Tuesday, March 21, 2006

Mário Telò

"Há duas opções: ou a política de contenção do crescimento e isolamento ou diálogo multilateral. A UE escolheu a segunda opção. Os Estados Unidos estão incertos, às vezes escolhem o diálogo multilateral, através da Organização Mundial do Comércio, outras optam pela contenção, na maneira como lidam com a questão de Taiwan, Coreia do Norte, a aliança estranha com o Japão ou através da presença militar no Afeganistão, Iraque. Há uma espécie de cerco feito pelos EUA à China, o que faz com que Pequim sinta insegurança e alguma desconfiança face às verdadeiras intenções de Washington. Já a Europa é bem mais clara nas suas intenções"


"O problema está em opor competitividade a coesão social. Não podemos ter competitividade sem coesão social, porque isso criaria o declínio da Europa. Só a coesão social sem competitividade provocaria o proteccionismo, a Europa Fortaleza a defender-se do mundo exterior, afastada da dinâmica da globalização. E qual é, então, a solução para este problema? A resposta está na Estratégia de Lisboa que procura combinar a inovação tecnológica e a sociedade do conhecimento com a coesão social"

"Seria um paradoxo que o país que inventou a Estratégia de Lisboa fosse aquele que a não conseguia aplicar. Portugal precisa de inovação. Foi capaz de inovar nos anos noventa e nos anos oitenta depois da entrada na Comunidade Europeia"

"a Europa tem poder como Marte. Não é uma entidade civil, é um poder civil. Poder é ter a capacidade de influenciar a decisão dos outros mesmo contra a vontade deles. Isso é poder. A Europa pode fazê-lo através de meios civis como o comércio, cooperação com países em desenvolvimento, ajuda humanitária, mudando o ambiente das relações internacionais. Multilateralismo, exportando multilateralismo para a Mercosur, ASEAN, cooperação regional em África. Esta é a maneira como a Europa exporta esta ideia multilateral de resolução de conflitos por meios pacíficos"

Entrevista publicada no jornal Hoje Macau

3 comments:

Vitório Rosário Cardoso said...
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Vitório Rosário Cardoso said...

Caro Zé Carlos,

As minhas discussões estão a ser mal interpretadas entre intolerância e combate político.
Pois num campo de batalha não pedimos ao ou combinamos com o inimigo ou adversário, para nos inflingir golpes à vez, ora espetas-me a baioneta no ombro, ora deixas-me dar-te um tiro na perna. É verdade que quem vai à guerra dá e leva e é mesmo assim. Em termos democráticos liberais e em sociedades abertas nada melhor do que estar sob constante julgamento da opinião pública, o que não quer dizer estar sujeito às opiniões publicadas, pois segundo Gramsci, ambos sabemos o que se passa actualmente, mas de qualquer modo, opiniões são opiniões.

Quanto ao multilateralismo idealista, e cego, pode também ser perigoso, devido à falta de pragmatismo.
Vejamos o que aconteceu com o multilateralismo das Nações Unidas em Timor-Leste, Timur Timur ou hoje Timor Loro Sae.

O multilateralismo das Nações Unidas tardaram a chegar, a intervenção humanitária chegou tarde e vidas humanas foram desperdiçadas.

O que os políticos de hoje têm de perceber é que na política lida-se com vidas humanas e estas NUNCA poderão estar sujeitas a experiências, do género "tentativa e falha", pois basta a mínima falha para se perder uma preciosa vida. Tal como há quem diga, "aquele regime comunista falhou, mas este é que é o autêntico, pois já que o comunismo tem ainda tenra idade, é desculpável, aprende-se com erros", nada mais grave tais afirmações, pois mais uma vez são vidas humanas que não podem ser utilizadas para ensaios.

A responsabilidade dos políticos nestes casos tem de ser muito grande, mas por outro lado, sabemos que em certas situações, temos optar por soluções que causem o menor dano possível, em situações extrema. Logo é um "jogo" constante no limiar, ou no fio da navalha.

Tudo para dizer que há momentos em que o multilateralismo pode ser prejudicial, no que toca por exemplo aos exemplos dos constantes bloqueios do conselho de segurança das Nações Unidas, entre as esferas ocidentais, e do leste.
Hoje em dia verificam-se as maiores disparidades de estratégias geopolíticas entre os países de tradição trans-atlântica e os continentais, no caso da Europa, ou blocos como a China e os Russos no continentes Europeu e Asiático.

Daí dar jeito ter em conta a visão realista, para em todo o caso estar pronto a reagir. Por outro lado percebe-se porque é que a UE tende mais para o multilateralismo, porque como sabemos em teorias de RI, os países mais pequenos, ou com menos capacidade de "hardpower", tendem a desvalorizar conflictos directos, ou por outras palavras, comprar guerras que não consigam ganhar, daí a França ser hábil em "softpower", sem nunca descurar do seu intrínsico chauvinismo, do seu pseudo-pretenciosismo de grande potência, e segundo um amigo meu africano do Gabão, actualmente a dar aulas e a estudar no Science Po, reconheceu que a política externa da França para África, é algo "hipócrita" e que nem sempre vinga o "softpower" mas sim o "hardpower" (capacidade bélica) e unilateral na defesa dos seus interesses estratégicos na África Ocidental, apoiando, colocando ou removendo ditadores, para garantir a lealdade e controlo da França.
Extendendo ainda um pouco mais, preocupo-me bastante com as incursões francesas pelo Espaço Lusófono, Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe (Saint Thomas et Principe - testemunhei esta designação no metro de Paris, num cartaz que mencionava o Festival da Francofonia), que já não é novidade para os britânicos, com o caso "Chirac-Mugabe".

Não podemos é fechar olhos aos interesses nacionais dos países europeus, que são muito fortes e que ninguém admite arredar mão disso, ie. caso da negociação dos fundos europeus, entre Londre e Paris, por causa da PAC.

Percebo também as ambições da França, sempre em que se meteu em guerras levou sempre à grande e à francesa, se não fossem os aliados a salvarem-lhe o couro, e como nunca dá a parte fraca, segundo De Gaulle, os franceses perdem sempre batalhas e ganham sempre as guerras, ou de um ponto de vista britânico o expoente máximo da resistência francesa é mesmo a colaboracionismo. Queria com isto adecuar a crítica de Chris Patten - in Chris Patten, Not Quite the Diplomat, Home Truths about world affairs - ao modus operandi da França na UE, que é normal que "minem" os organismos todos da UE, uma vez que estão localizados no espaço francófono e a língua até agora usada foi predominantemente o francês, é natural que tenham alguma vantagem comparativa. Mas com o alargamento a leste europeu, a história já mudou. Com os países saídos do antigo bloco de leste, com todo o seu horror ao "leste soviético", hoje esses estados são dos maiores aliados trans-atlânticos i.e. EUA, o idioma de comunicação tem sido frequente em inglês, o que quer dizer que a entrada dos novos estados membros da UE, veio a destoar o jogo da França, daquela França que diz, o que é bom para a França é bom para vós!

Sabendo das pseudo rivalidades da França para com os EUA, RU e todos os Estados de vocação trans-atlântica, logo só tem a escolha de ser fortalecer-se continentalmente. Lógico ser com a Alemanha do SPD, não tanto com a Alemanha da CDU/CSU, por privilegiarem as relações trans-atlânticas, NATO, EUA, mas acima de tudo a França tem de ser cada vez mais amiga da Rússia, arqui-inimiga dos EUA em termos de jogos geopolíticos, natural a China, por contestar o "cerco" ou as linhas "defensivas" dos EUA na Ásia-Pacífico e logo amiga da França.

Creio que sendo estas relações tão complexas, mais uma vez temos de saber bem o que anda por detrá disto tudo, e não ir a reboque de certas palavras chave.

Portugal é sem dúvida um Estado pró-EUA, que privilegia as relações trans-atlânticas, com os vectores trans-oceânicos apontados (Espaço Lusófono e locais com ligações históricas, sem descurar o espaço actual e natural que é a Europa, e os países de origem das comunidades imigrantes em Portugal - Conceito Estratégico de Defesa Nacional.

Não nos podemos olvidar ainda de certos grupos de pressão alinhados às ideologias do bloco de leste, que ao verem o Bloco derrotado pelos EUA, tenham hoje reacções revanchistas em relação ao ocidente capitalista, EUA principalmente, mas isso não é de admirar e daí apesar do Muro de Berlim ter caído, não é motivo suficiente para baixar a guarda perante o socialismo, comunismo, pois muitos transferiram dos campos de batalha físicos para o plano, lá está cultural e histórico i.e. Gramsci.

A posição da Comissão Europeia, composto por membros do Partido Popular Europeu e Democrático (PPE-DE) tem a consciência que é preciso levar ao extremo possível a competitividade, jogando ao máximo sem descurar a coesão social, é um jogo de equilíbrio, levada ao limbo. Caso contrário, descaindo por exemplo um milímetro para a coesão social, em termos competitivos, a Europa pode morrer, perante uma competição tão grande das regiões com grandes mercados emergentes, com altas taxas de crescimento e de sustentabilidade. Barreiras alfandegárias também não será opção, pois cairíamos no erro dos anos 20, mas temos de apelar a certas regiões para o cumprimento das regras internacionais e aplicar medidas anti-dumping.

Já sobre as tecnologias, isso é um pouco demagógico, pois se as nossas crianças não aprendem o conteúdo, a substância, até podem oferecer telemóveis e computadores forrados a ouro e com ligações a Marte, que em nada os potenciarão, consequentemente em nada se contribuirá para o desenvolvimento do nosso grandioso Estado-Nação.

Concluindo, julgo que devemos promover o multi-lateralismo, mas ao mesmo tempo sermos realistas e em alturas diíceis, não descurarmos das intervenções unilaterais, em casos de bloqueio e em momentos de perigo para a defesa dos interesses nacionais.

Já agora, todos sabemos que o Dto. Internacional é algo que nasceu do costume das relações internacionais, mas está longe de ter o mesmo carácter de qualquer ordenamento jurídico nacioal, veja-se, v.g. a coercibilidade, personalidade internacional do indivíduo. Estando ainda as Nações Unidas longe de serem um governo mundial.

Abraço,

Mariazinha said...

És tão culto!