Tuesday, November 15, 2005

A História Desconhecida de Mao

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A propósito dos livros de Jung Chang, Helena de Sousa Freitas da Agência Lusa escreve sobre a mais recente obra da autora de Cisnes Selvagens, escrita em conjunto com Jon Halliday:

"Uma nova biografia de Mao Zedong, cuja tradução portuguesa será lançada em Dezembro, assegura que o líder chinês "foi responsável por mais de 70 milhões de mortes em tempo de paz", superando qualquer outro dirigente do século XX.
O livro, "Mao - A História Desconhecida", foi escrito por Jung Chang, celebrizada com o best-seller "Cisnes Selvagens", e o historiador Jon Halliday, que virão a Lisboa para o lançamento da edição portuguesa, dia 06 de Dezembro.
Os dois autores, marido e mulher, afirmaram, aquando da publicação da biografia de Mao em inglês, que o objectivo dos mais de dez anos da sua investigação era desconstruir o mito de Mao como o criador benevolente da China moderna.
No entanto, asseguraram ter-se aproximado de Mao Zedong com abertura de espírito e tendo em vista expor factos sem fazer qualquer tipo de julgamento moral.
Mao Zedong, o fundador da República Popular da China, em 1949, morreu em 1976 com 83 anos.
O livro, que a editora Bertrand coloca nas livrarias a 02 de Dezembro, revela que, dos 70 milhões de mortos, 38 milhões morreram de fome, pois Mao exportava o máximo de alimentos para, com o dinheiro obtido, adquirir armamento e fabricar a bomba atómica chinesa.
Os autores encontraram documentos que provam que Mao Zedong lia descansadamente apesar de ter plena consciência de que as suas tropas estavam a morrer e a população chinesa trabalhava, em média, vinte horas por dia.
A biografia revela ainda que Mao mandava transportar peixe vivo ao longo de mil quilómetros, só porque não gostava de comer peixe congelado, e apenas tinha à sua mesa um arroz especial, tendo ainda criado um "harém" de jovens e atraentes mulheres para satisfazer as suas necessidades sexuais.
"Mao - A História Desconhecida" afirma igualmente que a Longa Marcha de pessoas que se deslocaram do sudeste para o Norte da China entre 1934-35 tinha por objectivo a ligação com a Rússia para a obtenção de armas.
Os investigadores garantem ainda que muitos dos detalhes épicos e heróicos dessa marcha de 9.000 quilómetros do Exército Vermelho em fuga aos soldados nacionalistas de Chiang Kai-shek foram criados para enaltecer a glória de Mao.
O volume mostra como Mao chegou ao topo, revela detalhes sobre a formação do Partido Comunista Chinês e refere que o apoio da União Soviética foi constante, algo que o "imperador vermelho" sempre negou.
A obra revela ainda que o líder comunista não fez grande oposição aos japoneses quando estes invadiram a China por saber que assim enfraqueceria o poder dos nacionalistas chineses, com quem estava em conflito.
Outra das importantes revelações do livro de Jung Chang e Jon Halliday refere-se ao papel de Mao na génese e prolongamento da guerra da Coreia entre 1950-53.
Os dois investigadores concluem que Mao não era um marxista convicto, mas um homem obcecado com o poder, que chegou a privar um antigo braço-direito de tratamento médico a um cancro para que este não viesse a sobreviver-lhe.
O líder que mandava prender, torturar e executar publicamente os seus opositores, também aterrorizava as suas tropas, mostrava desdém pelos amigos e familiares e chegou a abandonar os próprios descendentes.
Um casal a vender os filhos para conseguir fundos para o partido, uma mulher obrigada a caminhar na Longa Marcha em pleno trabalho de parto, camponeses famintos que recorriam ao canibalismo são alguns dos episódios relatados no livro.
O volume, com mais de 800 páginas, inclui a lista dos entrevistados, informação sobre a documentação consultada, cerca de 80 páginas de notas e mais de duas dezenas de páginas com referências bibliográficas.
Jung Chang nasceu na província chinesa de Sichuan, sudoeste da China, aos 14 anos integrava a Guarda Vermelha e apregoava slogans maoístas pelas ruas, mas, aos 16, quando os seus pais foram presos, entrou em ruptura com o maoísmo.
A investigadora mudou-se posteriormente para o Reino Unido, onde viria a estudar Linguística na Universidade de York, e tornou-se a primeira chinesa a obter doutoramento por uma universidade britânica.
O seu livro "Cisnes Selvagens", uma saga familiar que acompanha três gerações de mulheres chinesas, vendeu 10 milhões de cópias em todo o mundo e está traduzido para mais de 30 línguas, embora continue proibido na China comunista.
O êxito do livro possibilitou desafogo financeiro à autora, e permitiu que ela e o marido realizassem uma investigação que previam durar cerca de dois anos, mas se prolongou por mais de uma década.
A celebridade conquistada por Jung Chang com o livro também ajudou a "abrir portas", facilitando o contacto com personalidades internacionais como Dalai Lama, Imelda Marcos, Henry Kissinger, Mobutu ou George W Bush.
Familiares e pessoas do círculo mais íntimo de Mao que nunca tinham falado antes (intérpretes, criados, guarda- costas, médicos, namoradas) e pessoas fora da China com quem este teve uma ligação significativa foram outras das fontes.
Além destes testemunhos, registados em centenas de entrevistas, os dois autores pesquisaram em arquivos na China e na Rússia, tendo acedido a antigos documentos secretos da União Soviética.
Os arquivos do antigo governo comunista de Moscovo, arquivos da Albânia e da antiga Alemanha do Leste foram consultados demoradamente por Jon Halliday, ex-investigador agregado ao King+s College, da Universidade de Londres, e um fluente falante de russo.
A biografia "Mao - A História Desconhecida" não será publicada na China, onde Mao continua a ter o seu retrato na Praça Tiananmen, no centro de Pequim, e ainda é venerado como um herói revolucionário na comunicação social e no ensino.
Por esse motivo, Jung Chang e Jon Halliday, que residem actualmente em Londres, consideram que o grande objectivo da biografia é ser lida pelos chineses, uma vez que se trata da sua própria História."

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4 comments:

AA said...

comprado, ainda não lido...

Nuno Lima Bastos said...

Parabéns pelo texto seleccionado e aqui colocado. Ficamos a aguardar a edição portuguesa da obra.

contraditorio said...

Obrigatório... a julgar pela excelencia dos "cisnes selvagens"

Silvia said...

Simplesmente maravilhoso. Um livro sério e fantastico que deveser lido e relido.

www.materioridade.blogspot.com