Friday, August 24, 2007

NATO do Oriente?

Criada em 1996 sob a designação de “Shanghai Five”, a Organização de Cooperação de Xanghai (SCO, na sigla inglesa) surge aos olhos de muitos analistas ocidentais como uma “NATO do Oriente”, em ascensão. Em traços gerais, a SCO funciona cnum sistema de “2 mais 4”, ou seja China e Rússia como potências que se aliam num plano de igualdade de tratamento, juntamente com cinco das antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central: Cazaquistão, Uzbequistão, Tadjiquistão, e Quirguistão.
A SCO foi descrita na Cimeira de São Petersburgo, em 2002, como um instrumento regional de combate “o terrorismo, extremismo e separatismo”. Ao nível do “power politics”, aos olhos dos dirigentes russos e chineses, a SCO aprece como um instrumento estratégico para a partilha da dominação sobre as antigas república soviéticas e os restantes países vizinhos da Ásia Centra. Mesmo considerando que estes três “inimigos” são ameaças comuns aos seis estados membros, a verdade é que a China e a Rússia procuram com esta organização limitar a influência crescente dos Estados Unidos na região que aumentou tremendamente desde a invasão do Afeganistão. Desde então, Washington estabeleceu bases militares no Uzebequistão, no Tajiquistão e Quirguistão (entretanto apenas subsiste a base militar em território quirguíze). Ou seja, a presença norte-americana na região funcionou também como um estímulo a este dinamismo regional. Curiosamente, na região quer os Estados Unidos quer a Rússia e a China convergem no objectivo da “Guerra ao Terrorismo”. No entanto a cumplicidade dos dois últimos é táctica, devido aos problemas no Cáucaso Norte na Rússia e em Xingjiang na China. Por detrás da cortina de fumo do luta anti-terrorista, os grandes poderes colocam as peças no novo xadrez político-económico da Ásia Central, uma zona onde as questões energética assumem um papel fundamental nas estratégia geopolíticas d Rússia, China e Estados Unidos.
Na cimeira realizada este mês em Bishek, este mês, várias mensagens foram interpretadas pelos analistas como recados à postura norte-americana nos assuntos internacionais.
Além das seis nações que fazem parte da SCO, a organização contempla cinco estados observadores: Índia, Paquistão, Mongólia, Irão e Turquemenistão. À semelhança da cimeira da Ásia oriental realizada em 2005 em Kuala Lumpur, os Estados Unidos não foram convidados. Se lá estivesse um alto representante de Washington, em Bishek, teria o “prazer” de estar num encontro em que um dos focos de atenção foi o presidente iraniano Mahmoud Ahmedinejad. Por essa e por outras razões, Washington não encara com bons olhos o processo da SCO. No entendimento de Russell Ong, da School for Oriental and African Studies, em declrações ao site EurasiaNet, "In the long run, countering the US [military presence] is the more important goal [than countering Islamist extremist forces] so getting American forces out would be a gain”.
M K Bhadrakumar, num texto de análise publicado no Asia Times, não tem dúvidas em afirmar que está a nascer uma “NATO do Oriente”, através da SCO:

“the Bishkek summit marks one more step toward the SCO's evolution into a "supra-regional" organization. It has gained observer status at the UN; it is forging links with sister organizations such as the Association of Southeast Asian Nations. That is to say, the SCO is incrementally placing itself on the same political pedestal as, say, the Organization for Security and Cooperation in Europe, and with a military profile somewhat resembling NATO's”

Naturalmente que a Rússia e a China afastam essa possiblidade. Vladimir Putin garantiu, nesta cimeira que

“As for the military component, it is not a military component as such but rather a counter-terrorism component ... I repeat that the military component is not the dominant and most important part of the SCO. Moreover, the SCO is not a closed organization. It is not a bloc organization. We hold military training exercises not only with the SCO member states but also with other countries, including with NATO member countries."

Já no ano passado, o governo chinês tinha supostamente clarificado a questão:

“SCO never aims to confront any party, and its goal has nothing to do with becoming a military organization. SCO is engaged in multi-field cooperation in China and all-sided exchanges in the international arena. Even when it comes to collaboration in security, SCO does not posture itself against the US or NATO as some people have claimed. It has no imaginary or imagined enemy; real enemies of the organization are terrorism, splittism and extremism as well as poverty, ignorance and backwardness”.

O grande jogo da Ásia Central está em marcha. Recursos energéticos, estabilidade transfronteiriça, luta contra o terrorismo, balança de poderes e multipolarismo são as palavras-chave. E a relação triangular China-Rússia-EUA é menos previsível que à vista desarmada. Quanto à União Europeia, enquanto a Moscovo e Pequim lançavam a SCO e os EUA faziam acordos para instalar bases militares na Ásia Central, Bruxelas não mostrava ter uma estratégia clara para esta zona do mundo. Prova disso é que apenas este ano foi realizada a primeira cimeira UE-ÁSIA Central.

1 comment:

Vitório Rosário Cardoso said...

Pacto de Varsóvia do Oriente?