administração da Freedom's Watch.
Não deixa saudades.

Sunday, December 07, 2008

A voz lúcida de Ash

Garton Ash
Este texto de Timothy Garton Ash é de longo alcance. Publicado um dia depois do adiamento unilateral, por parte de Pequim, da cimeira UE-China, o artigo indica o caminho a seguir para que a "parceria estratégica" seja de facto substancial. No momento em que pairam nuvens negras sobre as relações sino-europeias, Ash faz um apelo:

"When I say "we should start work with China", I mean exactly that. Not the old west working out a set of common positions and then presenting them to China, but attempting to work with China from the outset to forge common strategic positions".


O tom do autor contrasta com as vozes que, face a esta atitude (muito pouco razoável, diga-se) da China de adiar a cimeira por causa do encontro de Sarkozy com o Dalai Lama, pedem uma UE menos condescendente com Pequim.
Voltaremos a este assunto em breve.