Friday, November 07, 2008

A China, Macau e os Países de Língua Portuguesa

"Cementing Sino-Luso relations", by José Carlos Matias
Macau Business magazine

"There is no doubt that since the inception of the Forum for Cooperation between China and the Lusophone Countries, bilateral trade has skyrocketed and huge Chinese investments have flowed into Portuguese-speaking Africa and Brazil.
But five years after the first ministerial session, how much of this can be credited to the Forum?" Ler artigo completo aqui

Thursday, November 06, 2008

Shame

"A partir de Janeiro, os trabalhadores dos casinos vão ter uma placa a indicar se são residentes ou não .As placas destinam-se aos funcionários da linha da frente".
Eis algo de muito lamentável que envergonha a RAEM. Por várias razões. Resta esperar que a razão, o bom senso e a tolerância revertam esta situação que nos traz à memória o que a História tem de menos dignificante.
Reportagem da TDM disponível aqui.

Wednesday, November 05, 2008

The tide has changed

obamaxangai
Foi de facto um dia especial. E um discurso soberbo! Agora fazem-se as contas aos desafios "hercúleos" que a futura Administração Obama terá pela frente.
Deste lado do mundo, prestamos atenção à forma como a China encara a aleiçãode Obama e como o prediente eleito lidará com as relações sino-americanas.
Eis alguns sinais...

“Obama gives greater confidence to people of the Third World,” Yang said, after the photo. “We, the black, yellow, and other races, can be the same as the whites! We struggled for independence and, finally, won that. Now we have won in another field—political affairs—and in a superpower no less.”
Evan Osnos no The New Yorker

"Given China's size, its muscular manufacturing capabilities, its military buildup, at this point--and also including its large trade deficit--at this point, who has more leverage, China or the U.S.?

Obama: Number one is we've got to get our own fiscal house in order. Number two, when I was visiting Africa, I was told by a group of businessmen that the presence of China is only exceeded by the absence of America in the entire African continent. Number three, we have to be tougher negotiators with China. They are not enemies, but they are competitors of ours. Right now the United States is still the dominant superpower in the world. But the next president can't be thinking about today; he or she also has to be thinking about 10 years from now, 20 years from now, 50 years from now".

Excerto de um debate nas primárias do Partido Democrata.

"Asia's leaders, led by an ascendant China, say they hope Barack Obama didn't really mean those campaign promises to protect American trade. And if he did, they are in better shape to object than ever before". "China, Emerging Asia to Fight `Protectionist' Obama", Bloomberg



Monday, November 03, 2008

Late Monday Post (Leituras Pós-Dominicais)

"Em género de primeiro balanço pode-se dizer que o mandato de Ho Hau Wa, como chefe de executivo da RAEM, tem sido marcado, de forma positiva, por uma aposta ganhadora na centralização do modelo de desenvolvimento económica na indústria do Jogo e das diversões através da liberalização do acesso ao respectivo mercado (...) Chefe do Executivo preferiu reforçar os laços com o Primeiro Sistema, alinhar as prioridades de Macau com a agenda política nacional de Pequim do que prosseguir um curso próprio. Talvez o não tivesse podido fazer de outra forma dados os laços estreitos das associações empresariais da RAEM com estruturas importantes do Estado chinês."
A doce leveza do fim, Arnaldo Gonçalves no Jornal Tribuna de Macau

"The damage China does to itself by its clumsy public presentation is obvious—though apparently not yet obvious enough to its leadership. For outsiders, the central problem is that a country that will inevitably have increasing and perhaps dominant influence on the world still has surprisingly little idea of how the world sees it".

Their Own Worst Enemy
, James Fallows, Atlantic.

"During the past two years, commentators have portrayed China's engagement in Africa as successful and a challenge to traditional donor policies and geostrategic interests. On the surface, China's bilateral and unconditional dealings with African governments seems to have undermined European efforts towards sustainable development. But Chinese and African officials claim China's "soft" diplomacy has been more preferable and successful than Europe's conditional overtures. In light of such developments, the EU has increasingly found itself under zugzwang, a position in which a chess player is compelled to move".
EU puts Africa ball in China's court, Bernt Berge no Asia Times.

Saturday, October 25, 2008

ASEM Assim

Texto Publicado no jornal Hoje Macau em 23-10-2008

José Carlos Matias

Este fim-de-semana, líderes dos 27 países da União Europeia, das 10 nações da ASEAN – Associação das Nações do Sudeste Asiático – juntamente com a China, Japão, Coreia do Sul, Mongólia, Índia e Paquistão encontram-se em Pequim para a sétima cimeira do ASEM (Asia-Europe Meeting). Doze anos após o primeiro encontro, muito se tem escrito sobre a natureza deste fórum de diálogo inter-regional de características únicas e potencialidades imensas, mas que pouco tem produzido em termos de resultados concretos.
Desta vez, no entanto, tendo a crise financeira internacional como pano de fundo, o encontro ASEM bem que poderia dar indicações sobre medidas globais para fazer face àquela que é considerada a pior crise financeira desde a II Guerra Mundial. A UE tem clamado por uma reforma do sistema financeiro global. Em Pequim, poderiam ser dados alguns sinais concretos. Tanto mais que na capital chinesa estão presentes dirigentes de países que somam 3870 milhões de pessoas, ou seja o equivalente a 58 por cento da população mundial. Neste grupo apenas faltam a Austrália, Rússia, Estados Unidos, Brasil e África do Sul para estarem representados os países mais industrializados e as potências do mundo em desenvolvimento. Numa altura em que o mundo se torna, nas palavras de Farred Zakaria, gradualmente “Pós-Americano” e num século que vai ser marcado, de acordo com Kishore Mahbubani, pelo “Hemisfério Asiático”, que função papel e relevância tem o ASEM? Mais: em que medida interessa às várias partes envolvidas a criação de uma rede institucional mais forte e o aprofundamento desta interessante dinâmica inter-regional que teve início em 1996?

ASEM cada vez maior

A ideia inicial foi lançada pelo então primeiro-ministro de Singapura, Goh Chok Tong. Em meados dos anos 1990, quando a poeira do fim do mundo bipolar assentara, um diálogo entre a maior potência comercial do mundo e a Ásia Oriental onde residiam (e residem) as economias emergentes mais dinâmicas era visto como lógico, útil e pleno de potencialidades. Na primeira cimeira, em Banguecoque, na altura ainda com apenas 28 países, o ASEM lançou as pedras para três iniciativas centrais: lançar um plano de Promoção de Investimento, criar o Asia-Europe Business Forum, a Asia Europe Foundation e o Asia Europe Technology Centre
A primeira cimeira beneficiou de ventos de optimismo face a este novo tipo de relacionamento nas relações internacionais. O diálogo tocou assuntos tão diversos como o multilateralismo, reforma das Nações Unidas, diálogo inter-cultural, cooperação tecnológica, ambiente, combate à pobreza, educação, além do comércio e investimento, entre outros.
Ao longo das seis cimeiras já realizadas o número de participantes foi aumentando, à medida que a UE se alargava à Europa de Leste. No ano passado, a Índia, Paquistão e Mongólia foram convidados e aderiram ao ASEM, dando uma nova dimensão inter-regional e trans-reagional a este fórum: o que começou por ser um encontro entre a Europa Ocidental e a Ásia Orienta, passou a incluir, devido ao alargamento da UE, a Europa Central e parte do leste europeu e – mais importante – as duas maiores potências da Ásia do Sul. Com tantos membros, este clube tornou-se ainda mais heterogéneo e um chapéu debaixo do qual se movimentam sub-dinâmicas regionais, bilaterais e inter-regionais. No contexto da ASEM há desde o início dois processos que tinham tido início anteriormente, mas que se desenvolveram e aprofundaram ao longo destes doze anos: a relação UE-ASEAN e a dinâmica ASEAN Mais Três – Sudeste Asiático coma China, Japão e Coreia do Sul. Por outro lado, subjacentes ao Encontro Ásia Europa estão as relações UE- China e recentemente Bruxelas-Nova Deli. Além disso, este tipo de organizações multilaterais abrangentes são adequadas para que problemas bilaterais sejam dirimidos e moderados de forma bem mais eficiente do que através do mero diálogo bilateral entre dois estados. Por exemplo, espera-se que em Pequim, os dirigentes do Camboja e da Tailândia se encontrem para falar sobre o problema fronteiriço que se tem agudizado ao longo ao longo dos últimos meses.
Na base do ASEM estão quatro pontos cardeais que guiam todo este processo: informalidade, multi-dimensionalidade. Ênfase em parcerias em plano de igualdade e perspectiva dual baseada quer nos contactos de alto nível quer nas relações entre actores da sociedade (people-to-people links).

E os salto qualitativos?

As palavras, princípios orientadores e declarações de intenções têm sido estimulantes, mas, na prática, o ASEM deixa algo (bastante) a desejar. Há várias razões para que o ASEM não se tenha ainda transformado numa verdadeira organização inter-regional com um vector institucional significativo e uma rede de diálogo a vários níveis. Numa análise bem interessante, o académico alemão Jurgen Ruland salienta que, por norma, os fóruns inter-regionais são, sem excepção, superficiais, uma vez que os países envolvidos não estão interessados em investir substancialmente numa “governance” que materialize as palavras de ocasião. Por outro lado, quanto mais nações estiveram envolvidas, mais dispersos são os interesses e o sentido estratégico das relações. Já Christopher Dent considera que o ASEM é um exemplo de um “regime cooperativo” que incorpora aspectos da “interdependência complexa que prevalece no sistema internacional”. Face a esta análise, José Sales Marques perguntava, numa conferência realizada há três anos pelo Fórum Luso-Asiático, em Macau, “onde estão os vários níveis de diálogo permanente? E a sociedade civil?”.
Numa lógica de balança de poderes internacionais, o ASEM deve ser entendido numa fase inicial como uma resposta ao processo do APEC – Asia Pacific Economic Cooperation – lançado em 1989, que integra os EUA, México, Canadá, países da costa do Pacífico da América do Sul, Austrália, Nova Zelândia, China, Sudeste Asiático, Japão, Coreia do Sul e Rússia. A atitude unilateralista de Washington nos anos da Administração Bush “empurrou” os países asiáticos que fazem parte dos dois blocos para a valorização dos laços com a UE.
Além das contas que se podem fazer sobre o peso absoluto e relativo de cada uma das potências sobre as restantes, o ASEM apresenta aspectos interessantes com impacto no médio e longo prazo. Por exemplo, Julie Gilson sublinha que o processo ASEM tem contribuído para a forma como o lado asiático se encara como um grupo com afinidades e interesses comuns face ao bloco europeu. Além disso, sobressai no ASEM uma dinâmica de construção de identidades através da intersubjectividade euro-asiática. Este tipo de processo é no entanto difícil de medir, sendo por vezes pouco palpável. Ou seja, será eventualmente mais visível noutra fase deste Fórum. Até lá, Jurgen Ruland pede: aprofundem-se as instituições. “Essa a é a melhor forma de desenvolver uma utilidade multilateral ao ASEM”. E, já agora, uma vez que Singapura é sede da Asia-Europe Foundation (ASEF) – Macau poderia quiçá desempenhar um papel activo em eventos e projectos de cooperação, como actor sub-nacional. Afinal estamos a falar do Encontro Ásia-Europa.

Saturday, October 18, 2008

Em curso (mudanças)

1. Wen Jiabao assume que o governo também tem responsabilidades no escândalo do leite contaminado com melamina. Numa entrevista à revista norte-americana Science, o primeiro-ministro afirma:
"We feel that although problems occurred at the company, the government also has a responsibility (...) I once again solemnly emphasize that it is absolutely impermissible to sacrifice people's lives and health in exchange for temporary economic development"
Os mais cépticos podem dizer ... "So What?". Mas a verdade é que uma declaração destas seria impensável há não muito tempo. A forma de lidar com as crises mudou em definitivo. E Wen Jiabao personifica da melhor forma essa mudança gradual.

2. Numa outra nota positiva vinda de Pequim, o governo central decidiu tornar permanente o conjunto de regras criadas a propósito dos Jogos Olímpcios para as actividades dos jornalistas estrangeiros. Com as limitações que ainda existem e tendo em conta que por vezes as autoridades locais não colocam em prática essas regras (o que acontece com muitas outras medidas tomadas a partir de Pequim), não se pode deixar de sublinhar a importância deste passo. Este é um sinal contrário à retórica dos que diziam que depois dos Jogos, a mão de ferro iria ser de novo esmagadora. Aguardemos os passos seguintes, sobretudo se haverá evoluções no que diz respeito às actividades dos jornalistas dos "media" da China continental.

Wednesday, October 15, 2008

sinais

1.Em Hong Kong, a economia "mais livre do mundo", onde o capitalismo flui sem intervenção significativa do estado, o governo vai avançar com a legislação para introduzir o salário mínimo. Uma dor de cabeça para os fundamentalistas do mercado. Espero que os senhores da Heritage Foundation não fiquem zangados... E para quando em Macau?
"HKSAR to introduce legislation on statutory minimum wage", Xinhua.

2. Paulo Krugman, um respeitável neo-keynesiano, ganhou o Prémio Nobel da Economia. É certo que a distinção deve-se - e bem - ao seu contributo no mundo académico para o entendimento do comércio internacional, mas não se pode ignorar que enquanto intelectual público, Krugman é das vozes mais interessantes e desassombradas do centro-esquerda norte-americano (como se diz por lá , nos EUA, "liberal", no sentido político). A propósito, vale a pena ler o seu último livro.

Saturday, October 11, 2008

Devolver o "quan" ao povo

Texto publicado no Jornal Hoje Macau em 09-10-2008.

José Carlos Matias

O plenário do Comité Central do Partido Comunista Chinês (CCPCC) que se reúne nestes dias é considerado o mais importante dos últimos anos. Hu Xingdou, professor no Instituto de Tecnologia de Pequim, defende mesmo que este é o “plenum” mais relevante desde o início dos anos 1990. Pode parecer exagero, mas o certo é que há razões para olhar para este encontro com a máxima atenção. O CCPCC está reunido numa altura em que o mundo treme com a crise financeira internacional e num contexto de abrandamento do crescimento da economia chinesa. O conclave acontece após meses de exposição intensa da China face ao exterior, com o terramoto de Sichuan, os Jogos Olímpicos e escândalo do leite contaminado com melamina. Além do mais, em Dezembro passam 30 anos sobre o famoso discurso de Deng Xiaoping perante o CCPCC, quando pediu aos seus camaradas para emanciparem as mentes (do maoísmo) e abraçarem um novo rumo marcado pelas reformas e abertura (“Gaige kaifang”). Nos próximos quatro dias, na agenda de trabalhos, está o novo impulso que a liderança Hu-Wen quer dar às reformas, especialmente no que diz respeito ao mundo rural, onde vivem ainda mais de 700 milhões de pessoas. Em concreto que reformas deverão ser discutidas? A nova fase da “emancipação das mentes” implicará reformas políticas e administrativas com algum impacto?

Depois do “li”, venha o “quan”

Apesar de todas as transformações, interpretar os sinais políticos na China ainda é, parafraseando o sinólogo Simon Leys (pseudónimo do belga Pierre Ryckmans) algo semelhante à “arte de interpretar inscrições inexistentes escritas com tinta invisível numa página em branco". Em todo o caso, vale a penar anotar alguns sinais e declarações. Desde logo as palavras do líder do PCC na importante província de Henan. Zhang Chunxian afirmou que se nos últimos 30 anos a prioridade foi devolver o “li” (利 – no sentido de interesses económicos) às pessoas, agora o importante é devolver o “quan” ao povo. Numa tentativa de interpretar estas palavras, Wu Zhong, analista do Asia Times, salienta que o conceito de “quan” (权) é ambivalente: tanto pode traduzir-se por direitos como por poder. Provavelmente Zhang preferiu, propositadamente, não desfazer a dúvida.
Uma primeira leitura tem a ver com a prioridade anunciada pelos órgãos oficiais à agricultura. No plenum os membros da cúpula do PCC vão delinear políticas que privilegiam a China que vive no campo e que tem beneficiado menos com o processo das reformas económicas que trouxeram prosperidade sobretudo às zonas costeiras e às cidades.

A atenção ao mundo rural

O eixo Hu-Wen é conhecido por ter muito mais sensibilidade para as questões rurais que Jiang Zemin e Zhu Rongji. Pouco depois de ter assumido a chefia do partido e do estado, a Quarta Geração (“disidai”) tomou várias decisões com vista à redução substancial da carga fiscal imposta aos camponeses e às suas famílias. No ano passado, a Assembleia Popular Nacional aprovou um pacote de medidas que incluiu a gratuitidade do ensino primário para as famílias que vivem nas zonas rurais e uma expansão do sistema cooperativo e cuidados de saúde. Sem dúvida que este conjunto de medidas – corte drástico da carga fiscal e apoios na saúde e educação – constituíram passos positivos no apoio às zonas rurais. Mas isso não fez com que as revoltas e protestos no campo tenham aparentemente diminuído. A aquisição por parte dos governos locais de terras usadas (mas não detidas) por camponeses para serem entregues a projectos imobiliários ou industriais tem gerado protestos por vezes violentos. De resto, a instabilidade e os problemas que afectam as zonas rurais têm sido questões plenamente assumidas pela liderança chinesa em inúmeras ocasiões. O percurso de Hu Jintao, que chefiou o partido em províncias do interior e menos abastadas como Guizhou e Tibete, e o talento de Wen Jiabao para “falar ao coração” dos camponeses são factores que potenciam a promoção deste tipo de políticas. Por outro lado, a ausência de medidas de promoção do bem-estar dos direitos da população que vivem nas zonas rurais poderia colocar em causa não só a estabilidade social como a legitimidade do Partido. Contudo, essa necessidade de preservar alguma “harmonia social” implica outros passos mais audazes. Wu Zhong indaga se “quan” poderá significar direitos ligados à propriedade rural. Actualmente, os camponeses podem “arrendar” o uso da terra através de um contrato normalmente válido por 30 anos, mas, na prática, os governos locais podem resgatar uma propriedade em nome do interesse do estado. Isso acontece muitas vezes sem que os camponeses tenham uma compensação adequada, o que tem gerado inúmeros protestos.

Que direitos e poderes?

Sendo muito improvável que sejam dados passos no sentido da privatização dos terrenos agrícolas, faz todo o sentido que sejam levadas a cabo mudanças no sistema de gestão e uso das terras por parte dos camponeses. Por exemplo, Wu especula se o direito de uso dos terrenos poderá ser atribuído às aldeias colectivamente. Assim, sempre que uma empresa quisesse usar essa propriedade teria que negociar com os líderes dos comités de aldeia. Um cenário destes poderia retirar a dirigentes e membros locais algum (ou muito) espaço de manobra para os conluios que tantos protestos têm causado.
Numa outra interpretação, o “quan” enquanto poder poderá implicar o reforço de mecanismos de auscultação e consulta quando do processo de tomada de decisões. É nesse sentido que devem ser entendidas as palavras de Hu Jintao e Wen Jiabao quando salientam que é preciso aprofundar a “democracia socialista com características chinesas”. Tudo poderá passar pelo que Yu Keping chama de democratização gradual. Em “Ideological Change and Incremental Democracy in Reform-Era China”, Yu, que ficou famoso pelo texto “Democracy Is a Good Thing”, considera que sendo a participação cívica essencial na democracia política, a melhor forma de avançar com as reformas políticas é “alargar a participação política por parte dos cidadãos”. Sendo esta uma asserção de “La Palisse”, não deixa de ter algum significado considerando que Yu é director adjunto do Departamento de Tradução do partido Comunista Chinês e que tem sido a voz mais audaz, nas estruturas dirigentes do Partido, na defesa da “democracia” como algo de bom para a China. Democracia essa gradual, de acordo com as características e necessidades da China e, claro, tendo o PCC como líder em todo o processo.

O “li” também inspira cuidados

Além de se poder especular sobre que tipo de “quan” será devolvido ao povo, é oportuno também ter em conta que o “li” (interesse económico) está a passar por um período diferente dos tempos em que o céu parecia o limite. Wen Jiabao tinha avisado em Fevereiro que este seria um ano difícil para a economia chinesa. Tudo começou com as tempestades de neve que paralisaram parte do país durante vários dias. Ao mesmo tempo, a inflação começara a atingir níveis alarmantes, sobretudo no custo dos alimentos. Com a subida dos custos de produção, valorização do yuan e com a perspectiva de uma crise económica nos mercados de consumo e exportação da maioria dos bens produzidos na China, certamente que “o motor” que tem gerado crescimentos anuais de cerca de dois dígitos inspira cuidados.

Friday, October 10, 2008

A China e a crise financeira internacional

Sendo os EUA, a Europa e o Japão os principais mercados de consumo dos produtos "made in China", em Pequim a crise nos mercados financeiros estará a sera companhada com especial preocupação. Citando o director-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn:
"It would be very surprising if a power like China would just be looking at the crisis from a balcony without being very concerned"

No mesmo sentido, o presidente do banco Mundial, Robert Zoellick, disse
"This is part of the process of China becoming a stakeholder (in the global economy) and a constructive one"

Olivier Blanchard, economista-chefe do FMI tem esperança que Pequim vai agir:
"it is clear that they (China) have the means to make a difference. And it may be that they will"

Afinal, a China é o segundo país com amior reserva de obrigações do Tesouro norte-americano, num total de 518.7 mil milhões de dólares.
Esta é uma mais uma oportunidade para a China se mostrar ao mundo como um actor essencial e crucial para a estabilidade financeira global, na sequên cia do que já fez, ainda que noutras circunstâncias, quando da Crise Asiática de 1997.
Mas em concreto o que pode e quer Pequim fazer? quando e como?

Thursday, October 09, 2008

China-Ocidente: percepções

Interessante esta crónica de Manfred Elfstrom:

"While today''s portrayal of China is an improvement over the naive (and often condescending) coverage of the past, Western journalists must begin to move beyond the shock value of recent turmoil and present a truly diverse country and, especially, a diverse Chinese history to their audience. What does it mean when workers on strike carry portraits of Mao Zedong? Which era''s slogans are used in peasant land disputes? What are the origins of today''s hukou system of household registration? These are details, but they reveal an event''s sources, goals and possible results".


In "Can Westerners see China as they see themselves", CEG.

Sunday, October 05, 2008

Thursday, October 02, 2008

Wednesday, October 01, 2008

Sunday, September 28, 2008

Um Novo Salto


Texto publicado no Jornal Hoje Macau em 25-09-2008

José Carlos Matias

Depois de, em 2003, na missão Shenzhou V, ter colocado o primeiro chinês no espaço - Yan Liwei o primeiro “taikonauta” – e de em 2005 ter colocado dois astronautas em órbita, na missão Shenzhou VI, com um ano de atraso face ao previsto inicialmente, a China dá um passo importante ao lançar três astronautas (taikonautas) para o espaço, cuja missão é realizar um “Space Walk”, ou seja realizar operações fora da nave espacial fora da cápsula.
Caso Pequim consiga cumprir o calendário previsto, até 2020 a China poderá ter em órbita um Laboratório Espacial. Pouco depois, os “taikonautas” poderão alunar, no culminar de uma “Longa Marcha”, que teve início em meados dos anos 1950, quando Qian Xuesen regressou à China, oriundo do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos EUA, com o sonho de colocar o seu país ao lado dos EUA e da URSS como potência espacial. O processo foi tortuoso até 1999, quando Pequim lançou a primeira missão espacial não-tripulada a Shenzhou I.
O que está por detrás desta dinâmica chinesa no espaço? Que vantagens traz um programa espacial com custos financeiros muito avultados e com benefícios pouco óbvios no curto prazo?

Benefícios múltiplos

Um olhar sobre o “Livro Branco das Actividades Espacial da China” permite desde logo salientar que o programa espacial está ao serviço da estratégia compreensiva de desenvolvimento do país. Isto aplica-se quer no plano doméstico, quer na política externa chinesa. Joan Johnson-Freese lembra que aspectos como “orgulho doméstico, prestígio internacional, desenvolvimento económico e desenvolvimento de tecnologia de uso dual (científico e socioeconómico) estão na base da organização de missões espaciais tripuladas”. Além destes factores, é sabido que os programas espaciais estão normalmente relacionados com a modernização militar. Ou seja, um programa espacial tem efeitos multiplicadores e multi-direccionais que podem despoletar um ciclo virtuoso na economia, ciência e nas forças de defesa.
No caso da China, cada um destes factores encaixa-se nos desafios e ambições que o país tem pela frente. Como já se verificou no passado com as naves Shenzhou V e VI, o sucesso das missões é explorado internamento como forma de promover o orgulho nacional e o patriotismo. Naturalmente que esta projecção de poder tem igualmente uma função externa no processo em curso de emergência do país enquanto potência potencialmente capaz de ombrear no futuro com os EUA e a Rússia no espaço. A este nível, o primeiro efeito é regional: Pequim tomou a clara liderança no contexto asiático face às duas outras potências regionais: Índia e Japão. No que diz respeito aos benefícios económicos, os programas espaciais geram novas possibilidades de inovação tecnológica que mais tarde pode ser aplicada na sociedade civil e na economia, tornando-a mais dinâmica e moderna, em virtude do investimento feito em investigação e desenvolvimento.

As palavras e os actos

O programa espacial chinês deve também ser entendido tendo em conta a ambição da China de fazer parte da Estação Espacial Internacional, um projecto que inclui as agências espaciais da Europa, Rússia, EUA, Japão e Canadá. Pequim não conseguiu ainda entrar neste clube sobretudo devido à oposição de Washington que, como que olhando-se ao espelho, duvida dos objectivos pacíficos da estratégia da China para o espaço. Aliás, a questão da militarização do espaço tem contornos “orwelianos”. Por um lado, a China compromete-se a utilizar o espaço para fins pacíficos ao mesmo tempo que em Janeiro de 2007 realizou um teste anti-satélite com um míssil balístico que destruiu um satélite meteorológico desactivado. Por outro lado, os EUA duvidam das intenções de Pequim, quando simultaneamente em 2006 o Office of Science and Technology Policy do governo norte-americano referia que regimes de controlo e restrição da utilização de armas no espaço “não devem impedir os direitos dos EUA de investigar, desenvolver e testar operações no espaço de acordo com os interesses nacionais”. No que diz respeito à utilização de armas nucleares no espaço, ainda que rejeite a soberania de qualquer nação sobre o espaço, um documento orientador das políticas espaciais dos EUA - American National Space Policy paper – indica que os Estados Unidos devem desenvolver actividades nesse sentido, caso isso esteja de acordo com a estratégia norte-americana ao nível da segurança interna e dos interesses da política externa.

Desconfiança sino-americana

As preocupações de Washington face às ambições do programa espacial chinês tinham sido já evidentes quando os EUA criticaram a União Europeia por ter firmado um acordo com Pequim em que a China se tornou no principal parceiro externo no desenvolvimento do sistema europeu de navegação e posicionamento – o Galileu. Nos EUA, o cenário de tropas chinesas utilizarem um sistema de navegação europeu - de aliados - em operações militares contra forças apoiadas pelos EUA num cenário hipotético de guerra no estreito de Taiwan é visto como inaceitável.
O olhar de desconfiança não é um exclusivo nos EUA. Na Índia, A.V. Lele, analista do Instituto indiano de Análise e Estudos de Defesa alerta que o programa espacial chinês que inclui satélites geoestacionários e veículos de lançamento, estações espaciais terrestre e um sistema de navegação - o Beidou II -, vai contribuir para a modernização militar do Exército Popular de Libertação (EPL) e, em consequência, será uma potencial ameaça para os EUA e para os aliados dos norte-americanos na região.
Tal como acontece com certas análises nos EUA sobre a emergência da China como ameaça, parte do que é referido por alguns analistas de “think tanks” nasce de um exagero sobre as reais capacidades da China. Além disso, é evidente também que as lógicas da China-Ameaça e do “Perigo Amarelo” no espaço também intoxicam o debate.
Em Pequim, existe uma abordagem dúbia e realista. Por um lado, Pequim pede esforços para que seja firmado um acordo internacional que possa proibir a utilização de armas no espaço; por outro realizou o teste anti-satélite e parece, em privado, perceber que podemos estar num ponto sem retorno neste processo. Em 2004, um documento do EPL referia que na preparação para ganhar a guerra da informação e alta tecnologia, dominar o espaço é essencial.

Dos exageros à importância da cooperação

Não desvalorizando o que está em causa, vale a pena prestar atenção ao que tem dito Gregory Kulacki, analista da Union of Concerned Scentists. Em primeiro lugar, muita da informação que está a servir de base para o que dizem alguns analistas nos EUA tem por base artigos de credibilidade e autoridade muito duvidosa. Por exemplo, em 2004 foi noticiado que a China estava a desenvolver micro-satélites parasitas. Contudo a fonte dessa informação era um blogger desconhecido. Após ter analisado centena de artigos e documentos, Kulacki concluiu que nos EUA muitos autores não sabem distinguir fontes credíveis de não-credíveis e artigos com autoridade dos que apenas expressam rumores ou opiniões.
Quer isto dizer que existem graves falhas de comunicação e mal-entendidos sobre as intenções de cada um dos lados. No jogo das percepções, a realidade muitas vezes não se cola às narrativas mais sensacionalistas. Um acordo sobre o desarmamento no espaço - que já foi pedido pela Rússia e pela China, mas recusado pelos EUA – seria um passo importante. É necessário criar regimes seja no âmbito da ONU ou do clube de potências espaciais. Quanto aos EUA e a China, não seria má ideia a criação de um mecanismo de diálogo estratégico sobre questões espaciais, à semelhança do que acontece com os assuntos relacionados com a economia e finanças. Por si, poderia não dissipar a desconfiança mútua, mas pelo menos institucionalizaria o diálogo sobre algo tão sensível.




Thursday, September 25, 2008

Macau-China


1
. O Financial Times e o Asia Times já tinham publicado artigos sobre o fim da era do "céu é o limite" no crescimento do jogo em Macau. Agora é a Xinhua a traçar um cenário bem mais preocupante:

"Macao's gaming revenue growth slowdown arouses fears of mass lay-offs"

Como interpertar este texto - aparentemente apimentado, o que não é hábito - nesta altura, da Xinhua, a agência de notícias estatal chinesa?

Em "Aviso à Navegação", no Hoje Macau, alguns ensaiam respostas.



2. Definitivamente estamos a entrar numa nova fase na RAEM. 2009 vai ser um ano de decisões políticas cruciais e de reajustament0 económico (que já começou). Em ambos os níveis, a incerteza prevalece.

Nuno Lima Bastos escreve sobre os sinais que identifica, no imediato: "Os sinais estão aí!", JTM.

Alexandre Lopes posiciona-se na encruzilhada e aponta os caminhos que Macau tem pela frente:
"A encruzilhada de Macau", Hoje Macau.


É preciso ter paciência. Esperar para procurar então encaixar as peças. É que, apesar de todas as mudanças, isto de interpretar os sinais políticos na China, parafraseando Simon Leys, ainda se assemelha à "A arte de interpretar inscrições inexistentes escritas com tinta invisível numa página em branco".

Hoje

Ascende para lá dos céus a Nave Divina (VII)
shenzhou VII
"Shenzhou VII lifts off tonight", China Daily
"China's astronauts brace for historic spacewalk", AFP.

Tuesday, September 23, 2008

A Crise, a ameaça e o novo chefe em Tóquio

crise
1. "Why will Americans fall on their fountain-pens for their bankers? If America is to adopt socialism, why not have socialism for the poor, rather than for the rich? Why should American households that earn $50,000 a year subsidize Goldman Sachs partners who earn $5 million a year?"
Pergunta Spengler em mais uma crónica no Asia Times sobre a crise financeira nos EUA.


chinaarmy
2. "The growth of China and the Pacific region, and the United States' political involvement therein, increasingly renders the European Union superfluous. Political and economic growth is concentrated in the Asia-Pacific region, while the EU flounders on the periphery".
Francesco Sisci , editor para Ásia do La Stampa, no Asia Times: "China threat? It's a blessing"

taroaso
3. A Era pós-Koizumi está complicada. Depois de Abe e Fukuda, entra em cena Taro Aso. Será primeiro ministro durante mais de um ano?
"
Japanese ruling party names Taro Aso as new leader", The Guardian.

Thursday, September 18, 2008

O escândalo do leite contaminado na China

Editorial do South China Morning Post (18-09-2008)

"The overriding priority now is to restore confidence in the food-safety regime. The scandal leaves no room for complacency about the need for further urgent reform. The mainland cannot afford a system that is toxic to its next generation. And its poor cannot afford imported milk powder. Decisive action is needed. There is a need for a comprehensive inspection regime, independent of control by the milk companies, to ensure quality at every step from farm to shop. The mainland encourages the development of national brands with a quality-recognition scheme that exempts them from inspections. Milk companies implicated in the scandal which enjoyed this distinction have now, rightly, lost it. Sensibly, the exemptions will no longer apply to food products. Clearly there is a need to subject all to regular testing to maintain standards.
Victims have been promised free medical care. But doctors cannot rule out long-term health effects on infants. Financial support is needed to ensure the free services are available for as long as they are needed. Fair compensation must also be paid to those who have suffered damage to their health, or that of their children, as a result of the contamination. The government should impose a levy on the companies involved in order to cover the costs.
The damage done by this scandal will be long-lasting. Beijing must face up to it and take urgent steps to ensure that it can never occur again".

(negrito meu)

Saturday, September 13, 2008

A crise na Geórgia e as relações sino-russas

José Carlos Matias

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 10-19-2008

As parcerias estratégicas são testadas em momentos-chave. Por exemplo, o eixo Mosco-Pequim foi posto à prova durante a Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), no final de Agosto em Dushubane, no Tajiquistão. Poucos dias depois da Rússia ter reconhecido a independência das repúblicas separatistas da Ossétia do Sul e da Abecásia, a OCX esteve reunida, numa momento em que Moscovo estava isolada internacionalmente a propósito do passo inesperado de oficializar o reconhecimento das duas repúblicas que formalmente fazem parte da Geórgia. Os parceiros da Rússia nesta organização inter-governamental, a China e as quatro antigas repúblicas soviéticas da Ásia central – Tajiquistão, Uzbequistão, Quirguistão e Cazaquistão – emitiram uma declaração comum em que é realçado o papel “activo da Rússia na região”, mas salientam também que desejam que a crise sejam resolvida por meios pacíficos e que deve ser tida em conta a integridade territorial das partes envolvidas, não sendo dado assim o aval ao reconhecimento da independência das repúblicas russófilas. A declaração não surpreende, mas ilustrativas do posicionamento da China no plano internacional e a forma como as quatro repúblicas se encaixam entre os vizinhos gigantes.

Continuar a ler no Sínico Esclarecido

Tuesday, September 09, 2008

Pela Cozinha "morre" o peixe (Samak)?

"Thai Prime Minister Samak Sundaravej has been ordered to resign after being found guilty of violating the constitution over a TV cookery show".
BBC

Leituras pós-dominicais (ainda as eleições em hong Kong)

"Avisos à navegação", José Rocha Dinis.
"Final farewell", The Standard.
"Um exemplo para 2009", Hoje Macau
"Hong Kong", Exílio de Andarilho.

Excertos do editorial do South China Morning Post - "Lessons to be learned from election results":

"In general, candidates who tackled livelihood issues and appealed to the working class did well; those perceived to favour business interests did not. The balance of power between the pan-democrats and Democratic Alliance for the Betterment and Progress of Hong Kong has not changed significantly. Both camps now have two fewer seats than after the 2004 election. The democrats, no doubt, breathed a deep sigh of relief. They managed to hold on to 23 seats, enough to have veto power over any constitutional reform package. This was despite widespread belief - even among democrats - that the camp would be hit hard by the calm political climate".

"Hong Kong's prosperity is built on free trade and free enterprise. All over the world, these assets are seen as conducive to democratic development. Sadly, this is not universally accepted here. The democrats need to show they are not anti-business, and the business community should realise the city's future lies with full democracy"

Resultados das Eleições Legislativas em Hong Kong (quadro Wikipedia)

election in hong kong
"Clicar" para ver quadro em tamanho maior.

Monday, September 08, 2008

Better than expected

Não se confirma o descalabro no Campo Pró Democracia em Kong Kong, que conseguiu obter 23 dos 60 deputados, menos dois que em 2004. Pelo contrário: as forças da oposição é que até subiram de 18 para 19 entre os membros eleitos directamente. A queda, já esperada, aconteceu entre os eleitores pelos sectores profissionais, no sfrágio indirecto, em que desceu de 7 para 4.
Ou seja, como escrevi na sexta feira, um resultado destes, tendo em conta as expectativas e o clima da campanha eleitoral deverá ser considerado como muito positivo para as hostes da oposição em Hong kong.
Num primeiro olhar há outros aspectos a registar:

1- O DAB, principal partido pró-governo e próximo de Pequim, surge como o partido mais votado.
2- O Partido Liberal - a segunda força política de apoio ao governo - afundou-se.
3- A afluência às urnas foi de apenas 45 por cento dos eleitores inscritos.
4-No Campo da oposição, o partido Cívico reforçou o seu peso (menos que o esperado) , mas o que surpreendeu foram os três deputados conquistados pela Liga dos Sociais Democratas (esquerda anti-governo)

(em actualização)

Com resultados parciais

Parece claro que o DAB vai subir bastante.

Interim results in the Legislative Council geographical constituency election show the DAB the big winner. The party's chairman Tam Yiu chung is leading in New Territories West by a wide margin, ensuring his re-election along with party member Cheung Hok-ming. In New Territories East, party vice chairman Lau Kong wah is also leading.

Eleições em Hong Kong (antes dos resultados)

Enquanto não chegam os resultados, a maioria dos analistas considera que o Campo Pró-Democracia está claramente na defensiva. No sufrágio indirecto é quase certo que vai perder representantes. Mas mais sgnificativa é a perspectiva de perder deputados eleitos pelo sufrágio directo. Manter os 18 membros conquistados há 4 anos será uma vitória para a oposição tendo em conta as expectativas. Isso parece contudo pouco provável, a fazer crer, pelo menos, nas declarações do vice-presidente do Partido Democrata, Sin Chung-kai,à RTHK.

"Democratic Party vice-chairman, Sin Chung-kai, says he is pessimistic about the outcome of this year's election for the pan-democratic camp. He expects the camp can at best secure 20 seats, five less than the current 25 seats in the legislature".

Veremos como amanhece Hong Kong e qual a dimensão da vitória das forças que apoiam o governo. Para o campo pró-democracia, descer de 25 para 20 seria entregar às forças leais ao governo central o controlo de dois terços do Conselho Legislativo. Menos que 20 deputados será um desastre para os partidos e forças políticas da oposição. A questão central tem a ver com os deputados eleitos directamente. Dos 30 nessa situação, o campo pró-democracia conseguiu há quatro anos eleger 18. Para Pequim é importante fazer recuar a oposição para que gradualmente até 2020, altura em que o governo central admite a realização de eleições directas para o parlamento, não haja "perigo" do LegCo ser dominado por movimentos não alinhados com o governo central. É certo que ainda faltam 12 anos, mas o projecto de reorganização e reestruturação do sistema de partidos políticos em Hong Kong está em marcha.

Friday, September 05, 2008

Hong Kong: pesando a balança

Texto publicado no jornal Hoje Macau (que hoje completa sete anos de actividades - Parabéns!)


José Carlos Matias

Há quatro anos, as eleições para o Conselho Legislativo de Hong tiveram um tom algo dramático e com contornos de acto eleitoral que podia ter peso no rumo das reformas administrativas e políticas da região administrativa especial vizinha. Na memória fresca estava ainda grande manifestação que um ano antes tinha colocado nas ruas meio milhão de pessoas contra o Artigo 23 e em protesto pela democratização do sistema político e contra as políticas do impopular Chefe do Executivo Tung Chee Hwa. Volvidos quatro anos, o Artigo 23, que deverá ser regulamentado primeiro deste lado do Delta do Rio das Pérolas, não surge na agenda da campanha eleitoral. Quanto à democratização do sistema político, a decisão de Pequim de abrir as portas à introdução do sufrágio directo e universal em 2017 secou parcialmente a principal mensagem do campo pró-democracia. Resta a impopularidade do chefe do governo. Curiosamente, tal como em 2004, o Chefe do executivo tem a popularidade “pelas ruas da amargura”. Depois de um início em “estado de graça”, este ano, a fortuna de Donald Tsang mudou. Paralelamente ao impacto que a inflação estava a ter no bolso do cidadão médio da RAEHK, rebentou a polémica em torno das nomeações de adjuntos e assessores do governo. A popularidade de “Sir” Donald recuou para os níveis mais baixos desde que substituiu Tung. Simultaneamente, o grau de apoio e confiança face ao governo central aumentou, ao mesmo tempo que milhares rejubilaram com a presença das estrelas chinesas que conquistaram as medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos.

Os comentários de cidadãos na internet, jornais e rádios indicam que existe uma certa saturação com a abundância de ataques pessoais e escassez de debate de ideias. O que mais preocupa os eleitores são as condições de vida e aspectos ligados à saúde, educação, ambiente e segurança, mostra um estudo recente da Universidade de Hong Kong.

Contas por fazer

Que impacto vão ter estes factores nos resultados das legislativas de domingo? Uma coisa é certa: o campo pró-Pequim manterá a maioria no Conselho Legislativo, uma vez que nos lugares eleitos pelo sufrágio indirecto deverão manter uma clara maioria. Estimativas recentes indicam que podem alcançar entre 23 e 25 dos 30 lugares “funcionais” e entre 10 e 13 dos outros 30 que são escolhidos directamente. Entre o também chamado “campo patriótico”, a Aliança Democrática para o Melhoramento de Hong Kong (DAB) espera poder reforçar a sua posição, na sequência dos óptimos resultados registados nas últimas eleições para os Conselhos de Bairro.

Do outro lado, o Partido Cívico poderá ombrear com o Partido Democrata pela hegemonia no campo pró-democracia, uma vez que tem projectado uma imagem de responsabilidade, competência e moderação, que deverá granjear um forte apoio entre sectores profissionais liberais e da classe média. Feitas as contas, o campo pró democracia poderá ser ficar satisfeito se conseguir subir de 18 para 19 deputados no sufrágio directo. Falta saber se consegue manter os sete assentos obtidos em 2004 no sufrágio indirecto.

Contudo, outros cálculos devem ser adicionados a estas contas. Os chamados não-alinhados poderão conseguir um ou dois lugares no Conselho Legislativo, sendo que vários dos grupos de “independentes”, são acusados por forças do “campo pró-democracia” de serem “submarinos” – ou seja, na verdade são próximos das forças pró-Pequim.

Deste lado do Delta

Em Macau, naturalmente, que as eleições vão ser acompanhadas com muita atenção. Contudo, tendo em conta as diferenças entre a cultura política das duas regiões administrativas especiais, não deverá haver óbvias consequências do resultado de domingo. Em todo o caso, se as forças “pró-Pequim” conseguirem fazer recuar empurrar o “campo pró-democracia” e, sobretudo, se a DAB aumentar o número de deputados eleitos directamente, certamente que as chamadas forças “tradicionais” de Macau sentirão que dentro de um ano têm todas as condições para reforçar o seu peso.

Monday, September 01, 2008

Sunday, August 31, 2008

blogstats
De acordo com o Statcounter, neste mês (Agosto de 2008) o Sínico registou pela primeira vez os 2 mil unique visitors e ultrapassou os 3 mil page viewers. A todos muito obrigado!!!
P.S. Nas útimas semanas, tenho notado com muito agrado uma subida considerável dos visitantes do Brasil e mais visitas de África.

Saturday, August 30, 2008

O Grande salto, 50 anos depois

José Carlos Matias

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 28-08-2008


“No ano passado a produção de aço foi de 5.3 milhões de toneladas. Consegues duplicar este valor este ano?”
Mao Zedong para o ministro da metalurgia da China, em Junho de 1958


“Está bem”, respondeu o ministro. Estávamos no início do processo de industrialização forçada que ficou conhecido com “O Grande Salto em Frente” (Dàyuèjìn). Em Janeiro de 1958, Mao tinha dado a conhecer o plano de modernização súbita da agricultura e da indústria em simultâneo, com o objectivo da China ombrear e mesmo ultrapassar os níveis de desenvolvimento das nações mais ricas do mundo. Para a história, fica a Grande Fome de 1959-61, período em que terão morrido 30 milhões de pessoas.
O Grande Salto, aceite hoje pela grande maioria dos historiadores e analistas, mesmo entre os neo-maoísta, como um desastre, marcou o fim do período inicial da Revolução em que ainda coexistia um regime de economia mista e um seguimento incondicional do caminho traçado pela União Soviética. Continuar a ler no Sínico Esclarecido

O erro táctico de Moscovo

Na Cimeira da Organização de Cooperação de Xangai, o presidente russo jogou tudo para conseguir o a poio dos restantes chefes de estado desta organização que integra a Rússia, China, Cazaquistão, Uzebequistão, Tajiquistão e Quirguistão.
Apesar dos parceiros de Moscovo terem referido numa declaração oficial que apoiam a “um papel activo” da Rússia na questão da Geórgia, mas salientam também que desejam que a crise sejam resolvida por meios pacíficos e que deve ser tida em conta a integridade territorial das partes envolvidas.
Uma declaração que na verdade não corresponde ao que Dimitri Medveded pretendia. Afinal a China e as quatro antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central não apoiam o reconhecimento da independência da Abecásia e da Ossétia do Sul.
Não é de admirar a oposição de Pequim à atitude de Moscovo. Oficialmente, a China procura não fazer decorações sobre o assunto e permanecer neutral, mas certamente que em Zhongnanhai o apoio ao separatismo não agrada à estratégia chinesa de promoção do respeito pela integridade territorial das nações e de não ingerência nos assuntos internos dos países soberanos. Tanto mais que a RPC tem as suas potenciais Ossétiasdo Sul e Abecásias (Tibete e Xinjiang).
Este posicionamento das quatro antigas repúblicas soviéticas reflecte também uma influência crescente da China sobre este espaço regional que Moscovo considera “naturalmente” a sua esfera de influência.
O Financial Times Deutchland sintetiza bem o que está em jogo:

“"The war itself found little resistance outside the EU and the US. But officially recognizing separatists is like spitting in the soup of governments all over the world. Lots of countries contain minorities who dream of independence. Encouraging them with unilateral diplomatic action isn't a good way to make friends".

Pequim tem promovido o reforço dos laços com Moscovo. Essa é uma pedra de toque da política externa chinesa, mas apoiar a independência da Ossétia do Sul e da Abecásia seria um abalo forte na retórica de Paz e Desenvolvimento, respeito pela integridade territorial dos estados e resolução dos conflitos por via do diálogo e consulta, Palavras que povoam a retórica da diplomacia chinesa.

Ler também:

"Security Group Refuses to Back Russia’s Actions"
, NYT.
"'Russia Made a Tactical Error'", Der Spiegel

P.S. Este erro táctico de Moscovo vem no seguimento de um primeiro erro de avaliação do aventureiro Mikheil Saakashvili.

Wednesday, August 27, 2008

Sunday, August 24, 2008

O que a China pensa

Mark Leonard editou este ano "What does China think". Um livro (na wish list) em que o autor procura desvendar que correntes de pensamento político sobressaem no interior do Partido e nas elites intelectuais do país. Harry Kreisler, do institute of International Studies da Universidade de Berkeley, Califórnia, entrevista Leonard na excelente série de entrevistas "Conversations with History".

Leituras Dominicais



"CCP Lauches Personnel reform to stem "Mass incidents", Willy Lam no china Brief.
" Grassroots Democracy and Local Governance in China", CEG.
" Why China's village ballots become selling stocks", CEG
New strategies for 'democratizing; China", James Gomes no Asia Times.
"The Olympics: was China ready?", Li Datong no Open Democracy.

Artigos de Verão

No Sínico Esclarecido já estão disponíveis os textos que escrevi na coluna quinzenal em Junho, Julho e Agosto no jornal Hoje Macau.

"Novas e Velhas Esquerdas"
"De Pequim a Nova Deli: para além da Chíndia"
"Ameaça: reoputação, percepções e distorções"
"O urso abraça o dragão?"

Thursday, August 21, 2008

Hua Guofeng (1921-2008): O líder breve

Hua Guofeng


Em Tangshan, na província de Hebei, hoje Hua Guafengdeverá estar a ser lembrado de forma especial. Em Agosto de 1976, Hua visitou as vítimas do terramoto que provocou a morte a 250mil pessoas. Nessa altura liderou os esforços de salvamento de forma determinada e com muita humanidade.

Mas certamente que, para o resto do mundo, Hua Guofeng, falecido ontem ao início da tarde, é recordado como o líder breve que passou o testemunho, ainda que a contra-gosto, de Mao para Deng.

Nasceu na província de Shanxi com o nome Su Zhu, mas tal como outros revolucionários comunistas chineses adoptou um nome mais adequado à China pós 1949. Hua Guofeng é a abreviatura de Zhonghua kangri jiuguo xianfengdui", ou seja algo parecido com “Resistência Chinesa de Salvação e Vanguarrda”. Em Outubro, no último Congresso do Partido Comunista, em Pequim, ainda o vi ao longe na sessão de abertura, ao lado de outros seniores do Partido, como delegado especial. Por instantes tentei imaginar o que pensava de tudo aquilo. Afastei-me desse exercício quando me lembrei que a ele não era creditado qualquer rasgo sobre o rumo do socialismo com características chinesas.
Para a História fica como o sucessor sugerido por Mao, que à beira da morte, ter-lhe-á dito: “contigo no poder, fico descansado”. Primeiro em Fevereiro 1976 sucedeu a Zhou Enlai como primeiro-ministro após a morte do homem que chefiava o governo desde 1949; depois em Outubro, após a morte de Mao, Hua foi elevado a Presidente do PCC e a presidente da Comissão Militar Central. Pouco depois de ter assumido o poder, recuperou políticas socialistas anteriores ao Grande Salto em Frente. Após a morte de Mao, o Bando dos quatro, liderado pela esposa de Mao, Jiang Qing, foi detido para alívio de milhões de chineses que tanto sofreram ao longo da longa noite da década da Revolução Cultural. Embora seja conotado com a linha Maoísta do Partido, Hua ficou associado ao fim do poder do Bando dos Quatro e a um período de transição. Foi um líder breve, de transição e com pouco carisma. Na verdade só teve realmente poder entre 1976 e 1978, antes de Deng Xiaoping, que tinha sido reabilitado para vice-primeiro ministro por Hua em 1976 e caído em desgraça de novo pouco depois, conseguir organizar a coligação pró-reformas económicas.

A partir de 1978 as políticas passam a ser claramente ditadas pelo “Pequeno Timoneiro”, contra as posições ortodoxas de Hua, que recusava o programa de introdução da economia de mercado na China. Hua procurou elevar o princípio dos “Two whatever” - seguir sejam quais tenham sido as políticas de Mao e e as instruções que Mao deu” - a princípio geral da acção política. Hua queria manter o Maoísmo à tona, quando os ventos mudavam de direcção. Depois de esvaziar Hua de poder efectivo, Deng substituiu-o no cargo de primeiro-ministro por Zhao Ziyiang em 1981. Um ano depois, Hu Yaobang assumiu a liderança do PCC no cargo de Secretário-Geral, quando a figura de presidente do Partido foi extinta. Permaneceu até 1982 como presidente da escola Central do Partido. Apesar do seu afastamento, continuou no Comité Central do PCC até 2002, ano em que completava 81 anos. Foi-lhe permitido ultrapassar o limite criado a partir de Jiang Zemin de 70 anos para que um dirigente continue nos órgãos do Partido e do Estado.

Estando a anos-luz longe do estatuto de Mao e Deng (ou mesmo de Jiang Zemin ou Hu Jintao), Hua não deve ser olhado como um líder medíocre e de importância nula. Como dirigente de transição, foi instrumental no processo de transformação que estava a fermentar. Sendo ultrapassado pelas consequências, permitiu o fim do insano Bando dos quatro e deu espaço de manobra a Deng Xiaoping para voltar a Zhongnanhai. Mas claro que isso não é suficiente para aparecer entre Mao e Deng nos cartazes que celebram os feitos das várias gerações de poder na República Popular da China. Perdeu na luta pelo poder com Deng, mas manteve-se sempre fiel ao Partido. Por isso, ontem a agência xinhua descrevia-o, citando fonte oficial, como “um membro do PCC extraordinário, com uma lealdade testada ao Partido e um combatente Comunista e revolucionário proletário que ocupou cargos importantes no PCC e no governo”. Um líder breve com vida longa e de outros tempos.


Sunday, August 17, 2008

Parabéns

Ou Mun 50 anos
O Jornal Ou Mun, designado em inglês Macau Daily News e em cantonense Ou Mun Iat Pou (Ao Men Ribao, em mandarim) completa 50 anos. Sendo de longe o jornal em língua chinesa mais lido e a publicação claramente mais influente no território, é uma fonte fundamental para entender uma certa forma de olhar para Macau ao longo das últimas cinco décadas, uma vez que está ligado desde a sua fundação às posições de Pequim.

Saturday, August 09, 2008

Novas e Velhas Esquerdas

Texto publicado no jornal Hoje Macau em 07/08/2008

José Carlos Matias

我们仍然在仰望星空
Women rengran zai yangwang xingkong*


À primeira vista, o debate ideológico na República Popular da China está moribundo. O Partido Comunista Chinês (PCC) “desincentiva” a expressão pública de vozes dissonantes que atacam ferozmente a linha oficial e imprime o ritmo de manufactura da semântica que mantém viva a perspectiva da construção do “socialismo com características chinesas”. Não deixando de ser assim, ao longo dos últimos 18 anos têm sido publicados artigos e livros na China que destoam da retórica oficial e que colocam em causa a forma como “a economia de mercado socialista” está a ser construída.
As vozes que têm mais eco no exterior são as que defendem posições liberalizadoras quer politica quer economicamente: os “desvios de direita”, na linguagem clássica Maoísta.
Do outro lado do espectro, encontramos intelectuais que apontam o dedo à via capitalista seguida pelo governo central por esta estar a contribuir para a desintegração das redes sociais e a desvirtuar a natureza do estado socialista fundado em 1949. Neste campo, destacam-se duas linhas “esquerdistas”: os Neo-Maoístas e a “Nova Esquerda”. Os primeiros perderam muito do fulgor que os caracterizou na década de 1990, ao passo que os segundos têm emergido como um movimento com alguma influência junto do governo central e da liderança do PCC.

O revivalismo Maoísta

Após a repressão violenta sobre os estudantes na Praça de Tiananmen, foi lançada uma esmagadora “caça às bruxas” junto dos sectores próximos das posições dos ex-secretários gerais do PCC Hu Yaobang e Zhao Zhiyang. Nesse período, no início dos anos 1990, os denominados movimentos Neo-Maoístas ganharam espaço em jornais e revistas e conseguiram mesmo colocar algumas figuras na chefia de ministérios. Este grupo advoga um regresso à fase anterior ao Grande Salto em Frente e à Revolução Cultural. No início dos anos 1990 lançaram campanhas ao estilo Maoísta contra o aburguesamento de sectores do Partido e contra as reformas económicas.
Estas forças continuaram a ter algum espaço em boa medida porque eram patrocinadas por figuras da Velha Guarda como Deng Liqun. O fantasma do colapso da União Soviética foi avivado durante os anos 1990. Nos seus artigos, os autores culpavam a abertura económica pela corrupção, desemprego, despedimentos de empresas estatais entretanto privatizadas e desigualdades sociais. Uma das principais publicações deste movimento, a “Contemporany Ideological Trends” resumia a posição Neo-Maoístas de forma clara: “No passado os colonialistas ocidentais usaram o ópio para nos envenenar, agora a burguesia tenta usar os seus valores para nos transformar”. O espaço para a “extrema-esquerda” diminuiu consideravelmente fruto de acção directa do próprio Deng Xiaoping, primeiro, e de Jiang Zemin, mais tarde. Durante a primeira década do Século XXI ganhou força outra sensibilidade, também à esquerda da linha oficial do PCC, mas com características diferentes.

Uma “Nova Esquerda” com características chinesas

A “Nova Esquerda” chinesa tem vindo a ganhar peso quer junto de professores e estudantes, quer de dirigentes do Governo. O termo “nova” pode enganar e levar a uma analogia com a “Nova Esquerda” europeia filha do Maio de 1968. No caso da China serve para distinguir este grupo de intelectuais da “Velha Esquerda” chinesa de raiz maoísta. Ao contrário destes últimos que se cingem ao marxismo leninismo clássico e ao Maoísmo, as referências da Nova Esquerda abrangem as obras de Immanuel Walerstein e Ferdinand Braudel ou movimentos como a Escola Crítica de Frankfurt e os Estudos Culturais.
O aspecto central das suas teses diz respeito à formulação de uma alternativa chinesa à globalização neoliberal. A “Nova Esquerda” critica ferozmente a forma como a abertura económica foi conduzida, levando a um agravamento das desigualdades sociais e ao alastrar da corrupção. Ao longo dos anos, muitos dirigentes políticos locais usaram arbitrariamente os seus poderes paras e tornarem empresários de sucesso à custa de expropriações ilegais de terras de uso colectivo de comunidades rurais para as entregar de bandeja a empresas do imobiliário. Na verdade, argumenta Wang Hui, o resultado tem sido uma aliança da elite política local corrupta com os interesses económicos e comerciais. Algo seguramente pouco socialista. Contudo, Wang aplaude a primeira fase das reformas económicas lançadas por Deng, entre 1979 e 1985. O problema surgiu, diz, quando começaram a ser destruídas as redes sociais.

A influência em Zhongnanhai

Apesar de todas estas críticas ferozes ao processo de desenvolvimento chinês, os textos da Nova Esquerda chinesa continuaram a ser publicados e a ser promovidos, especialmente através da Revista Dushu, dirigida até há um ano por Wang Hui. Além disso, as posições de Wang Hui, Cui Zhiyuan, Wang Shandong e Zhang Xudong começaram a ter eco nos círculos próximos de Hu Jintao e Wen Jiabao. Numa entrevista ao New York Times, Wang Hui esclarece a sua posição face ao estado e ao Partido: “O PCC ainda é a principal força transformadora da sociedade”. Quanto às políticas do Governo Central algumas apoiam outros não. “Depende do conteúdo das políticas”. Em 2006, Wen Jiabao proclamava a construção do “Novo Campo Socialista”, dirigindo-se às zonas rurais, como uma tarefa histórica crucial para o PCC. No mesmo discurso, o primeiro-ministro salientava a necessidade de encontrar equilíbrio entre crescimento económico e protecção do ambiente.
A declaração de Wen agradou à Nova Esquerda. Outras políticas sociais anunciadas em 2007 e 2008 contribuíram para que alguns analistas considerassem que este grupo esquerdista estava a ganhar cada vez mais peso junto do poder. O facto de Wen Tiejun, considerado próximo da Nova Esquerda, ter estado em sessões de “brainstorming” com Hu Jintao e Wen Jiabao reforçou essa percepção.
O facto de este grupo se opor a uma democratização de tipo ocidental ajuda a explicar o grau de tolerância manifestado pelas autoridades. A Nova Esquerda defende uma democracia socialista com características chinesas, uma expressão vulgarmente usada pela doutrina oficial. Por exemplo, Kang Xiaoguang, professor na Universidade Renmim de Pequim argumenta que a China precisa de construir um estado cooperativo – “Hezuo zhuyi guojia” - para lidar com problemas relacionados com a corrupção e desigualdades de rendimentos e na distribuição de riqueza. Kang defende um sistema organizado em sectores funcionais da sociedade, que pudesse negar à burguesia a posição dominante e manter justiça social.

A atenção aos desvios esquerdistas

Não se deve contudo exagerar no peso que este grupo tem. Tudo depende de até onde vão as críticas e quais são os equilíbrios internos nas altas esferas do poder. Exemplo disso é o facto de em Julho de 2007 Wang Hui e Huang Ping terem sido afastados da direcção da revista Dushu. A justificação dada pela Joint Publisher Co, editora estatal, não convenceu muitos intelectuais e leitores da revista. A editora argumentou que a Dushu estava a ter uma circulação reduzida, quando estava a atingir 100 mil de tiragem, o melhor desempenho em 28 anos de história da publicação. Outra razão dada disse respeito à linguagem da Revista ser demasiado específica. Apesar de aparentemente ser mais “à esquerda” do que Deng ou Jiang, a liderança de Hu e Wen não terá esquecido o que disse Deng Xiaoping em 1993: “A China deve estar vigilante contra os desvios de direita, mas deve sobretudo ser cuidadosa face aos da esquerda”.

*Título do livro da economista He Qingliang, em que a autora critica severamente o modelo de desenvolvimento económico e social da China e o princípio enunciado por Jiang Zemin dos “Três Representantes”. A tradução do título do livro é algo parecido com “Nós ainda estamos a olhar para o céu estrelado”. O livro foi lançado em 2001 e prontamente proibido na República Popular da China.

Friday, August 08, 2008

Breves notas em dia O

Dia de abertura JO
1.
Não há dúvida. Carlos Monjardino é Sínico com C maiúsculo. Basta estar em Macau há algum tempo e ler este excerto de uma entrevista que deu ao Diário Económico para chegar a essa e a outras conclusões.

2. Em Pequim estão 80 chefes de estado e de governo. O presidente de Portugal Aníbal Cavaco Silva invocou razões de agenda para não comparecer. Os restantes países lusófonos fazem-se representar quase todos ao mais alto nível, com a presença dos presidentes do Brasil, Timor-Leste, Moçambique e Angola.
Passe o dramatismo, João Severino bem escreve :
"
É inacreditável como os mais altos responsáveis de um país que esteve intimamente ligado durante séculos a outro país, (através da presença em Macau) possam ofender e magoar de tal forma tão significativa a "face" dos governantes chineses, renegando a uma presença simbólica numa cerimónia de abertura. Com uma agravante vergonhosa: a justificação de que não poderiam estar presentes por uma questão de "agenda". Deverá ser a "agenda" de um banho na praia de manhã, uma sardinhada ao almoço, um mergulho na piscina à tarde e uma mariscada ao jantar."

3.
我與奧運的! Que sejam os Jogos da vida deles (atletas). Sitius, altius, fortius!

4. Ao longo dos Jogos Olímpicos, o Sínico estará em câmara lenta.

5. A cerimónia está a ser ...




Tuesday, August 05, 2008

Kishore Mahbubani

O Exílio de Andarilho chama aqui a atenção para Kishore Mahbubani, professor na Lee Kwan Yew School of Public Policy da Universidade Nacional de Singapura. Antigo embaixador da cidade-estado nas NAções Unidas, Mahbubani defende a inevitabilidade da decadêcnia do Ocidente e da Ascenção da Ásia. Mais, argumenta a favor de um excepcionalismo asiático na análise do modelo demo-liberal ocidental. O seu livro The New Asian Hemisphere, The Irresistible Shift of Global Power to the East está a gerar um debate bem ineterssante. Nesta entrevista a harry Kreisler, Mahbubani diz o que pensa:

Leituras Pós-Dominicais e Pré-Olímpicas

tatuagens olimpicas
Foto: Andre Kosters
"Time to stop criticising China - we've already come so far", Lijia Zhang no The Observer.
The power of sports: how will the Olympics change Beijing?", Sean Ding no CEG.
"China ready to put best foot forward for Games" China Daily, via CEG.
"For Games, China playing to the gallery", Evan Osnos.
"Beijing revives Mao's “People's Warfare” to ensure trouble free Olympics", Willy Lam.

Friday, August 01, 2008

Nem Mais!

Editorial South China
Último parágrafo do Editorial do South China Morning Post, 01-08-2008.

Cartazes de Propaganda na China II

Photobucket
Celebrar com grande alegria e entusiasmo a publicação da Constituição da República Popular da China.
Pintado por Yu Yunjie. Publicado em 1954
Retirado de "Chinese Propaganda Posters: From the Collection of Michael Wolf", p.85

Wednesday, July 30, 2008

Broken Promise!

"Web sites will be censored at Beijing Olympic media centers, a spokesman for the organizing committee said Wednesday, contradicting a pledge to allow foreign reporters unlimited access to the Internet.Web sites of organizations critical of China, including Amnesty International and Reporters Without Borders, are unavailable at the main press facility in Beijing. Sun Weide, the chief spokesman for the Beijing Olympics organizing committee, said journalists would not be allowed to access Web sites connected to banned organizations like the Falungong religious movement. He declined to comment on the unavailability of other Web sites".

"China to censor Web at Olympics", IHT.


Ver também "Descobre-se a pólvora... e vende-se papel ", Maria João Belchior no China em Reportagem.

Sunday, July 27, 2008

De Pequim a Nova Deli: para além da Chíndia

Texto Publicado no jornal Hoje Macau, em 24/07/2008

José Carlos Matias

É um lugar-comum enunciar que este vai ser o século da Ásia, num processo liderado pela China e pela Índia. Os dois “gigantes asiáticos”, como se lê amiúde, preparam-se para representar, em meados deste século, metade da riqueza produzida no mundo, dizem os especialistas. Alguns, como o economista e político indiano Jairam Ramesh, falam mesmo no conceito de Chíndia, um mercado bi-nacional que se complementa, juntando a “fábrica” (hardware) ao “escritório” (software). Enquanto slogan, o conceito agrada, mas a realidade mostra à saciedade factores que indiciam potencialidades de competição e divergência de interesses.
Ler artigo na íntegra no Sínico Esclarecido
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Friday, July 25, 2008

Cartazes da propaganda na China I

caratz saude e desporto
Prestar atenção à higiene, intensificar o treino desportivo, melhorar a saúde pública.
Nos cartazes da imagem está escrito: É importante associar o desporto e a higiene. Erradicar as quatro pragas (mosquitos, moscas, ratazanas e pulgas) e cuidar da higiene. Plano de Desporto e higiene.
Departamento Popular de propaganda da Higiene de Xangai.

Retirado de "Chinese Propaganda Posters: From the Collection of Michael Wolf", p. 102

Tuesday, July 22, 2008

Guangdong: os avisos de Wen

Wen Jiabao fez um apelo a Guangdong para reestruturar a economia e aprofundar reformas, de forma a transformar a província numa zona de manufactura de classe mundial e num moderno centro de serviços.
As declarações de Wen jiabao surgem depois de dados indicarem um abrandamento no ritmo de crescimento da província de Guangdong, que lidera há 30 anos as reformas económicas na China.

"Premier Wen Jiabao has called on Guangdong to speed up economic restructuring and deepen reforms to turn the province into a world-class manufacturing base and a regional centre for modern services.
Mr Wen also acknowledged that the nation's economic development faced many problems and contradictions and called on cadres to keep control of prices and ensure stable economic development" (...) "Mr Wen suggested the province should enhance its international competitive edge, create a fair business environment, have an innovative mind and enhance its co-operation with Hong Kong and Macau"

"Wen urges Guangdong to restructure, deepen reforms" SCMP, 21-07-2008.

Tuesday, July 15, 2008

Zakaria e o Mundo Pós-Americano

O livro, que ainda estou a ler, como esperava é magnífico, na linha do anterior - "O futuro da Liberdade". Fareed Zakaria é um dos mais lúcidos e sensatos "leitores" do mundo. Vale a pena ver esta entrevista à BBC, a propósito do livro "The Post American World":